Sinal fechado

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Opinião

Aquele cenário improvável, presente em filmes de ficção científica, de uma terra desolada pela escassez de recursos que obriga seres humanos a agirem como animais acabou acontecendo no Brasil. Ao longo de uma semana faltou praticamente tudo e pudemos presenciar em primeira mão quão frágil são os nossos padrões de vida. Sequestrados por uma greve de caminhoneiros, ficamos sem ter como ir e vir, sem acesso a dinheiro, produtos necessários, enfim… Mas o pior dessa hecatombe foi assistir à inabilidade do governo em lidar com essa crise. A bem da verdade, desde o impeachment de Dilma o Brasil segue desgovernado. Agendas políticas foram substituídas por agendas econômicas que só surtiram efeito positivo para as grandes indústrias e grupos econômicos que subsistem à base de exploração de mão de obra. O trabalhador, o indivíduo comum, vem pagando pela conta de questionáveis avanços econômicos. Mas o que, de fato, acabamos de presenciar?

A greve começou, aparentemente de forma espontânea, em protesto ao elevado preço do óleo diesel e se alastrou como um vírus pelo país. Seus efeitos puderam ser sentidos já no segundo dia e, alheio a tudo, o (des)governo nem se deu ao trabalho de admitir que algo estranho estava acontecendo. O movimento tomou corpo, engrossou o tom e quando já estava ao ponto de justificar a tão temida intervenção militar, o (des)governo se ajoelhou e pediu arrego. Parece simples mas todo esse processo, que mais parece uma missa encomendada, gera mais dúvidas do que respostas e uma incerteza: Isso pode voltar a acontecer.

Não é de hoje que se sabe do poder que reside nas mão de quem controla o transporte rodoviário. Uma greve semelhante derrubou o governo Allende no Chile. Pior ainda é perceber que esta categoria de trabalhador, a dos caminhoneiros, não obedeça uma setorização unificada em termos de sindicalismo e capacitação profissional. O caminhoneiro é um ser nômade, sem ideologias, que nem precisa de muita instrução, basta saber dirigir e em suas mãos estão as chaves do país.São pessoas humildes, que não reconhecem lideranças mas cujo elo em comum é se unir pela solidariedade uns com os outros. Como foi possível unificar uma categoria tão dispersa em um movimento nacional? Ainda mais por um motivo tão ínfimo, centavos no preço do óleo diesel. Dado o seu poder de fogo, podiam pedir logo a redução desse preço a valores maiores mas curiosamente o movimento cedeu ao valor simbólico do que aparentemente queria.

Até os leigos no assunto sabem que movimentos sociais não ocorrem de forma espontânea, que o povo é apenas massa de manobra para grupos de interesse. Foi assim na revolução francesa, na inconfidência mineira, cubana e por aí vai. Sabemos que a singela redução no preço do diesel, que nem deve chegar às bombas, também não resolve os graves problemas do transporte rodoviário, como elevados preços de pedágios, qualidade das estradas, etc…Então, toda a presepada que se assistiu beneficiou a quem? A resposta a isso pode ser algo bem sinistro. A imprensa aponta para a possibilidade de locaute, ou seja, que o movimento tenha sido incitado por empresários de transporte mas que benefícios estes poderiam obter se seus custos são todos repassados?

Em meio a tantas questões sem respostas, fica claro que esta greve  teve tudo a ver com o atual momento político. O (des)governo se encontra estagnado, a espera das próximas eleições, para dar continuidade ao projeto de transformar o país em mão de obra barata. Ainda falta reformar a previdência e os grupos econômicos que tomaram o poder temem que isso não aconteça pois tudo indica que o eleitorado está mais para a esquerda do que se imaginava. O que fazer então? Óbvio, virar o volante abruptamente para a direita e, para isso, contar com apoio irrestrito da população.

O resultado dessa manobra violenta tomou fôlego nas redes sociais e nunca se implorou tanto pela volta dos militares o poder. No final das contas, reféns não fomos nós, nas mãos dos caminhoneiros, mas foram eles, nas mãos de um poder sinistro que empurra o país para a beira de um precipício sem volta.Tudo indica que a greve tenha sido um ensaio. Seu poder de fogo foi testado, suas consequências avaliadas e o momento de deflagrá-lo novamente pode ser em agosto. Não é preciso ser vidente para determinar essa data, basta olhar para o passado, perceber que esta encruzilhada é um sinal fechado e concluir que nada é tão previsível e manipulável que a pseudo-inteligência da maioria dos brasileiros.