Cezar Santana

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Camaleão musical

Antonio Tozzi

Você gosta de Música Popular Brasileira? Ou de rock? Ou de pop? Ou de salsa? Quem sabe reggae?Aprecia canções cantadas em português? Em inglês? Ou em espanhol? Prefere uma banda completa com cantores e bailarinas? Ou sua opção é por um quarteto? Quem sabe um trio? Vá lá, um duo? Ou ainda um único artista garantindo o espetáculo? A resposta a todas estas perguntas tem nome: Cezar Santana.

Esse acreano natural de Xapuri, criado no Rio de Janeiro, que morou em Madri durante cinco anos e meio e há 11 anos vive em Miami é o retrato fiel do artista que considera a música um território sem fronteiras. Suas andanças pelo mundo lhe deram uma visão cosmopolita que possibilita a Cezar integrar-se ao ambiente rapidamente e logo conquistar a audiência. Isto pôde ser constatado na apresentação intimista com a qual brindou os convidados para uma pequena reunião realizada dia 14 de outubro no Paris in Town, aconchegante delicatessen e adega de propriedade dos franceses Frederic e Lara, localizada no norte de Palm Beach.

Lá, entreteu os convidados com uma seleção do melhor da MPB, tocando violão e cantando com sua voz afinada. O repertório variou do chorinho ao samba, passando por clássicos como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Foi impossível as pessoas – mesmo aquelas que não dominam o idioma português – não se contagiar pelas músicas executadas pelo brasileiro.

Mãe inspiradora – A sua primeira referência musical veio de sua mãe. Ela tinha o hábito de cantar enquanto trabalhava, o que aliviava a tensão e, ainda por cima, exercia um irresistível encanto sobre o pequeno Cezar. Esta identificação musical transformou-se em verdadeira paixão e aos 11 anos começou a aprender violão clássico. Embora não fosse exatamente um fanático por violão clássico, ele admite que isto lhe deu uma boa base técnica para tocar o instrumento.

Entretanto, a necessidade de ter uma profissão empurrou Cezar para a carreira de engenheiro agrônomo, curso que freqüentou na Universidade Rural do Rio de Janeiro, em Itaguaí. Em meio a greves e desinteresse, o lado musical falou mais alto. Decidiu, então, tirar a carteira de músico profissional e aventurou-se a tocar na noite. Participou, ainda, pela primeira vez de um festival universitário e tirou o primeiro lugar.

Espírito cigano – Qualquer outro investiria na consolidação de uma carreira que começava a desabrochar. Mas Cezar tinha outros planos. Aproveitando que tinha uma irmã morando na Espanha, ele se manda para Madri no início dos anos 80 e dá a partida em sua carreira internacional.

Durante cinco anos e meio ele tocou na noite madrilenha e viajou por toda a Europa a trabalho. Em 1982, criou juntamente com um amigo espanhol um programa de rádio brasileiro, chamado “Clube da Esquina”, transmitido pela Radio 3, de Madri. Até hoje o programa ainda está no ar.

Sua influência musical sempre foi jazzística. “Não tenho preconceito contra nenhum tipo de ritmo, mas me identifico com o som puxado para o jazz. Por isto, meu gosto musical é bastante eclético”, declara o artista. Para demonstrar esta universalidade, ele cita alguns dos compositores que admira: Bach, Egberto Gismonti, Miles Davis, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jimmy Page&Robert Plant, Sade, Lennon&McCartney, Lenine, Pat Metheny, Toninho Horta, Juan Luis Guerra, Fito Paez, Jackson do Pandeiro entre outros.

Em 1984, participou do Winter Carnivals, em Helsinque, capital da Finlândia, com um time de primeira linha, que reuniu a cantora Tania Maria, Paquito D’Rivera e Tito Puente. No ano seguinte, juntou-se ao vibrafonista e compositor americano Richard Andrews para fundar o “Batuque”, uma banda que se apresenta no festival internacional de Marrocos e dá concertos por toda a Espanha, classificando-se como finalista da “Mostra de Jazz Madrilenha”, em 1986.

Rio novamente – A sua eterna busca por desafios o levou de volta ao Rio de Janeiro, onde integrou o grupo vocal “Garganta”, com o qual viajou por todo o Brasil. Também tocava com “Les Étoiles”, um duo brasileiro bastante conceituado na Europa. Com o “Modo Libre Trio”, participou do Festival de Verão de Punta del Este, no Uruguai em 1989 e 1990.

Nos dois anos seguintes, foi arranjador e diretor musical do “Rio Boat Show” e do “Sargentelli Show”, tanto no Rio de Janeiro como no Cabana Casino, em Aruba. Oswaldo Sargentelli foi um dos grandes nomes do show business brasileiro.

Próxima parada: Miami – O ano de 1993 marca a chegada de Cezar Santana a Miami. Na verdade, a intenção inicial era mesmo ir para Nova York, mas uma parada na cidade foi o suficiente para mudar de idéia. “Demorei um bocado para me acostumar com o jeito de ser dos americanos. Porém, como me criei no Rio e sempre freqüentei a praia, Miami acabou me conquistando”, confessa.

Ele também conquistou seu espaço no cenário musical da Flórida. Em 1984, criou o grupo musical ”Southbeat” juntamente com Randy Singer. E Miami passa a ser sua base para apresentações nos Estados Unidos e em outros países. Abriu shows para grupos como Asa de Águia, Boca Livre, Paralamas do Sucesso, além de ter integrado o grupo de Paulo Gualano em excursões por Memphis, Alabama e Cidade da Guatemala, além de apresentações na Itália e na Alemanha. Fez ainda uma turnê com a banda de Luiz Enrique, ‘El Principe de la Salsa’ com shows na Venezuela, Porto Rico e na Califórnia.

Aliás, Cezar Santana faz uma crítica aos brasileiros, que desconhecem o som produzido pelos hispânicos: “Eles sabem tudo sobre música brasileira e nós ignoramos o trabalho feito por nossos irmãos latinos”.

Novos rumos – Para Cezar, isto é inconcebível. Afinal, ele fala espanhol fluentemente, em razão do período em que viveu na Espanha, o que lhe permite transitar com facilidade entre os músicos latino-americanos. Por também dominar o inglês, integrou-se com os americanos e, é claro, procura manter suas raízes brasileiras. Por isto, sente falta de um local que abra um espaço maior para os músicos brasileiros que vivem aqui nos EUA. Ele compõe canções nos três idiomas, mas atualmente as letras vêm fluindo mais em inglês.

Nesse momento da carreira, ele dedica-se mais à produção de discos – tanto dos seus (já tem um gravado) como de outros. Recentemente, produziu um disco de uma cantora de Cabo Verde, país que entrou no cenário musical do mundo depois do fenômeno Cesaria Évora.

Seu pensamento é justamente concentrar-se mais na carreira de produtor e compositor, gravar mais e diminuir o ritmo de apresentações ao vivo, aproveitando-se do fato de ter um estúdio montado em sua casa de Miami. Entretanto, há um porém: o público não deixa de requisitar seus serviços. Na mesma noite em que mostrou sua arte no Paris in Town, recebeu dois novos convites para outros trabalhos, “Está vendo só como as coisas rolam”, comentou com o repórter. Restou apenas balançar a cabeça e concordar, na esperança de ser convidado para a próxima apresentação.

“Não tenho preconceito contra nenhum tipo de ritmo, mas me identifico com o som puxado para o jazz.”
Cezar Santana