Bush abre a porta a possível cidadania

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Discurso do presidente dos Estados Unidos, em rede nacional, propõe fortalecimento no patrulhamento da fronteira com o México e defende uma reforma imigratória mais justa

O presidente George W. Bush solicitou o deslocamento de milhares de soldados da Guarda Nacional na fronteira com o México e expôs suas condições para a possível obtenção da cidadania dos Estados Unidos para os milhões de indocumentados no país: pagar impostos, aprender inglês e trabalhar em um emprego por alguns anos.

À semelhança do plano Martínez-Hagel pendente no Senado, o presidente, pela primeira vez, fez uma distinção entre os indocumentados recém-chegados e os que têm raízes no país, os que “têm uma casa, uma família e, acima de tudo, antecedente limpo”.

O presidente Bush durante seu discurso destacou um aspecto muito importante, abrindo as portas à possível cidadania de milhões de indocumentados: “Há um terreno intermediário racional entre um caminho automático para a cidadania para cada imigrante ilegal e um programa de deportação massiva. Este terreno intermediário reconhece que existem diferenças entre um imigrante que cruzou a fronteira recentemente e alguém que trabalha aqui muitos anos, tem una casa, uma família e, além do mais, antecedente limpo”.

Ao estabelecer esta distinção, Bush não vê inconveniente em dar a cidadania se cumprir os requisitos, embora os tempos de espera devam ser demorados. “Creio que os imigrantes ilegais que possuem raízes em nosso país e querem permanecer devem pagar uma penalidade importante por ter descumprido a lei, pagar seus impostos, aprender inglês e trabalhar em um emprego por alguns anos. As pessoas que atendam estas condições devem ser permitidas que solicitem a cidadania – mas sua aprovação não seria automática, e terão de ir para o final da fila, atrás daqueles que jogaram pelas regras e cumpriram a lei: “O que acabo de descrever não é anistia, é uma forma para aqueles que tenham desrespeitado a lei, paguem sua dúvida com a sociedade e demonstrem o caráter que constitui um bom cidadão”.

O presidente pediu ao Congresso que apresente um programa de reforma imigratória ampla antes do final do mês. As propostas foram feitas dentro de um plano de cinco ppntos: estabelecer a segurança na fronteira, um programa de vistos temporários, responsabilizar os que contratem indocumentados, enfrentar a situação dos indocumentados já no país e ressaltar que os Estados Unidos são um país de integração.

Propostas para fronteiras – A presença de soldados se une às propostas para a construção de novos trechos de uma vala em cerca de um terço (mil quilômetros) da fronteira com o México, já aprovadas em dezembro pela Câmara de Deputados. “É importante que os americanos saibam que temos forças suficientes da Guarda para ganhar a guerra contra o terrorismo, responder aos desastres naturais e contribuir com a segurança de nossas fronteiras”, disse Bush.

Explicou que, com isto, os Estados Unidos “não vão militarizar a fronteira sul”, uma preocupação que o presidente do México, Vicente Fox, havia expressado numa chamada telefônica imediatamente depois de conhecer parte dos planos de Bush. “O México é nosso vizinho e nosso amigo”, disse Bush em sua mensagem. “Vamos continuar trabalhando cooperativamente para melhorar a segurança nos dois lados da fronteira, enfrentar os problemas comuns como o tráfico de drogas e delinqüência e reduzer a imigração ilegal”.

O presidente, em um discurso de 10 minutos, rechaçou a idéia de anistia indicando que isto seria premiar os que burlaram as leis americanas para ingressar o país. Afirmou ainda que tampouco seria “recomendável ou realista” perseguir milhões de pessoas e expulsa-las de um país no qual já têm raízes profundas. “Há um terreno neutro entre conceder uma via automática para a ciudadania e um programa de deportação massiva”, disse.

Bush falou novamente de seu programa de trabalhadores temporários e as novas responsabilidades dos empregadores para saber antecipadamente quem eles estão contratando mediante um efetivo programa de verificação de documentos, e da modernização tecnológica na fronteira para detectar os indocumentados.

A Guarda Nacional terá um alcance limitado – Nenhum especialista crê que os membros da Guarda Nacional, um corpo militar de reserva que depende dos estados da União, conseguirão impedir a passagem de imigrantes pelo Rio Bravo e pelos desertos de Arizona e California. “Não selará a fronteira”, disse Matthew Spalding, da Fundação Heritage, centro de estudos conservador. “Esta não é uma solução permanente”, acrescentou.

Interromper totalmente o fluxo de imigrantes “seria tão caro que teria de retirar as tropas do Iraque”, assinalou, por sua vez, Rodolfo de la Garza, professor da Universidade de Columbia.

Tampoco este é o objetivo de Bush, segundo John Pike, diretor do centro de estudos Global Security. Dener a entrada ilegal “destruiria o setor imobiliário”, que depende da mão-de-obra imigrante, lembrou.

Por isto, os especialistas vêem um motivo político no anúncio de Bush, que se encontra em uma situação delicada e fala de um plano para racionalizar o fluxo de imigrantes desde su campanha de 2000.

Em seu segundo mandato fez da reforma imigratória uma prioridade, especialmente porque a privatização parcial da segurança social, seu outro grande plano de política interna, hoje sepultada.

