Cresce o número de crimes raciais contra latinos

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Estudo e casos recentes mostram que problema atingiu “índices inaceitáveis”

Um mexicano indocumentado do Brooklyn, em New York, vai passar pelo menos mais três semanas internado em um hospital em virtude dos ferimentos diversos sofridos durante um ataque no início deste mês. O imigrante foi espancado por um grupo de jovens pelo simples fato de ser um estrangeiro vivendo na América, em busca do sonho de proporcionar uma vida melhor para a sua família. O caso chegou ao conhecimento de ativistas, mas não houve ocorrência na polícia: o mexicano está com medo de denunciar o crime em função de seu status imigratório irregular.

Casos como este, infelizmente, não são exceção ou casos isolados – aliás, nunca foram neste país, que desde 2003 têm registrado a cada ano um número maior de crimes com fundo racial e as vítimas preferenciais têm sido os latinos, inclusive brasileiros. Quem não lembra do que aconteceu com um goiano de Newark (New Jersey), que foi espancado por negros americanos em setembro do ano passado? Menos sorte teve o mineiro de Alpercata (Minas Gerais) Júlio César de Oliveira, que não resistiu ao ataque de uma gangue da cidade de Kenner (Lousiana), em novembro do ano passado.

Assustados com a grande incidência destes fatos na América, os ativistas do Southern Poverty Law Center’s (SPLC) prepararam um relatório para alertar as autoridades do condado de Suffolk, no estado de New York, sobre os crimes raciais. “O abuso atinge 99% dos imigrantes, que admitiram já ter sofrido algum tipo de discriminação”, afirma Sarah Reynolds, uma das pesquisadoras do estudo. Ela disse que, apesar das entrevistas terem sido conduzidas com um determinado grupo de imigrantes, numa região específica, o problema é nacional e atinge todas as comunidades de imigrantes, especialmente os latinos. “Suffolk é uma microcosmo da América e o problema atingiu índices inaceitáveis”, disse.  

Os abusos variam desde humilhações até agressões físicas que podem acabar em tragédia. Um dos últimos casos foi com o equatoriano Marcelo Lucero, esfaqueado até a morte por sete adolescentes americanos, que podem ser condenados a prisão perpétua. Pelos dados do FBI, a polícia federal dos EUA, os crimes raciais cresceram 40% entre 2003 e 2007. “A mudança demográfica do país, onde a minoria latina em breve será a maioria, incomoda muita gente e provoca a ira e violência”, revelam os especialistas.

Ataques repetidos

No estudo, um dos depoimentos foi de outro mexicano, identificado como Carlos, que está há nove anos na América. Ele contou que é vítima de repetidos ataques, só por ser estrangeiro. “Já me cuspiram, insultaram, quebraram meus dentes e me bateram com taco de beisebol. Certa vez fiquei internado duas semanas no hospital. Tenho medo de sair de casa, mas preciso trabalhar para sustentar a família”, afirmou Carlos aos autores do estudo, que recebeu o nome de ‘Clima de medo’.

Mas a pesquisa não tratou apenas de denunciar estes abusos. Um dos objetivos do trabalho foi apresentar soluções de curto prazo para evitar os crimes raciais na comunidade. Para tanto, os ativistas prepararam um programa de cinco pontos básicos para acabar com este tipo de ocorrência no país (ver box). “Quando o governo federal vai agir? Quantas mortes sem sentido serão necessárias para que as autoridades abram os olhos?”, indaga o professor universitário Kevin Johnson, da Universidade da Califórnia, lembrando que pessoas da mídia fomentam a segregação. Para ele, o panorama só vai melhorar com a aprovação de uma reforma imigratória.

Como evitar

Ativistas do Southern Poverty Law Center’s (SPLC) divulgaram um plano de cinco pontos básicos que podem ser adotados imediatamente para reduzir ou até acabar com os crimes raciais.

– Pedir a políticos e personalidades formadoras de opinião que acabem com os comentários preconceituosos contra os indocumentados.

– Aprovar uma lei proibindo que as vítimas ou testemunhas de crimes raciais revelem seu status imigratório

– Fazer com que a polícia seja treinada especificamente para casos envolvendo crimes raciais, bem como fazer com que o problema seja levado a sério pelas autoridades

– Tornar públicas as estatísticas referentes aos crimes raciais nos EUA

– Incluir nos currículos escolares, desde cedo, uma disciplina que incentive a tolerância racial