A turma do contra

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Antonio Tozzi

Depois de muita tensão e calafrios chegou ao fim o shutdown (fechamento) do governo americano que durou 16 dias e deu um prejuízo à nação de $24 bilhões. O acordo fechado na undécima hora mostra que houve mais concessão por parte dos parlamentares republicanos do que convencimento de que o acordo deve ser duradouro.

Na verdade, fica-se imaginando, será que esta gente sabe o que está fazendo? O Partido Republicano não se conforma em ter perdido a eleição presidencial e quer mudar a regra do jogo. Detalhe: eles perderam duas vezes, ou seja, é óbvio que o povo americano não está aprovando a maneira dos republicanos de fazer política.

Pois bem, chega o momento de os republicanos se comportarem como políticos com P maiúsculo e o que eles fazem? Simplesmente recorrem a táticas condenáveis com o único objetivo de prejudicar o presidente e evitar, assim, que ele consiga implantar o Affordable Care Act (Obamacare) ou então que não sejam enviados recursos para custear o programa de saúde pública, ou ainda que se adie por um ano mais a sua implantação. Vale qualquer alternativa para eles continuarem destilando a cantinela de que o Obamacare é nefasto para a população.

Ora, depois de 16 dias de agonia, os Estados Unidos voltaram à estaca zero. Ou seja, toda esta comoção serviu apenas para desmoralizar ainda mais a classe política perante o eleitorado americano – e, por extensão, manchou a imagem dos EUA como potência no exterior. As pesquisas apontaram que o presidente Obama teve seu prestígio arranhado, assim como os democratas. No entanto, os grandes perdedores perante a opinião pública americana foram os republicanos.

Esta postura, aliás, foi muito criticada pelos conservadores mais moderados que cansaram de alertar a ala ultra conservadora sobre a tática suicida adotada por seus integrantes. Eles querem ganhar na marra algo que perderam nas urnas. Para invalidar o Obamacare, eles precisam fazer um esforço hercúleo para conquistar a maioria no Senado (hoje em poder dos democratas), preservar a maioria na Câmara dos Deputados e, sobretudo, vencer a eleição presidencial em 2016, colocando um republicano como sucessor de Barack Obama.

Ficou claro que o Partido Republicano, antes apenas um partido de tendência conservadora mas com uma política responsável, está sendo tragado pela onda do Tea Party, uma facção ultra conservadora que quer instaurar no país o reinado da anarquia, eliminando cobrança de impostos e erradicando todos os programas sociais. Algo assim como o capitalismo selvagem elevado à terceira potência. Isto tem irritado os líderes conservadores mais sérios que veem na irresponsabilidade dos integrantes do Tea Party uma receita para o fracasso.

Até mesmo o editorial do Wall Street Journal, bíblia dos capitalistas conservadores, criticou a postura dos membros do Tea Party, assim como os próprios colegas de partido que não disfarçam o quanto estão irritados em dividir a legenda com este bando de irresponsáveis. Um deles chegou mesmo a chamar o senador John McCain de amigo dos terroristas do Al Qaeda. Por aí dá para se notar que o Tea Party é uma excrescência na política americana.

A questão que se impõe é esta: como uma ala tão fora da realidade consegue ter tantos eleitores? A verdade é que tem. Embora não possuam força para eleger o presidente da República, eles usam a tática de guerrilha, com seus membros sabotando qualquer tentativa de acordo entre democratas e republicanos que eles não concordem.

Entretanto, apesar da trégua, tudo pode voltar novamente no início do ano que vem, uma vez que o acordo foi de curto prazo e não de longo prazo, como queriam Obama e os líderes democratas. No meio desta batalha está John Boehner (R-Ohio), presidente da Câmara de Deputados, que quer agradar todos seus partidários. Porém, ele às vezes assume lutas nas quais sequer acredita ou, pelo menos, que sabe terem poucas chances de vitória. Assim, ele precisa dividir-se entre os radicais do Tea Party e a ala mais sensata do Partido Republicano, ao mesmo tempo que não pode parecer fraco diante dos democratas e da Casa Branca.

Agora, com a poeira assentada, cabe ao líderes do Partido Republicano enquadrar os rebeldes do Tea Party e mostrar a eles que, com este tipo de atitude, afastam-se ainda mais do eleitorado, pelo menos do eleitorado mais esclarecido. De quebra, afugentam também os doadores de campanha que já começam a enxergar estes irresponsáveis como um bando de inconsequentes que pode por em risco a estabilidade da nação.

Sem dúvida, é uma tarefa árdua, mas necessária. Ou o Partido Republicano faz uma profilaxia em suas fileiras ou eles vão estar condenados a perder cada vez mais eleições. Pior ainda, vão passar a ser vistos como uma alternativa não confiável para governar o país. Numa democracia, é imperioso ter partidos de tendências conservadoras e liberais para assumir o poder sem que a nação sofra nenhum tipo de solução de continuidade.