De espionagem e perseguições

0
557

Antonio Tozzi

“O Brasil é o grande alvo dos Estados Unidos”, repetem alguns brasileiros indignados, repercutindo as palavras do jornalista americano Glenn Greenwald. Na verdade, embora não dê para defender o ato de espionagem dos EUA em relação ao Brasil (e a outros países também), isto me pareceu uma declaração ressentida de alguém que ficou indignado por ter visto seu namorado brasileiro detido em Londres e submetido a interrogatório. Segundo ele, seria uma retaliação por ter publicado notícias do vazamento de Eric Snowden, com apoio do Website Wikileaks.

Vamos por partes. Embora os EUA sejam demonizados como o Grande Satã do planeta, cabem aqui algumas reflexões. Sem negar que realmente os americanos não deixam de agir com prepotência e arrogância, seria, no mínimo, uma ingenuidade achar que apenas eles sejam os vilões e os demais países e seus governantes formem um coral de anjos.

Em termos de espionagem, recentemente foi divulgado aqui nos EUA o flagrante dado por agentes que descobriram um sofisticado esquema de espionagem montado pelo governo chinês. O caso foi tratado com discrição, mas a verdade é que todo mundo espiona todo mundo. Foi uma espionagem industrial, provavelmente igual a esta feita pelos americanos com a Petrobras.

O que ocorre é que cada um divulga a espionagem que pretende. Ou seja, tenho quase certeza de que o Wikileaks deve ter informações contra Rússia, China, Cuba e outros, mas por questão ideológica não as divulga, sob risco de ficar um pária na sociedade sem nenhum tipo de proteção. Aí, opta-se por defender os regimes ditos socialistas, considerados por muitos mais justos.

Mas será que isto é verdade? Greenwald, por exemplo, viveria um inferno numa sociedade socialista. No mês passado, no Campeonato Mundial de Atletismo, realizado em Moscou, o governo russo deixou claro que apóia manifestações anti gays, com várias emissoras americanas divulgando vídeos de agressões ostensivas contra homossexuais naquele país. Até mesmo a campeã e bela Yelena Isinbayeva defendeu o modo de agir dos russos e foi posteriormente criticada pelos dirigentes da Federação Mundial de Atletismo.

Isto também reflete-se em Cuba, onde o (des) governo castrista persegue com violência os homossexuais. Quem tiver dúvida, basta assistir ao filme Before Night Falls, baseado na vida do escritor cubano Reinaldo Arenas, homossexual assumido. E, por isto mesmo, vítima de agressão. No filme de Julian Schnabel, estrelado por Javier Bardem, Olivier Martinez, Johnny Depp e até mesmo Hector Babenco, vê-se claramente como o regime castrista persegue aqueles que têm orientações sexuais diferentes da maioria. E antes que alguém diga que ele foi perseguido por sua ações pró capitalistas o filme é ilustrado com som e vídeo do próprio Fidel Castro condenando os “desviados sexuais que podem arruinar o socialismo”. Ou seja, sorte de Greenwald viver em países mais liberais como Estados Unidos e Brasil.

Por falar em Cuba, ainda vale discutir a ida dos médicos cubanos ao Brasil. Deixando de lado os aspectos profissionais, como o exame revalida e outros, deve-se discutir o quanto é torpe o atual regime cubano. Sem condições de manter os médicos em seu país, os exporta como mercadorias. Pior ainda, lucra sordidamente com eles. Ou seja, primeiramente só podem ir aqueles que o regime permite; depois, mantêm suas famílias como reféns em Cuba, e por último fica com a parte do leão do pagamento dos médicos.

Os socialistas fanáticos dirão: “Ah, mas isto é justo, afinal, eles estudaram graças ao povo cubano e devem retribuir este favor”. Será? Ora, e o esforço individual não conta? E a capacidade intelectual não conta? Pelo menos, sabemos que a criatividade não conta. No atual regime cubano, jamais vai surgir um Steve Jobs, um Bill Gates, um, Mark Zuckenberg, inovadores que mudaram o mundo, simplesmente porque eles são policiados dia e noite. Desta forma, quem se dá bem neste tipo de regime orwelliano é o puxa-saco e o dedo-duro, Muitos deles, aliás, estão indo para o Brasil, exatamente para vigiar as atividades dos médicos, a fim de impedi-los de “trair o socialismo”, leia-se, casar com uma brasileira ou um brasileiro e tornar-se cidadão brasileiro ou pedir asilo político. E podem ter certeza que estes dedo-duros ocupam ou estão a caminho de ocupar altos postos na hierarquia cubana.

Na verdade, de maneira mais tosca, o que Cuba faz não difere do que os EUA fazem. Apenas que cada um usa os recursos dos quais dispõem.

Em tempo: a maioria da população americana é contra uma intervenção na Síria, assim como o governo está dividido. O problema dos EUA é de difícil solução. Se não intervir, será chamado de frouxo e ignorar as atrocidades praticadas por Bashar Al-Assad (só um ingênuo acha que os rebeldes têm acesso a armas químicas), e se intervir será acusado de ingerência em um país soberano. Como mencionei em outra coluna, é a verdadeira escolha de Sofia.