Chystiane Corrêa

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A insustentável leveza da arte

Antonio Tozzi

Formas disformes, pinturas provocativas, sensações indescritíveis, sentimentos extrapolados. Seja lá qual for a maneira escolhida para definir o trabalho artístico de Chrystiane Corrêa nada estará certo ou errado – até porque tanto a arte como a própria artista plástica não se encaixam em padrões pré-estabelecidos. Pelo contrário, existem para contradizer o status quo vigente e criar novos paradigmas.

Se esta introdução pode parecer muito intelectualizada, o melhor a fazer é apreciar o trabalho provocante de Chrys, como ela prefere ser chamada. Embora siga uma tendência, que caracteriza sua arte, as pinturas da artista transmitem a pulsação de um ser em constante mutação, à procura da perfeição.

Ao saber mais sobre a vida de Chrys, talvez possamos entender esta ambivalência de sua arte. É mulher de sete instrumentos. Já trabalhou como jornalista, foi dona de vídeolocadoras e loja de conveniência, casou quatro vezes, morou em vários países e trocou uma vida desregrada pela igreja evangélica, após ter lido a Bíblia e descoberto Deus em toda sua plenitude.

Artista desde pequena – Desde os quatro anos de idade, a carioca Chrystiane Corrêa já se destacava na pintura, tendo ganho vários prêmios de arte no Rio de Janeiro, dos oito aos 12 anos de idade. Tudo indicava que ela seria mesmo uma pintora. No entanto, o espírito irriquieto de Chrys logo a levou para outros rumos.

Identificando-se com a palavra – quem sabe, um complemento entre a mensagem escrita e icônica, representada pela pintura -, decidiu cursar a Faculdade de Jornalismo da Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Depois de formada, trabalhou em vários veículos da mídia impressa como o jornal Última Hora, do falecido jornalista Samuel Wainer, e a revista Caras, que retrata as celebridades. Ironicamente, hoje é a própria Chrys uma das celebridades entrevistadas nas páginas da famosa revista.

Para não perder contato com a antiga profissão, Chrys continua a colaborar com algumas revistas evangélicas do Brasil. Convertida em 1993, ela era membro da Igreja Sara Nossa Terra, na Barra da Tijuca. Aqui, nos Estados Unidos, é assídua freqüentadora das Igrejas Batistas Americana e Brasileira, comandada pelo pastor Silair de Almeida.

A conversão – Insatisfeita com os rumos de sua vida, Chrys começou a ler a Bíblia. No entanto, nunca conseguia chegar ao fim. “Cursei Teologia e fiquei ainda mais fria. Tudo me enjoava. Finalmente, compreendi a mensagem da Bíblia e a ciência de Cristo me abriu os olhos para as outras ciências”, testemunha a artista.

Esta procura desesperada durou quatro anos, período em que ela queria libertar-se do jugo das drogas e de uma vida na qual ela desrespeitava o próprio corpo. “Sempre me dediquei aos exercícios físicos e à vida ao ar livre, portanto, não combinava comigo este tipo de dependência química. Daí, me concentrei e consegui me livrar do vício”, comemora Chrys.

A família – Pode-se dizer que ela é uma privilegiada. Afinal, apesar de ter convivido com o lado negro da vida, seus três filhos – Eduardo (22 anos), Gabriela (17) e Eric (15) – são completamente avesso às drogas. Eles vivem na casa da família em Niterói (RJ) e estão apenas aguardando o sinal verde da mãe para vir aos Estados Unidos.

Isto é muito normal, porque eles estão acostumados a acompanhar Chrys. A artista plástica já morou em New York, Califórnia, México e Portugal – país no qual seus filhos adoraram morar. “Somos uma família muito unida e gostamos de compartilhar tudo em conjunto”, garante a mãe, cheia de saudade dos filhos que estão no Brasil.

O trabalho – Pintando há cerca de cinco anos, a artista plástica logo descobriu um estilo abstrato que agrada bastante. Tanto que os craques de futebol Ronaldinho e Bebeto compraram telas de Chrystiane Corrêa, bem como os principais decoradores do país costumam recorrer a seus quadros para compor ambientes. “Já participei várias vezes da Casa Cor (evento dedicado à criação de ambientes por diferentes arquitetos e decoradores) no Rio de Janeiro com minhas pinturas”, conta a artista.

Os fãs de telenovela podem apreciar as obras de Chrys na novela Belíssima, da TV Globo. Dez telas da artista estão emprestadas à produção da Belíssima. Aliás, várias produções da TV Globo usam quadros de Chrys para compor ambientes sofisticados.

Ela já fez várias exposições coletivas e uma individual numa galeria da Gávea, bairro de classe média alta do Rio. Além do mais, suas obras constam do acervo de Museu de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, na categoria Novas Aquisições.

Durante o período em que se dedica exclusivamente à pintura, Chrys já pintou cerca de 300 telas – e vendeu todas! “Sou compulsiva à la Picasso”, exulta. Seus clientes dividem-se entre Brasil, Europa e Estados Unidos. Por isto, ela acredita que estar aqui pode facilitar o acesso aos art dealers.

O principal objetivo da artista é apresentar sua arte e levá-la a todos os lugares. “Afinal, a poética da arte contemporânea complementa o meu trabalho. E a arte, além de comunicar, tem de ser poética”, sintetiza a pintora.

Arte ilimitada – E a arte é o encontro do eterno com o tempo, que provoca uma reação conflituosa e dolorida. “O eterno é algo ilimitado, enquanto o tempo significa o limitante. A junção deste dois fatores reflete-se no meu trabalho”, sustenta. Tanto é verdade que ela se recusa a colocar moldura em suas obras. “Não ponho moldura, porque a arte não tem limites”.

Na verdade, ela se considera mesmo uma mensageira das artes. “Entre minha mão, minha mente e o material de suporte (telas, pincéis etc.) há uma ponte que não sei descrever como é construída. A inspiração flui naturalmente”, admite.

Sempre encarando a arte como uma transmissora de expressões e o artista como o meio para se comunicar, Chrys diz ter-se transformado num resultado do muito que ela foi e do muito que ainda pode vir. “Fiz uma cotextualização. Na verdade, não existe nada de novo em termos de artes. O que muda é a maneira de comunicar”, reafirma.

Em sua opinião, a pintura abstrata cumpre perfeitamente este papel, “porque nos remete a viajar pelas cores, pelas formas e pela complementação”, traduz. Mais do que trabalho, pintar significa solucionar problemas e potencializar a energia, de acordo com Chrys: “Para mim, isto é alimento. A pintura me complementa”.

Na Flórida – Embora esteja há pouco tempo na Flórida, ela já vem conquistando seu espaço. Entrou em contato com alguns art dealers e galerias de arte locais e seus trabalhos foram muito bem recebidos. Inclusive, já começou a pintar – e a vender – alguns quadros aqui. Por sinal, ela precisa mesmo produzir novas obras, porque algumas galerias querem promover uma exposição e será necessária uma nova série de pinturas.

Só não estranhe uma coisa quando se deparar com um quadro de Chrystiane Corrêa. Você não encontrará sua assinatura na tela. “Só assino meus quadros no verso, porque não gosto de nada interferindo na minha obra. Antes, sequer punha nomes nas obras. Porém, certa vez, conversando com Deus, Ele me indicou que os títulos poderiam expandir meu trabalho”, complementa.

E, convenhamos, quem vai discutir com a providência divina ou com o talento artístico?


Contato

Contato: Quem quiser conhecer mais sobre as obras de Chrystiane Corrêa, deve acessar http://fotos.terra.com.br/album.cgi/405390.