Brasileira cujo filho foi agredido por gangue quer se mudar do sul da Flórida

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Doriane Carvalho conta que se sente constantemente ameaçada. Jason já saiu do coma e vai começar fisioterapia e reabilitação neste final de semana

A rotina da carioca Doriane Carvalho desde o dia 4 de abril tem sido rigorosa a mesma: ela passa praticamente 24 horas no hospital Broward General, em Fort Lauderdale, ao lado da maca onde seu filho se recupera de um gravíssimo acidente que quase lhe tira a vida. Jason, de 15 anos, foi agredido com uma barra de ferro na cabeça, teve fratura de crânio e ficou em coma por mais de um mês. Segundo Doriane, moradora de Pompano Beach, os autores do ataque foram elementos da Gangsta Disciples, uma gangue que vem atacando jovens no sul da Flórida.

Apesar da gravidade do caso, o estado de saúde de Jason, estudante da High School Deerfield Beach, melhora a cada dia. Ele foi submetido a duas operações no cérebro, mas agora já está consciente e não respira com a ajuda de aparelhos. Está ensaiando alguns progressos, como reconhecer os familiares e amigos e até se alimentar com sopas e comidas leves, vibra Doriane. No entanto, os médicos afirmam que o adolescente tem um longo caminho pela frente até a recuperação. A fisioterapia começa neste fim de semana e o garoto será transferido para o Joe Dimaggio Hospital, em Hollywood. Algumas sequelas, porém, serão inevitáveis.

As sequelas psicológicas também parecem incuráveis: assim que Jason sair do hospital e estiver liberado da fisioterapia, a mãe do jovem garante que não vai continuar morando no sul da Flórida. Até hoje me sinto ameaçada pelos integrantes desta gangue, que costumam passar pela porta da minha casa. Até mesmo no hospital tivemos que nos registrar com outro nome para não sermos reconhecidos, disse. No incidente, o irmão mais velho de Jason que também ficou ferido no ataque e foi até mordido por um cão pitbull de um dos membros dos ‘Disciples’ o acabou detido e passou dois dias na prisão, sob acusação de também pertencer a uma gangue.

Essa, aliás, é a grande mágoa de Doriane. Meus filhos não pertencem a grupos violentos. Jason, por exemplo, passa boa parte do tempo jogando videogame com os amigos na minha casa e eu conheço as famílias deles, assegurou a carioca. Ela, porém, confirma que soube de outros casos ocorridos na mesma região, com jovens do convívio dos filhos, e que Jason foi atraído para o local do conflito onde seus amigos tentariam vingar um deles naquele dia 4 de abril.

Doriane, que trabalhava com faxina e como bartender de um restaurante-flutuante em Fort Lauderdale, teve que abandonar suas atividades para ficar ao lado do filho. As contas do hospital estão sendo pagas pelo plano de saúde público da Flórida, mas ela já encontra dificuldades de pagar as contas de casa. Tenho três filhos, sou divorciada e tudo está sob minha responsabilidade. Mas graças a Deus encontrei apoio nos amigos e, o que é mais importante, Jason melhora a cada dia, disse a brasileira, que chegou aos Estados Unidos com apenas oito anos de idade.

Ela nunca poderia imaginar que passaria por uma situação dessas: Esta era uma região tranquila, sem violência, conta. Doriane aproveita para fazer um alerta à comunidade: Precisamos ficar de olho nas companhias dos filhos. Muitas vezes eles são levados a praticar atos e acabam em situações erradas, no lugar errado, na hora errada, finalizou a brasileira.

Caso não é isolado, segundo a polícia

De acordo com o detetive Thomas McInerney, do setor encarregado de crimes relacionados a gangues do Broward Sheirff Office (BSO), o caso envolvendo Jason é o terceiro do tipo na área de Pompano Highlands e Cresthaven nos últimos seis meses. No final do ano passado, supostos membros de uma gangue local agrediram um adolescente no rosto com uma barra de ferro, deixando-o em estado crítico, e em janeiro deste ano outro adolescente sofreu ferimentos graves no pulmão depois de passar por um ritual de iniciação para uma gangue.

O rapaze ferido no rosto no ano passado pertencia à turma de Jason e segundo o investigador, o grupo resolveu retaliar o ataque e saiu em busca dos inimigos. Jason e seis amigos subiram numa caminhonete, conforme confirmado por Doriane, e foram até uma casa na quadra 1700 da NE 48th Court, para enfrentar os rivais. No conflito que se seguiu, Jason foi ferido na cabeça.

O caso, no entanto, não foi isolado. Outra gangue, conhecida por ‘Riverside Gang’, atacou outro brasileiro em Coral Springs. O adolescente, também de 15 anos, que chegou à América há apenas 10 meses, foi agredido no ponto de ônibus perto da Forest Glen Midddle School quando estava a caminho da Primeira Igreja Batista (PIB), em Pompano Beach. Meu filho foi atingido no rosto por uma pedra, gratuitamente, conta a mãe do jovem, que preferiu não se identificar para evitar represálias.

O garoto reconheceu os agressores na escola, mas a família não prestou queixa na polícia. Não quero mexer em casa de abelha, afirmou a brasileira.