O mandatário sofre uma sorte de motim nas fileiras de seu partido, cuja ala mais conservadora se opõe com unhas e dentes a qualquer “anistia”, como gostam de chama-la seus opositores, para os entre 11 e 12 milhões de imigrantes clandestinos que residem nos Estados Unidos.

Duro na fronteira “O que quis dizer Bush com isto é: sou duro na fronteira e para prová-lo vou enviar as tropas para lá”, opinou De la Garza. “Esta é uma medida mais para dar um impulso à popularidade do presidente ao mostrar como um líder que atua de forma decisiva sobre um tema nacional importante, que para perturbar seriamente o fluxo de pessoas”, opinou Pike. Mesmo assim, os legisladores a favor de restringir a imigração “o acolherão positivamente, porque é uma mostra de seriedade”, na opinião de Spalding.

Com esta medida, Bush que ganhar exatamente os republicanos da Câmara de Deputados, que aprovaram em dezembro uma proposta de lei draconiana contra a imigração que converte em criminosos os indocumentados.

Sua esperança é fazer com que mudem para apoiar um plan para permitir a entrada de trabalhadores temporários, que também regularizaria os imigrantes sem papéis no país.

No plenário do Senado foi retomado nesta semana o debate sobre o assunto e a versão que finalmente for aprovada deverá ser combinada com a medida de mão dura da Câmara Baixa.

Mas Spalding prevê que o envio das tropas para a fronteira não arrancará concessões dos republicanos n Câmara de Deputados. “Não vejo como isto poderá de alguma forma obter apoio para a aplicação completa da proposta do Senado, que é impressionante”, afirmou.

A Fundação Heritage assegura que este projeto permitirá a entrada legal nos Estados Unidos de mais de 100 milhões de imigrantes nos próximos 20 anos.

O discurso de Bush

Estes são fragmentos importantes do discurso do presidente George W. Bush

Sobre a reforma:

“Somos um estado de direito, e devemos fazer com que sejam cumpridas nossas leis. Também somos uma nação de imigrantes e devemos respeitar esta tradição, que fortaleceu nosso país de tantas maneiras. Estes não são objetivos contraditórios; os Estados Unidos podem continuar sendo uma sociedade que cumpre com a lei e uma sociedade acolhedora. Solucionaremos os problemas criados pela imigração ilegal, e criaremos um sistema seguro, ordenado e igualitário.”

Segurança na fronteira:

“Desde que passei a ser presidente, aumentamos em 66 por cento os fundos para a segurança fronteiriça e ampliado a Patrulha Fronteiriça de aproximadamente nove mil agentes para 12 mil .. .capturamos e enviamos a seus países a aproximadamente seis milhões de pessoas que ingressaram nos Estados Unidos ilegalmente.

“Apesar destes êxitos, ainda não temos pleno controle da fronteira, e estou decidido a mudar isto. Esta noite concito o Congresso a proporcionar fundos para melhoras consideráveis em pessoal e tecnologia n fronteira”.

A importância de um Programa de Trabalhadores Temporários:

O fato é que há muitas pessoas do outro lado de nossa fronteira dispostas a fazer o que for para vir aos Estados Unidos para trabalhar e superar-se. Cruzam o deserto a pé com o calor do verão ou se escondem nas partes traseiras dos rebocadores para chegar a nosso país. Isto cria uma pressão enorme em nossa fronteira, e os muros e as patrulhas, por si sós, não poderão acabar. Para resguardar a fronteira eficazmente devemos reduzir o número de pessoas que estão tratando de cruzá-la ilegalmente”.

O cumprimento da lei:

“. . . necessitamos fazer com que os empregadores prestem contas pelos trabalhadores que contratam. É ilegal contratar alguém que está no país ilegalmente. No entanto, geralmente, as empresas não podem verificar a situação legal de seus empregados em razão de um problema extenso de falsificação de documentos. Portanto, a reforma imigratória integral deve incluir um sistema melhor para verificar os documentos e o cumprimento dos requisitos para trabalhar. . .

“Um cartão não modificável nos ajudaria a velar pelo cumprimento da lei… e deixaria os empregadores sem desculpas para violá-la. E, ao tornar mais difícil para os imigrantes ilegais encontrar trabalho em nosso país, dissuadiremos as pessoas a cruzar a fronteira ilegalmente”.

A anistia:

“. . . devemos enfrentar a realidade que milhões de imigrantes ilegais já estão aqui. Não se lhes deve outorgar uma via automática para a cidadanía. Isto é uma anistia, e me oponho a ela. A anistia seria injusta para aqueles que estão aqui legalmente e fomentaria ondas adicionas de imigração ilegal”.

A assimilação:

“. . . devemos guardar a grande tradição americana de ser uma nação de muitos povos. O sucesso de nosso país depende de ajudar os recém-chegados a assimilar nossa sociedade, e adotar nossa identidade comum como americano. Os americanos se unem em torno de nossos ideais, uma valorização de nossa história, o respeito pela bandeira que tremulamos e a capacidade de falar e escrever inglês”.

Tom do debate:

“Sempre devemos recordar que vidas reais serão afetadas por nossos debates e decisões, e que cada ser humano tem dignidade e valor, independentemente do que digam seus documentos de cidadania”.