Cidadãos americanos de segunda classe

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Prossegue o interminável debate sobre imigração na Flórida e na nação, mas, até a semana passada, a condição de estudantes como Wendy Ruiz era quase invisível

Nascida e criada em Miami, Wendy Ruiz é uma cidadã americana. Mas aos olhos do sistema educacional universitário da Flórida, ela é uma estudante dependente cujos pais são imigrantes indocumentados e não são considerados residentes legais da Flórida.

Desta forma, Wendy Ruiz é cobrada por pagamento semestral bem mais alto, mesmo ela possuindo uma certidão de nascimento da Flórida, carteira de motorista da Flórida e sendo uma eleitora registrada na Flórida. Um semestre no Miami Dade College para os residentes da Flórida custa cerca de $1,200, enquanto estudantes que não moram no estado pagam $4,500.

Muitos estudantes são simplesmente incapazes de absorver o aumento do custo. Wendy Ruiz está indo ao Miami Dade College e, até agora, tem GPA de 3.7, mas precisa trabalhar em vários empregos de meio período para pagar por apenas uma classe. Outros estudantes afetados por esta medida desistiram completamente da universidade. “Como americana, e moradora da Flórida a vida inteira, mereço as mesmas oportunidades. Sei que serei bem-sucedida porque nunca quis tanto algo em minha vida como quero isto”, disse a aluna que que se tornar uma podiatra.

Na semana passada, ela e outros estudantes do sul da Flórida na mesma situação entraram com uma ação na Justiça desafiando estas orientações. Na mesma semana, um deputado estadual de Jacksonville entrou com um projeto de lei que garantiria pagamento como residente do estado para estudantes como Wendy Ruiz. A ação e o projeto de lei têm-se concentrado num assunto que atrai pouca atenção na Flórida, onde ativistas de imigração sempre se concentraram na aprovação do Dream Act federal.

O Dream Act proposto tem hibernado no Congresso há anos. Ele legalizaria certos imigrantes indocumentados que seriam aceitos nas universidades ou nas forças armadas. Estes jovens foram trazidos para os Estados Unidos ilegalmente quando eram crianças. Os proponentes argumentam que eles não deveriam ser penalizados pelas ações ilegais de seus pais.

O Dream Act permanece um tema político delicado. Os defensores de uma política imigratória mais estrita dizem que isto seria uma recompensa para aqueles que entraram no país ilegalmente. Ao contrário daqueles que seriam beneficiados com o Dream Act, o caso de estudantes como Wendy Ruiz é totalmente diferente porque eles são, de fato, cidadãos americanos.

A ação, que tem como autor o Southern Poverty Law Center, chama a política da Flórida como uma violação flagrante da cláusula de proteção de igualdade da Constituição dos EUA.

Michael A. Olivas, que dá aulas sobre imigração no curso de Direito da Universidade de Houston, disse ter ficado “atônito” com as medidas da Flórida. Colorado teve uma época uma política similar, mas a abandonou seguindo conselho de seu próprio secretário de Justiça, e Olivas disse desconhecer outro estado com significativa população de imigrantes fazendo isto agora. “Não há asterisco na cidadania”, disse Olivas. “Ou você é ou não é.”

Neste momento, o deputado estadual Reggie Fullwood, um democrata de Jacksonville, confirmou ter entrado com um projeto de lei que garante pagamento como residente do estado para crianças nascidas aqui que sejam filhas de pais imigrantes indocumentados que comprovem ter frequentado uma high school na Flórida por quatro anos consecutivos e se matriculado numa universidade da Flórida dentro de 12 meses depois de estarem formados.

Num estado cujo Legislativo é dominado por republicanos que não têm demonstrado nenhuma tolerância em relação à imigração ilegal, Fullwood reconhece que seu projeto de lei enfrenta um caminho difícil.

Há, no entanto, alguns indicadores de que não se trata de uma retomada do debate sobre o Dream Act. O principal opositor da imigração abrangente no Legislativo, o deputado republicano William Snyder, de Stuart, negou-se a comentar o projeto de lei de Fullwood, em parte porque ele acabara de dar entrada, mas também, admitiu, por se tratar de um novo tema.

O senador estadual Rene Garcia, republicano de Hialeah e presidente do Florida Hispanic Caucus, confirmou que apoia o projeto de lei de Fullwood. Ele também havia apoiado a versão da Flórida de Dream Act que acabou não sendo aprovada. “O Dream Act é um pouco diferente”, disse. “Quando você é um cidadão americano, você é um cidadão americano.”