Asilo pode ser a última opção para mineiro foragido da justiça do Brasil

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João Maximiano de Oliveira, o ‘Xurupita’, quer basear seu caso em supostas ameaças de morte que recebeu porque matou um homem em Vitória, há quase 17 anos

De dentro do Krome Detention Center, em Miami, e na iminência de ser deportado e extraditado, o brasileiro João Maximiano de Oliveira acredita que a sua permanência nos Estados Unidos depende da aceitação de seu pedido de asilo ao governo americano, sob a alegação de que ainda sofre ameaças de morte no seu país natal. É esta a estratégia que “Xurupita”, como este mineiro de 49 anos sempre foi conhecido na nossa comunidade no sul da Flórida, vai debater com seu advogado, Shayne Epstein, num encontro que terão ainda esta semana no centro de detenção. João Max é acusado de matar um homem com vários tiros, há exatos 18 anos, em Vitória (Espírito Santo).

“Eu matei em legítima defesa e se voltar ao Brasil não ficarei vivo um só dia”, acredita Xurupita. Ele se refere ao crime cometido no dia 15 de abril de 1991, quando reagiu a tiros a uma emboscada montada por integrantes da Scuderie Le Cocq, um grupo formado por policiais, que ganhou estigma de esquadrão da morte nas décadas de 60 e 70 na região sudeste brasileira. Na ocasião, a vítima foi o advogado Abisolon de Souza, com quem estava em atrito por causa de um apartamento.

No telefonema dado à redação do jornal AcheiUSA, João Max deu a sua versão dos fatos e esclareceu alguns pontos que ainda estavam obscuros. Na entrevista, “Xurupita” falou acerca da operação que resultou na sua prisão em casa, em Deerfield Beach, contou como são os seus dias na prisão e explicou as razões que o levaram a fugir do seu passado nos últimos 17 anos na América. “Sabia que ia ser preso e gravei um DVD contando toda a minha vida. Fiz tudo isso para continuar perto dos meus filhos, já que minha ex-mulher quis me tirar o direito da paternidade e enviou as crianças para o Brasil”, justificou João Max, que nos cerca de 10 anos que viveu na Flórida foi proprietário de uma loja de carros – a Guiauto – e atuava no mercado imobiliário.

AcheiUSA: Especialistas acreditam que você será deportado e extraditado em poucos dias. Como você está se sentindo?
Estou tranquilo, pois acho que tenho condições de permanecer nos Estados Unidos depois do pedido de asilo. Se voltar para o Brasil posso morrer no mesmo dia.

Ainda por causa do crime cometido em 1991?
Com certeza. Eles são uma máfia e mesmo que já não estejam mais em atividade, muitos de seus integrantes continuam livres. Sou um alvo.

Como aconteceu esse assassinato?
Fui cercado por cerca de oito pessoas quando ia me encontrar com um amigo, num restaurante de Vitória. Quando percebi que seria morto, atirei primeiro. Como fugi do flagrante e as investigações provaram que atirei em legítima defesa, não fiquei um dia na prisão, mas continuei recebendo ameaças da Scuderie Le Cocq por um ano. Até que no dia 26 de abril de 1992 resolvi vir para os Estados Unidos.

É verdade que você entrou pelo México?
Não, consegui um passaporte falso e entrei normalmente pelo aeroporto de New York, vindo de um vôo do Rio de Janeiro. Dali, fui para Boston, mas já estou há 10 anos na Flórida.

Como foi viver estes anos todos como um fugitivo internacional?
Jamais troquei meu nome e não vivia preocupado em ser encontrado pela polícia. Não tenho inimigos, mas tive problemas com minha ex-mulher e a família dela, no Espírito Santo, acabou me denunciando. Aí eu sabia que a prisão era questão de tempo, mas não pensei em fugir.

O que passou pela sua cabeça?
Só fiz questão de gravar um DVD com tudo o que aconteceu na minha vida nestes últimos 18 anos, desde o crime em Vitória, até as confusões com a ex-mulher por causa dos meus filhos. Ela me chantageou, me agrediu e ameaçou fugir com meus filhos. Quando viu que eu não ia desistir das crianças, pediu para os familiares me denunciarem lá no Brasil.

E a prisão, como aconteceu?
Estava jantando em casa, no dia 2 de abril, quando bateram na porta. Eu sabia que ia ser preso e não ofereci qualquer resistência. Os oito policiais do FBI, da delegacia de Broward e do ICE foram muito simpáticos e confirmaram que não tinham qualquer acusação contra mim aqui na América, só umas multas de trânsito. Só fui preso por causa desta pendência no Brasil e porque estou indocumentado.

E como têm sido os dias no Krome?
Há umas 64 pessoas detidas aqui e eu sou o único brasileiro. Passamos o dia jogando dominó, às vezes jogo futebol e tomamos sol no pátio. Apesar da monotonia, estou me sentindo bem mais tranquilo aqui do que lá fora, porque estava vivendo um inferno com a minha ex-mulher. Posso continuar atrás das grades, mas jamais vou desistir dos meus filhos.

Advogado de João Max opina sobre o caso

Consultado pela reportagem do AcheiUSA, o advogado Shayne Epstein discorreu sobre as possibilidades do pedido de asilo para o caso de João Max. Veja a seguir a opinião do especialista:

“Você precisa solicitar asilo dentro de um ano de entrada no país. A única exceção é se alguma coisa inesperada ocorrer, como uma mudança no governo que torna necessária a solicitação imediata. Para pedir asilo é preciso mostrar que você teme ser assassinado. Não é preciso provar que será assassinado, apenas que teme ser morto por causa da raça, opinião política ou orientação sexual. Atualmente, homossexuais brasileiros estão sendo aprovados por estarem sendo realmente perseguidos.

Se você perder o prazo de um ano, pode solicitar “proteção contra tortura”. Isto é como um asilo, mas pode ser solicitado somente depois de transcorrido o prazo de um ano. Neste caso, você precisa demonstrar que será assassinado. Não apenas temer ser morto, mas destacar que esta é uma probabilidade real e seu temor é procedente. João Oliveira entrará com este tipo de pedido, uma vez que vive aqui há 18 anos. Ele também pode apelar para a lei de cancelamento de remoção de 10 anos.  Isto se aplica quando você tem filhos americanos e pode comprovar que sua deportação causará um extremo dissabor para as crianças”.