Brasileiros presos pela imigração contam suas experiências

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O carioca J. e o mineiro S. já estão em suas casas, ambas em Pompano Beach, para começar uma nova fase na vida, mas as lembranças dos últimos oito dias vão ficar para sempre na memória. Eles foram presos por agentes do ICE no dia 11 de maio, em Broward, simplesmente porque estavam dirigindo sem carteira de motorista válida. Sem antecedentes criminais ou ordem de deportação, eles foram algemados como criminosos e levados para uma ‘via crucis’ que terminou em um Centro de Detenção do Texas, sofrendo com o calor, mal-alimentados, incomunicáveis e passando várias noites em claro.

J. e S. não se conheciam, mas a situação inusitada acabou unindo os dois brasileiros desde o primeiro momento. “Os policiais já chegaram perguntando sobre o meu status imigratório e sempre ouvi dizer que isso é ilegal. Além disso, acho que o tratamento foi desumano, pois ficamos horas algemados e dias sem comer e dormir”, afirmou o mineiro, que vive há mais de cinco anos na América e jamais havia tido qualquer problema com a polícia, apesar de ter entrado pelo México. Ele e outros indocumentados ficaram o dia inteiro aguardando para que o processo de impressões digitais e identificação fosse concluído.

A primeira noite foi no Porto de Miami, antes de serem levados para o Broward Transitional Center, na Powerline Road. Sem qualquer informação das autoridades sobre o que poderia acontecer com eles e ainda impedidos de telefonar para familiares e amigos, os brasileiros foram embarcados num avião para o Centro de Detenção Willacy, próximo à cidade de San Antonio, no Texas. Antes, porém, fizeram uma escala numa prisão, onde passaram horas na companhia de criminosos comuns, “bebendo água da bica e comendo apenas um pão com mortadela e uma maçã o dia inteiro”, segundo relatou J.

No centro de detenção, e em companhia de pelo menos outros cinco mil indocumentados só naquela unidade, eles finalmente puderam fazer ligações telefônicas. “Minha mulher estava desesperada pois não recebia notícias e imaginava sempre o pior”, disse o carioca. Depois de alguns dias, ele conseguiu o direito de fiança e pagou seis mil dólares pela liberdade. Ainda abatido pelo trauma ” perdeu oito libras nestes oito dias “J. ainda não teve a data de sua audiência marcada. Entre recursos e apelações, seu processo pode demorar até 18 meses para ser concluído. “Nesse tempo estou proibido de trabalhar ou dirigir. Mas vou buscar uma via de legalização para permanecer no país”, declarou ele, que está há 10 anos na Flórida.

O mesmo aconteceu com S., que está em dúvida se retorna ou não ao Brasil. “A impressão é de que eles realizam estas operações para tirar dinheiro dos imigrantes e reforçar o caixa do governo. Somos trabalhadores e não oferecemos risco à segurança do país, caso contrário eles já teriam nos deportado”, afirmou o mineiro. Ele lembrou que os agentes do ICE falavam a todo o momento que gostavam muito dos brasileiros, no entanto tinham que cumprir seu trabalho.

Os dois resolveram contar o drama vivido na última semana para alertar a comunidade. “Os brasileiros devem tomar cuidado, mas têm que saber dos seus direitos, mesmo sendo indocumentados”, afirma o carioca. “O melhor é não mentir ou dar informações falsas sobre o próprio endereço ou status imigratório”, aconselha S..