Casal brasileiro preso em Pompano ajuda ICE a desmantelar quadrilha de tráfico humano

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Eles estavam entre os dezoito brasileiros presos na quinta-feira (21) ao desembarcarem em Boca Raton, na Flórida

Joselina Reis

Um casal de Minas Gerais está ajudando o ICE (polícia americana de imigração) a desmantelar uma quadrilha brasileira que trazia imigrantes ilegais para os Estados Unidos. O casal estava entre os dezoito brasileiros presos na quinta-feira (21) ao desembarcarem em Boca Raton vindo em um barco das Bahamas.

Segundo o advogado do casal, Max Whitney, eles têm grandes chances de conseguir asilo político e permanecer legalmente nos Estados Unidos, porque possuem informações muito importantes sobre a quadrilha. De acordo com Whitney, os mineiros possuem fotos, nomes, localização e datas que podem levar a polícia a prender pelo menos três integrantes da quadrilha que trazia ilegais para solo americano. O crime é inafiançável e é considerado tráfico de seres humanos.

Segundo Whitney, os mineiros teriam saído de Belo Horizonte há pouco mais de um mês. Eles afirmaram em seu depoimento que foram levados para o Panamá, depois para as Bahamas. Na ilha caribenha, eles foram levados primeiramente para um hotel, depois transferidos para uma casa e por último foram para outro hotel.

Durante esse período de quase um mês, os mineiros conheceram os integrantes da quadrilha, outros brasileiros e um dominicano que viriam para os Estados Unidos no mesmo barco. A pedido da quadrilha, o casal e os outros teriam que entregar seus celulares para evitar possível rastreamento das autoridades. No entanto, o mineiro conseguiu esconder seu celular e teria feito fotos escondidas de lugares e, principalmente, dos integrantes da quadrilha. “O celular dele está nas mãos do ICE e as informações são super valiosas. Isso pode salvá-los”, disse Whitney.

O casal de Minas tem dois filhos americanos, que ficaram no Brasil. Eles teriam ficado com medo de trazer as crianças, um menino de três anos e outro de nove, na aventura de voltar a terras americanas. O motivo da saída da família dos Estados Unidos anos atrás não foi revelado.

Entre as informações e fotos preciosas para o ICE estão dados do traficante Marcos, que seria a fonte no Brasil; André, o braço brasileiro da quadrilha na Flórida; Silas, outro envolvido; e por último um policial da cidade de Freeport (Bahamas) que teria recebido suborno para ajudar o grupo em terra. Segundo o advogado, as crianças e os membros da família do casal em Minas Gerais receberam ligações da quadrilha com ameaças caso eles, que estão presos no Broward Transition Center (BTC), em Pompano Beach, deem informações que levem a polícia ao paradeiro dos traficantes. “Eles estão com medo, mas essa é a única chance que eles têm de ficar aqui e trazer os filhos mais tarde”, revelou Max Whitney.

dezoito brasileiros presos

A Polícia Federal brasileira teria sido avisada sobre o caso, mas por enquanto Max não sabe se a família está recebendo proteção. O casal mineiro teria confiado nos integrantes da quadrilha ao ponto de levá-los até a casa onde a família morava. Cada um teria que pagar $15 mil pela viagem. Parte do dinheiro foi entregue à quadrilha ainda no Brasil e o restante seria pago quando o casal estivesse seguro em solo americano.

É comum, em casos como esse, lembra o advogado Max Whitney, os integrantes da quadrilha exigirem todos os detalhes pessoais e familiares dos imigrantes que tentam a travessia ilegal. “Eles querem ter certeza que vão receber o dinheiro depois que os indocumentados chegarem ao seu destino final”, disse Whitney.

Caçada

Quando o barco trazendo cerca de vinte pessoas (sendo o capitão da Jamaica, um imigrante da Republica Dominicana e o restante do grupo formando por brasileiros) saiu da cidade de Freeport, nas Bahamas, a polícia já sabia e rastreava o movimento da embarcação por satélite. “Eles deixaram o barco chegar porque queriam pegar quem estava em terra esperando por eles”, contou o advogado.

Ao desembarcar, o grupo foi dividido entre uma van, conduzida por Lúcio Oliveira, e um utilitário, onde estavam o casal de Minas, o motorista e mais quatro homens brasileiros. O casal e o motorista são agora clientes de Max Whitney. Os brasileiros contratados como motoristas dos imigrantes receberiam $ 2 mil cada um pelo serviço e afirmaram em seu depoimento que era a primeira vez que realizavam a tarefa e não conheciam os integrantes da quadrilha com os quais se comunicavam apenas por telefone.

Whitney afirmou que o motorista tem poucas chances de conseguir ser solto. Ele deve provavelmente responder por crime de tráfico humano. Se condenado, pode pegar de dois a dez anos de prisão em solo americano e depois ser deportado. O advogado lembra ainda que seu cliente pode responder pelo mesmo crime quando voltar ao Brasil. Seu cliente, motorista do utilitário, foi levado para uma prisão em Belle Glade e depois transferido para presídio Krome, em Miami.

A caçada aos passageiros do barco após o desembarque teve momentos de desespero. Quando a van e o utilitário saíram apressadamente da praia de Boca Raton levando os imigrantes, a orientação era levá-los para motéis no norte e sul do estado, de lá eles partiriam para Boston, Nova York e Nova Jersey. No entanto, o plano não deu certo.

Lúcio Oliveira, que seria o motorista da van de cor branca que levava a maioria dos imigrantes, tentou escapar da polícia. Na fuga, ele teria batido a van e os integrantes saíram correndo pelas ruas da Boca Raton enquanto a polícia, a pé, fazia a caçada. Lúcio teria invadido um apartamento, mas foi pego e está preso. Os outros integrantes da van foram capturados e atualmente estão presos no BTC.

De acordo as informações que Max Whitney conseguiu junto à polícia, os investigadores trabalhavam com a hipótese de que pelo menos dois teriam escapado. “Não adianta vir de barco. Isso é contra a lei”, disse o advogado tentando desencorajar outros brasileiros que pensam em fazer a mesma coisa.