Começa debate sobre o futuro de milhões de indocumentados

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Senado dos EUA inicia hoje o acirrado debate sobre o futuro dos 12 milhões de ilegais que vivem no país e que exigem uma reforma migratória justa

Washington, a capital americana, e a cidade de Boston, no estado de Massachusetts, são os cenários escolhidos para as marchas convocadas para hoje (27/03) pelas organizações de defesa dos imigrantes, que contam com o apoio de outros grupos econômicos e religiosos.

Em Washington, centenas de líderes religiosos de todo os EUA planejam manifestar-se nas imediações do Capitólio de mãos dadas, para denunciar as propostas legislativas que criminalizam os indocumentados e aqueles que os ajudarem a buscar trabalho.

Não se espera, no entanto, que se igualem à “megamarcha” realizada no sábado em Los Angeles, na qual participou até meio milhão de pessoas, convertendo-se assim na maior passeata na recente história dos EUA.

Os imigrantes, em sua maioria de origem hispânica, querem ser ouvidos para frear algumas das medidas incluídas na reforma da política de imigração e que suscitaram sérias divisões entre os próprios legisladores, inclusive os do Partido Republicano. Uma das mais controversas é o chamado programa de trabalhadores convidados, defendido pelo presidente George W. Bush e rechaçado por alguns de seus correligionários.

É o caso do representante republicano Tom Tancredo, que considera este programa – que permitiria aos indocumentados legalizar sua situação, mas só enquanto estiverem realizando um trabalho que os americanos não querem fazer – uma anistia encoberta. Segundo Tancredo, se for permitido entrar sem permissão e ficar, tendo como único castigo o pagamento de uma multa, enviaríamos uma “mensagem horrível”, sobretudo às pessoas que tratam de vir aos EUA seguindo todos os passos legais. O plano de Bush, acrescentou, “é uma bofetada na cara de cada pessoa que se comportou bem, e de todos os que esperam fazê-lo de forma correta”.

O também republicano e presidente do Comitê do Senado que discutirá a reforma, Arlen Specter, explicou que o referido programa não tem nada de anistia. Specter considera que os imigrantes terão de pagar uma multa, demonstrar que trabalham e ir para o final da fila entre aqueles que desejam obter a cidadania americana.

Bush também pensa desta maneira e defende o projeto com firmeza porque, em sua opinião, contribuiria para aliviar a pressão na fronteira com o México, o país mais afetado pela futura reforma, pois calcula-se que cerca de dez milhões de mexicanos vivem nos EUA e metade é composta por indocumentados.

O governo mexicano, que expressou sua confiança em que a reforma resulte em uma legislação justa e humanitária, seguirá com atenção as discussões de Washington. Estas discussões chegarão ao nível máximo quinta-feira (30/03) no balneário de Cancún, onde o presidente mexicano, Vicente Fox, terá ocasião de falar sobre o assunto diretamente com Bush, durante uma reunião tripartita em que também participará o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper.

A secretária de Estado, Condoleezza Rice, referiu-se neste domingo a esta reunião, ao afirmar que espera das autoridades mexicanas o reconhecimento “da importância da defesa das fronteiras e das leis americanos”.

Rice se mostrou otimista em que o México assumirá sua responsabilidade neste âmbito e realçou que a reforma migratória deve também prever um tratamento “humano” para os indocumentados. “Temos uma população aqui que deve ser tratada de forma humanitária. Não importa como tenham vindo”, destacou Rice.

O senador democrata Edward Kennedy declarou que é preciso considerar que já “temos estas pessoas aqui” e o desafio consiste em abordar sua situação da melhor maneira possível e sem prejudicar aqueles que obedecem às vias legais.