Comentários do papa sobre tratamento a imigrantes nos EUA acirra ânimos

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Antiimigrantes fazem críticas ao que chamaram de “marketing da fé”

Na sua recente visita aos Estados Unidos, o papa Bento 16 tocou em algumas feridas, entre elas a guerra do Iraque, a política internacional da administração Bush e até os casos de pedofilia dos padres na América. No entanto, nenhum outro assunto causou tanta repercussão quanto os comentários do sumo pontífice a respeito do tratamento dado pelo governo aos imigrantes. Vozes antiimigrantes se levantaram contra o líder da Igreja Católica e alguns chegaram a dizer que Bento 16 estava tentando conquistar mais adeptos.
“O que o papa falou não representou um sermão com base na crença religiosa, mas sim um apelo para recrutar mais membros para a Igreja Católica, principalmente os estrangeiros de origem latina”, afirmou o congressista Tom Tancredo, republicano e ex-candidato à presidência do país, que centrou sua campanha na deportação imediata de todo e qualquer indocumentado. E ele foi além: “Isso não é pregação, mas um marketing da fé”, disse Tancredo, referindo-se à suposta tentativa de reavivar o movimento católico em terras americanas, que nos últimos tempos vem perdendo terreno, entre outras razões pelos escândalos envolvendo padres pedófilos.
Mais ameno foi o comentário do apresentador Lou Dobbs, da rede de televisão CNN, que criticou o papa por “tentar empurrar a anistia a imigrantes ilegais pela garganta da opinião pública”. Ele questionou a assertiva de Bento 16 sobre direitos humanos e indagou: “O que o governo tem feito com relação aos indocumentados que pode ser considerado violento ou mesmo inapropriado?”. Na ocasião de sua visita a Washington DC, o papa afirmou que “os EUA devem lutar contra todo tipo de violência, inclusive contra aquela que tira a dignidade dos imigrantes”.
Os grupos que defendem uma ampla e justa reforma imigratória aplaudiram a coragem do papa em trazer o assunto à tona. Até mesmo os assessores de Bush destacaram que o tema fez parte da pauta entre os dois líderes, mas não houve qualquer pronunciamento oficial por parte da Casa Branca.
Antes da audiência com Bush, o papa recebeu uma carta enviada por crianças americanas, filhas de pais estrangeiros e indocumentados. Nas linhas, um pedido para que o sumo pontífice apelasse ao presidente norte-americano em favor dos imigrantes. “Uma ação da polícia de imigração pode separar famílias e muitos de nós estamos correndo este risco”, dizia um trecho da carta.
De acordo com os cálculos de entidades como a La Raza, o maior grupo latino na América, cerca de quatro milhões de crianças nascidas nos EUA tiveram os pais deportados ou detidos aguardando a expulsão do país.