Autores no novo milênio

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Paulo Tedesco*

Jose de -Alencar
José de Alencar, escritor

O mundo das telecomunicações se encontra numa séria e quase incontornável crise para seus negócios. Com o mundo do livro não poderia ser diferente, as empresas do mercado editorial brasileiro menos abertas à jogadas para saciar acionistas, como ocorreu nos Estados Unidos e prejudicou enormemente o mercado das pequenas e médias livrarias, estão optando por permanecer na defensiva, e procuram limitar a venda de direitos autorais, como também segurar acordos diante das pressões externas ao seu nicho.

Lembremos que o mercado fonográfico, não faz muito, foi devastado pela música digitalizada (produto de uma indústria menos preocupada com um produto cultural do que com investidores dados à especulação). O que pode, de certa forma, justificar a cautela de uma boa parte do mercado mundial de livros e em especial o brasileiro; sim, o livro digital é mantido propositalmente caro para o leitor e como há mais dúvidas do que respostas, frente à eventuais piratarias o negócio é ir com calma, muita calma.

À agressiva atitude de empresas como Apple, Microsoft, Amazon e Google para angariar espaço no mundo do conteúdo escrito, o mercado das editoras de livros nitidamente procura se reconfigurar com novas associações empresariais e financeiras. O que não deixa de traduzir a vitalidade dos empresários e corporações, pois sabem eles de seu futuro incerto, muito incerto, perigosamente incerto.

E os autores? Aquele que relê a escrita e a processa em nova e poderosa escrita, tão o mais poderosa que qualquer invenção científica, como fica? Seus contratos autorais, o melhor instrumento de ganhos de um autor, duram 5 a 10 anos, em média, e os prendem há negócios de rumo incerto, o que devem fazer? Como devem reagir? Se uma empresa fecha e seu CNPJ vira alvo de processos jurídicos e intervenções fiscais, pode se abrir outra empresa completamente nova, arranja-se outro nome para o dono da empresa, e tudo ressurge de nova cara; e para o autor, o que resta? Quem garante que com todas as mudanças no mundo editorial, sua remuneração e existência estarão garantidos? As gigantes digitais já lhes deram as costas, o mercado editorial e o estado darão também?

Muito se falou em torno de uma nova lei dos direitos autorais, como resposta à tanta incerteza, mas muito se falou e muito se enterrou. Então, quais as possibilidades de se organizar o mercado autoral e editorial de uma nação, a quinta maior economia do mundo, e por consequência forte exportadora de conhecimento? É preciso, com urgência, dar guarida ao autor como parte indispensável do crescimento nacional, é preciso ensinar nas escolas que 99,9% dos escritores não têm castelos na Europa, e que viver da escrita no Brasil e na maioria dos países, é um voto de sacerdócio, quase gratuito e recheado de incertezas.

Mas devemos retornar às origens, afinal o editor precisa também andar junto com o autor, e não como propõe a Amazon e sua campanha para se autopublicar sem qualquer mediação crítica, não à toa a empresa vem sendo rechaçada na França, país que tem a tradição de cuidar de seu mundo editorial e livreiro como um legítimo patrimônio nacional. E tem mais, é preciso também incentivar e proteger as pequenas e médias editoras, é preciso proteger as pequenas e médias livrarias, não somente através de algumas ações estatais, mas como importantes bens culturais, patrimônio de todos.

Falando em Amazon, vem à lembrança nossa Amazônia e sua complexidade biológica como o verdadeiro pulmão do planeta Terra. Bom, então, a escola criada por Antonio Isidoro da Fonseca e cultivada por Machado de Assis, José de Alencar, Erico Verissimo, Monteiro Lobato, Moacyr Scliar, gente que escreveu e editou, é, nada menos do que a nossa Amazônia do conhecimento escrito. Por que, então, não preservá-la? Por que não propiciar solo para seu crescimento? Por que não evitar ações predatórias? É preciso investir na formação do autor e por consequência do aluno, na profissionalização e na criação de salvaguardas para quem vive de escrever e de editar para que melhor se escreva.

A “livre mão do mercado” não mais satisfaz as necessidades educacionais e culturais. Se a tecnologia muda o mundo, a sociedade precisa é de respostas inovadoras, e que sejam rápidas, eficazes. Sob pena da cultura ver-se dragada por alguns conglomerados em troca do empobrecimento de bilhões.

*Paulo Tedesco é escritor e professor no curso O livro passo a passo, mais em www.paulotedesco.com.br.