Complexo de vira-latas

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*Jonathan Rodrigues

O brasileiro tem um problema atávico: o complexo de vira-latas. Esta foi uma expressão criada pelo dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues para resumir a tragedia que se abateu sobre a nação em 1950 após a derrota da Seleção Brasileira para a Seleção Uruguaia em pleno Maracanã.

Para Nelson Rodrigues, o fenômeno não se limitava somente ao campo futebolístico. De acordo com o dramaturgo, “por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Ainda segundo Rodrigues, “o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima”.

Pois bem, mais de 60 anos depois parece que novas gerações se sucederam e isto ainda permanece impregnado no âmago do brasileiro.
Tudo que há no Exterior é melhor, os governos são melhores, os países são melhores, os povos são mais educados e por aí vai.

A coisa somente muda quando algum estrangeiro emite uma opinião sobre o Brasil e sobre o brasileiro com as mesmas críticas. Aí o sujeito é execrado e indicado como persona non grata. Ou seja, o direito à crítica, ou melhor à autocrítica, está restrito a nós. Aos outros cabe somente concordar e discordar, mas nunca emitir parecer contrário.

Trabalhando em jornal comunitário há muito tempo tenho cada vez mais constatado este tipo de atitude. Se um estrangeiro ou nativo, no caso dos americanos, comete um crime, dá um golpe ou sai da linha o que se lê são críticas pontuais, atenuadas com “mas aqui ele será punido”.

Caso seja um brasileiro a cometer os mesmos deslizes, os patrícios descem a lenha. E sempre terminam com o indefectível “veio do Brasil para nos envergonhar aqui”.

O caso mais ilustrativo pôde ser constatado na última edição do AcheiUSA (488) onde uma jovem brasileira, que vive nos EUA há bastante tempo, comportou-se inadequadamente num destes programas descartáveis da TV americana, “The Bachelor”, e, em consequência do mau comportamento, foi desclassificada.

A moça acabou virando um saco de pancadas da maioria dos comentaristas no site do jornal e na página de Facebook do AcheiUSA.

Algumas poucas vozes chamavam a atenção para que fosse evitada a histeria coletiva, mas o pessoal não poupou críticas e comentários desairosos à bela gaúcha. A garota foi taxada de muitas coisas e alguns até mesmo resvalaram para a vulgaridade.

Na mesma edição, há uma reportagem na qual dois irmãos americanos subornaram uma funcionária do Zoológico de Niterói para comprar uma jiboia exótica, um animal albino que, acredita-se, deva ser o único espécime do gênero no mundo. Em função disto, o animal está avaliado em um milhão de dólares.

Resumindo, os americanos são muito piores do que a moça, mas apenas um leitor fez um comentário e, ainda por cima, criticou o relaxo das autoridades brasileiras que não sabem controlar sua fauna. Nenhum palavra contra o ato criminoso praticado pelos americanos.
Sem querer ser psicólogo, dá para notar que o brasileiro tem dentro de si uma elevada baixa estima e parece até mesmo saborear os deslizes dos compatriotas. É bem verdade que quando um conterrâneo se destaca positivamente há diversos elogios e sentimento de orgulho, mas nunca comparáveis àqueles que levam os personagens do momento à execração pública.

O duro é que as pessoas não sabem que bom e mau comportamento são inerentes ao ser humano, independente de raça, cor, nacionalidade, classe social, sexo ou idade. Em todos os países há pessoas boas e más, honestas e desonestas, portanto qualificar uma determinada raça ou nacionalidade como competente ou incompetente é algo que carece de consistência e lógica.

Claro que psicologicamente todos povos vibram com seus heróis ou com os compatriotas que se destacam em uma determinada área, assim como lamentam aqueles cujos comportamentos somente os prejudica, mas que carregam com eles a pesada herança de pertencerem a um país.

Entretanto, acredito ter chegado o momento de os patrícios repensarem seus conceitos e deixar de estereotipar comportamentos negativos como algo inerente aos brasileiros. Muitas vezes, eu mesmo admito que me pego fazendo comentários desairosos deste tipo, mas logo tento me corrigir ao acionar o botão do politicamente correto.

Aliás, somente assim, com o autopatrulhamento conseguiremos mudar este tipo de preconceito que não traz nada de positivo. Pelo contrário, serve somente para semear ainda mais ódio e ressentimento e fazer com que muitos conterrâneos que vivem aqui dizer “não quero saber de me relacionar com brasileiros”.

Eles apenas se esquecem que ao dizer isto também estão autoexcluindo-se porque eles podem querer sair de seus antepassados, mas a herança cultural e genética sempre estará impregnada em seus genes, em suas mentes e sobretudo em seus corações.