Baile de máscaras

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O Halloween desse ano promete ser bem mais do que uma data comemorativa no calendário americano. Promete ser uma gigantesca manifestação popular contra abusos, desatinos e a surrealidade do momento histórico pelo qual passamos. 

Verdade que este ritual se repete todos os anos e canaliza a insatisfação popular com fatos e personalidades recorrentes mas, na América de Trump, aonde o Halloween acontece todos os dias, a data ganha ainda mais relevância para que o povo manifeste sua percepção desta realidade alternativa.

O discurso emocionado do senador republicano Jeff Flake, informando que não pretende concorrer a outro mandato em seu estado, é um apelo sincero a políticos sérios (sim, há politicos sérios) para que retornem a lucidez. Continuar pretendendo que não há um elefante branco na Casa Branca é um insulto ao bom senso. Larry Flint, sempre um provocador, foi ainda mais pragmático ao oferecer 10 milhões de sua fortuna a quem compareça com elementos que ajudem a montar um impeachment contra o líder máximo. Para ajudar o eficiente FBI, a publicação de um dossiê milionário, que detalha as tramóias do então candidato Trump já traz todo o dever de casa mastigado nas investigações de suas atividades com os russos. Mesmo assim, o sistema se mostra inerte. Até a formidável atitude de atletas se ajoelharem durante execução do hino em partidas esportivas, que denotava um símbolo de protesto popular, ja virou rotina.

Enquanto isso, curioso notar que em meio à saraivada de tiros pra todo lado, provocadas pelas acusações contra Harvey Weinstein por assédio sexual e que praticamente o condenou ao expurgo no inferno, não respingou nenhuma bala naquele que chega a se orgulhar de praticar assédio. Chegou a ser patético ver espaço nos noticiários à denúncia da atriz Carrie Steven de ter sofrido avanços do diretor Oliver Stone, ao receber uma inescrupulosa apalpada nos seios durante uma festa na mansão Playboy enquanto, fantasiada de coelhinha e com maiô generoso, distribuia drinks aos convidados que estavam ali para assistir a um culto religioso. Sobrou até para Bush pai, um idoso de 93 anos, capaz de fazer mal apenas ao Golfo Pérsico inteiro mas nunca para uma linda e indefesa atriz de segunda categoria como Heather Lind, que o acusa de produzir uma apalpada maliciosa no traseiro durante uma sessão de fotos. O bom velhinho se desculpou dizendo que foi apenas uma apalpada amistosa. Aonde estão as milhares de mulheres apalpadas, perseguidas, acariciadas, maltratadas e abusadas pelo topetudo?

Em meio a tudo isso, segue a gangorra infantil com a Coréia do Norte, com ameaças orquestradas e as noticias internacionais ficam em segundo plano. A Catalunha continua espanhola, O ISIS continua bombando, a desclassificação da seleção americana para a Copa do Mundo não surpreende ninguém e a saída da Inglaterra da União Européia já não interessa nem aos ingleses.

Com isso, o enredo predominante deste halloween provavelmente será a disputa de máscaras e caracterizações inspiradas por Weinstein e Trump. Neste baile de máscaras, o segundo quer reinar absoluto e trabalhou duro durante o ano todo para ser a unanimidade. Em meio a tantas tragédias e decepções, só mesmo este evento, equivalente ao nosso carnaval, para acrescentar o tão necessário bom humor ao terror impetrado pelo dia-a-dia.