Carrões

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O Dodge Charger era o carrão dos meus sonhos – diziam que bebia demais, mas na minha idade não fazia ideia de quanto custava um litro de gasolina e nem me importava com isso. O carro roncava alto quando passava na rua e eu acompanhava com os olhos, imaginando o dia que teria um daqueles–vermelho, claro. Os anos passaram, o carro sumiu junto com a Chrysler (a montadora cagona, qualquer sinal de crise ela some do Brasil).

A vantagem de viajar bastante e gostar de carros, é que toda vez posso alugar e dirigir um diferente. Fui diversas vezes ao Arizona comprar conchas de um amigo, sua casa fica em Prescott Valley, mais ou menos a 100 milhas do aeroporto de Phoenix. Dá uma hora e meia, duas no máximo dependendo do trânsito.

Geralmente alugo um carro pequeno, mas de vez em quando de dão um upgrade – em 2013 a moça do guichê me disse que dariam um full size. Fui todo feliz ao estacionamento, até ver que era um  Chevrolet Impala 2013, carro estilo do filme Driving Miss Daisy… Era enorme, acho que dava para acampar lá dentro.  Na realidade nem faz tanta diferença, fico poucos dias com o carro, mas é sempre bom dirigir um carro legal.

Para compensar o “carro do vovô” de 2013, em 2016 o aeroporto estava vazio e me disseram na locadora que poderia escolher qualquer um do pátio. Eu vi um Dodge grandão branco, com uma cara de malvado e estilo dos anos 70. Era um Challenger, o irmão mais bravo do Charger–é muito mais possante mesmo no modelo mais “simples”, com 300 cavalos! O modelo topo de linha é o Hellcat (que não tem em locadoras normais), com 707 cavalos, haja estrebaria para guardar tantos equinos!

Eu fiz cara de incrédulo, apontei o carro e perguntei para o rapaz de locadora se a oferta valia até para aquele modelo. Eu tentei disfarçar o sorriso de orelha a orelha, mas não consegui – ele olhou na minha direção, deu uma risadinha e balançou a cabeça. (nota para mulheres que não curtem carros: homem é bobo mesmo, mas a gente se entende)

Por fora mantiveram o estilo antigo, mas por dentro tudo era moderno, girei a chave a o painel inteiro se acendeu – o som do motor era de arrepiar. Quero dizer, arrepiar quem gosta de carros… meu irmão Marcello foi à uma concessionária da Maseratti para dar uma olhada e talvez comprar uma. O vendedor lhe mostrou um modelo e ligou o carro – o Marcello fez uma cara feia e perguntou “tem outro modelo sem esse barulhão?”. Claro que o vendedor não entendeu nada, mas para encurtar, ele acabou comprando um Tesla. Sem barulho algum.

Saí do aeroporto e peguei a freeway para Prescott. Acho que não só eu achei que o carro tem cara de bravo, o pessoal saía da minha frente sem eu sequer pedir passagem!

Respeito as leis de velocidade porque sei o quanto dói uma multa nos EUA, além de ter que ouvir o sermão que o guarda passa. Mas peguei alguns retões na estrada onde não havia ninguém e acelerei um pouco mais, mas tipo 90 milhas por hora em uma estrada de 70/mph de máxima. Aí reduzi e passei para a pista da direita, para curtir a estrada e o carro antes que chegasse ao meu destino rápido demais. Eis que olho no retrovisor e vejo uma Cadillac Escalade acelerando na pista da esquerda. Como disse, era uma reta e dava para ver uma distância grande, não tinha ninguém nem na nossa frente nem atrás. Como naqueles desenhos animados, do nada apareceu uma viatura da polícia voando – juro, ela não tinha onde estar escondida! Algumas milhas depois, os dois estavam parados no acostamento, e o guarda provavelmente passando areia com vaselina no cassetete.

Cheguei rápido demais ao meu destino, mas fiquei com vontade de colocar aquele carro na minha bagagem! (ok, aqui em São Paulo não dá para correr por três motivos: radares, congestionamentos e buracos nas ruas).