O Sonho Americano

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Opinião

Agora que as Coreias estão de mãos dadas e ensaiam um final feliz para suas desavenças, digno de último capítulo de novela das nove, Trump volta sua atenção ao Irã e decide bulir com os aiatolás barbudos para dar prosseguimento ao seu plano maléfico de destruir o mundo antes do fim de seu mandato. Não bastasse o caos absoluto que vigora nos EUA, provocado pela instabilidade social que ele mesmo faz questão de fomentar, ainda encontra tempo de desequilibrar tratados e acordos internacionais que foram conquistados a ferro e fogo por outros líderes. Aparentemente não interessa a ele fazer um bom governo e promover a paz social, coisa que qualquer pessoa bem-intencionada pode fazer mas, simplesmente provocar desavenças.

Ki, Jong Un, da Coréia do Norte, demonstrou maturidade ao perceber que estava lidando com um verdadeiro lunático e ao invés de cair na armadilha de ficar respondendo a insultos infantis, desferiu um cheque mate ao tomar a iniciativa de restabelecer relações com a Coréia do Sul, tirando onda de estadista sério. Outra iniciativa danosa do presidente americano, o aumento das tarifas de importação de aço, que não beneficia ninguém, periga isolar mais ainda os EUA do resto do mundo e suas consequências já estão dando resultados.

Na Europa, todos sabem que o regime Iraniano não tem o mínimo interesse em desenvolver armas atômicas, que se utiliza dessa ameaça apenas como moeda de troca para se livrar das sanções impostas desde a revolução de 1979. Romper o acordo agora só vai prejudicar economicamente as próprias empresas americanas que fazem negócios por lá. Então, por que mesmo assim o menino birrento insiste em nadar contra a corrente?

A bem da verdade, Trump sabe muito bem que não é uma unanimidade e que sua presidència está por um fio. Mentir e distorcer a verdade não tem funcionado e só lhe resta mesmo acontecer outro 11 de setembro para sua popularidade subir, nem que ele mesmo provoque um. Por isso, sua única estratégia é desviar atenção com iniciativas bombásticas, que só servem para ocupar a imprensa. Enquanto isso, os EUA rumam velozmente ao fundo do poço.

O problema é que atitudes impensadas como a dele tem influência ao redor do mundo e são interpretadas como gestos de espontaneidade altamente populares. Quem está de fora não sabe como o povo americano sofre, mas políticos de vários países se inspiram nele para justificar propostas das mais estapafúrdias. Volta e meia surgem candidatos de extrema direita na Europa que, embalados pela retórica anti-imigratória de Trump, amealham alguns dígitos de intenção de voto, inflamam o debate político para logo depois morrer na praia. No Brasil não é diferente e o maior beneficiário é Bolsonaro, que se sente a vontade em copiar o estilo confrontativo do líder americano para uma plateia desinformada de trogloditas.

Mas, antes de imaginarmos um fim cataclismático para o mundo, tal qual aquele do final de `Vingadores: Guerra infinita`, havemos de reconhecer que tais ideias retrógradas e desprovidas de bom senso encontram resistência na sociedade. Indivíduos como Trump, Bolsonaro e outras aberrações são apenas isso, caricatos. Fazem barulho, causam comoção, mas vêm com data de validade. Ninguém se lembra mais de David Duke, George Wallace, Joe McCarthy, Pat Buchanan e outros. No Brasil, a proposta de se instaurar a pena de morte foi pro túmulo, junto com seu proponente, Amaral Neto. Prova disso é que o até então, satânico mandatário da Coréia do Norte, reconheceu que para se perpetuar no poder de sua banda do mundo, precisava se reinventar, adequando-se ao mundo moderno, para infelicidade de Mike Myers, que o tinha como modelo de vilão nos seus filmes de Austin Powers.

Com relação ao dilema iraniano, líderes europeus saberão encontrar uma saída estratégica. Pelo menos até o momento em que a atenção de Trump se volte para outro ponto do Globo ou pior ainda, que resolva dar ouvidos aos conselhos do nebuloso Giuliani, seu atual advogado e conselheiro, e resolva declarar os EUA uma ditadura capitalista totalitária. Aí sim, poderemos observar uma total inversão de valores, com China ou Rússia despontando como bastiões da justiça social, prosperidade e bom senso e, sob a liderança absoluta e comando de Trump, os EUA se assumirão como nação belicosa e autoritária, sendo, portanto, ameaça à paz mundial. Parece brincadeira, mas o muro que ele pretende construir na fronteira com o México, já aventando a possibilidade de fazer outro na divisa com o Canadá, remete ao simbolismo daquele que havia em Berlim, feito para separar indivíduos e ideologias. Nesse contexto, pouco a pouco se desconstrói o sonho americano, as propostas de justiça e liberdade, de entendimento comum em benefício de todos, derrota do pragmatismo. O sonho americano cada vez mais se transforma em pesadelo.