Um tiro no escuro

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Opinião

Pouco mais de um mês após a intervenção federal na segurança ser decretada o Rio e já é claro que a medida não tinha o objetivo de atingir a este propósito, pelo menos não da forma em que é implementada. Os tiros que ecoaram no final da noite desta quarta (14), como tantos outros que ecoam todas as noites pelo Rio, desta vez atingiram em cheio o coração da resistência sóbria aos desmandos manipulativos do poder. A vereadora Marielle Franco não se tratava apenas de mais uma mulher de cor, moradora da favela, vítima do fogo cruzado entre as facções de poder que dominam as vidas cotidianas. Também não se tratava apenas da quinta vereadora mais votada no município e representante do PSOL, uma dissidência do PT e, por conseguinte, automaticamente na mira das elites que desprezam qualquer representação legitimamente popular. Não era ela também coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da câmara de vereadores e denunciante contumaz dos abusos cometidos pela polícia contra a população em nome da pantomímica intervenção militar. Ela era um incômodo dispensável no quebra-cabeças do poder.

O assassinato da vereadora vem somar à lista de fatos insólitos que, a medida em que se aproximam as eleições, vão se tornando mais comuns. Há poucos dias ocorreu uma execução em plena praça São Salvador, coração da boemia carioca, em plena madrugada e até agora não há nenhum esclarecimento quanto ao ocorrido. Assaltos, arrastões, roubos de carga, homicídios e tráfico de drogas continuam acontecendo normalmente, desafiando o poder público mas a população percebe que a truculência do Estado contra a população é maior. Os militares alegam que seu poder é limitado e para conter a violência precisam também do poder político.

Em entrevista à revista Piauí, pouco antes de entrar para a reserva, o general Hamilton Mourão, conhecido por suas falas desconcertantes em público, traçou um quadro apocalíptico da segurança no Rio e deu a entender que uma nova revolução está a caminho, só que dessa vez pelas urnas. Surfando na popularidade de Bolsonaro, que reabilitou a extrema-direita brasileira, ele prevê massiva candidatura de militares aos cargos políticos nestas eleições e fala ainda de uma “hecatombe” de grandes proporções, que vai justificar sua própria candidatura ao cargo de presidente.

A grande reviravolta a qual ele se refere tem a ver com o hiato que a ausência de Lula pode representar nas urnas. A atual composição política também não agrada aos militares e Temer também está na mira. A prisão de Lula vem sendo ensaiada há pelo menos dois anos e ainda não se sabe ao certo de suas consequências. Só o que se sabe é que aqueles trinta e poucos por centos de intenções de votos representam uma fatia considerável da população, um gigante adormecido que paulatinamente é minimizado pelo sistema, através de memes jocosas e pouco engraçadas, ridicularizando o ex-presidente nas redes sociais, compartilhados exaustivamente por idiotas manipulados. O brilhante desfile da Tuiutí, no carnaval, não foi suficiente para os paneleiros perceberem a instrumentalização que se fez deles.

Por estas razões, o assassinato da vereadora parece seguir um roteiro bem planejado de ações que visam testar a percepção pública. Em meio a toneladas de manifestações de solidariedade e luto, destoam as regozijo, por parte de eleitores de Bolsonaro e a extrema-direita que saiu do armário, agora sem constrangimento de expressar sua macheza e racismo exacerbado. O tiro em Marielle não foi apenas um tiro no escuro, foi na verdade em todas as mulheres corajosas, engajadas, informadas, faveladas, Foi na esquerda, no Lula, no Freixo, no Chico, no Caetano, no Jean Willis, em qualquer um que defenda o bom senso, em qualquer poder de resistência, foi no povo.