Afinal de contas, vai ou não vai ter Copa?

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Jorge M. Nunes

Depois de uma semana no Brasil, sou obrigado a trazer de lá boas notícias, para desencanto dos mal humorados de plantão e dos que torcem pelo quanto pior, melhor. Tenho até a impressão que viajei para um Rio de Janeiro situado em algum universo paralelo, já que minha experiência por lá foi muito diferente da ameaçada nas mídias sociais e manchetes de algumas revistas e jornais suspeitos.

A começar pelo Galeão, ainda longe do ideal para o aeroporto de uma das cidades mais importantes das Américas, mas melhorzinho com a inauguração de uma nova ala no terminal de passageiros número dois. O desembaraço na imigração e na alfândega foi relativamente rápido e o aeroporto estava razoavelmente limpo.

Para minha surpresa, o taxista que me levou a Copacabana disparou elogios à cidade e ao Brasil em geral. Como de hábito sempre concordo com motoristas de táxi, mesmo discordando deles, fiquei desconcertado com a nova situação. Ele reconhecia os problemas óbvios, como violência, trânsito, corrupção e tudo o mais, mas dava amplo espaço para listar uma série de melhorias pelas quais o Brasil e o Rio de Janeiro estavam sofrendo por conta da Copa, em nível nacional, e por conta das Olimpíadas, no caso da cidade.

De fato, há tempos venho notando melhorias sutis e promissoras na cidade, como o fato de não haver mais fezes de cachorro por toda parte, ruas mais limpas por causa da lei que pune quem joga lixo nas calçadas, muito menos mendigos e menores abandonados, e uma certa prosperidade que se nota nos detalhes, como um comércio agitadíssimo, restaurantes e bares sempre lotados e shoppings que não devem nada aos americanos.

O motorista fez uma pausa nos elogios para falar mal do trânsito, obviamente prejudicado pelas obras que estão por toda parte, principalmente no centro da cidade. Mas logo justificou a bagunça argumentando que quando tudo ficar pronto vai melhorar muito.

Durante o percurso do táxi, procurei pelas bandeiras negras penduradas nas janelas em protesto contra a Copa, como estandartes anunciando a presença da peste. Não encontrei nenhuma, só bandeiras verde-amarelas. Numa janela ou outra, é verdade, mas sempre à vista. Nas conversas pela rua, não ouvi ninguém dizer que não vai haver Copa ou que era contra o mundial. O álbum de figurinhas dos jogadores é uma febre geral, e numa popular loja de departmentos as vendas de material promocional para a Copa do Mundo faziam fila nas caixas registradoras.

Tudo isso me fez pensar que o avião que me trouxe de Miami ao Rio tinha passado por alguma anomalia no campo magnético terrestre e aterrissado num mundo paralelo, já que a cidade não confirmava as descrições apocalípticas que se ouvem por aí.

Mas, durante um passeio pelo centro da cidade, por um momento quase acreditei que estava no Rio de Janeiro dos apocalípticos e desintegrados das mídias sociais. Em plena Cinelândia, meia-dúzia de gatos pingados vestidos de preto e cinza, alguns com camisas enroladas na cabeça, carregavam cartazes anti-tudo, vigiados de perto pela PM. Prevendo encrenca, desci rapidamente as escadas do metrô, onde cruzei com um sujeito fantasiado de Batman caregando um cartaz que dizia “Ronaldo traidor!” O Batman anarquista, que protesta contra tudo e contra todos, vai à manifestação de metrô, como qualquer mortal.

Mais tarde, em casa, soube que houve várias manifestações ao mesmo tempo no centro da cidade, infernizando ainda mais a vida dos trabalhadores presos no trânsito, já de hábito infernal. Vigilantes, professores, rodoviários e black blocs fecharam as ruas e saíram delas com nada mais que uma crescente antipatia da população contra esse tipo de manifestações, ainda que possa haver nelas a legitimidade de alguma reivindicação justa.

De volta à Flórida, leio a crônica do mestre Zuenir Ventura, n’O Globo, onde ele comenta a onda de mau humor que atingiu certo tipo de gente, que bate sem cansar a tecla do derrotismo, ao ponto de deixar atônitos atletas e jornalistas estrangeiros, procurando a razão de tanta reclamação. Zuenir também conheceu um taxista que acha que tudo vai bem – ou pelo menos melhorando sempre. Um leitor achou que o taxista otimista era uma ficção improvável, e um repórter da TV Bandeirantes teve que entrevistá-lo para provar que ele existia.

Não sei se o motorista otimista que me levou do Galeão a Copacabana é o mesmo que Zuenir cita em sua crônica, mas tenho certeza de que a proliferação de motoristas de táxi sensatos pela cidade, junto com o tom da crônica do mestre e tudo mais que vi em uma semana no Rio de Janeiro são sinais inequívocos de que vai ter Copa, sim, a despeito dos mal humorados e chatos de plantão.

E ainda vamos ser campeões.