DIÁRIO DE BORDO II: Dentro da cultura índigena dos EUA

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Por Chico Moura (chicomoura@gmail.com)

Especial para o AcheiUSA

Diário de Bordo com Chico Moura - Acheiusa

Dia 7 de outubro

Acordamos em St. Louis, no estado de Missouri e seguimos pela rota 70 até Kansas City. De lá, entramos na estrada 29, com direção a Omaha (Nebraska), a terra dos steaks.

No meio do caminho, um imprevisto: a 29 estava interditada por cerca de 50 milhas num off road, por causa de uma invasão de sapos. Milhares de batráquios cobriam uma rua completamente escura, e só se escutava o pipocar dos sapos sob os pneus da BMW. A estrada levava a lugar nenhum. Voltamos e achamos um desvio até Omaha, a cidade que foi em 2008 considerada a terceira melhor dos Estados Unidos para se viver, segundo a Kiplinger’s Personal Finance Magazine.

O mais interessante é que a entrada para o estado de Nebraska foi somente para dormir. Mais uma vez no Hampton Inn que, além do café do manhã, oferecia piscina de água quente, jaccuzzi e internet.

Dia 8 de outubro

De Nebraska, voltamos para Iowa. Passamos por Sioux City, indo até Sioux Falls, em South Dakota. Preço da gasolina: por volta de $3.12. Tarde da noite chegamos em Rapid City-SD, onde o nosso planejamento apontava dois dias de descanso. Quer dizer: nada de descanso. Dois dias de intensa programação para ver as belezas de um estado voltado para a agricultura, mas que também investiu pesado no turismo. Viajar com pessoas de diferentes idades, como dois adultos, dois adolescentes e uma criança, requer muito equilíbrio emocional. Lógico que os primeiros dias foram de muitos desencontros e adaptações…

Dia 9 de outubro

Seguimos para o Mount Rushmore (ao lado de Keystone City), distante 25 milhas do centro da cidade de Rapid City. Uma manhã nublada e fria. Se dirigimos tanto para ver os presidentes esculpidos na pedra, nada mais saudável do que tentar e com certeza voltar no dia seguinte.

Numa escultura encravada nas rochas do Black Hills (Mount Rushmore), a 1.745 metros acima do nivel do mar, estão as faces de quatro presidentes dos Estados Unidos: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. Eles foram os escolhidos para representar os primeiros 150 anos da história americana e de sua herança cultural. A ideia foi de Doane Robinson, a fim de promover o turismo no estado. E deu certo: Hoje, são mais de três milhões de visitantes por ano.

Gutzon Borglum desenhou a escultura em 1927. O monumento só ficou pronto por volta de 1940. Gutzon não viu o final de seu trabalho. No meio do caminho faleceu, mas o filho, Lincoln Borglum, e mais 400 trabalhadores perpetuaram o seu sonho.

Nem todo mundo ficou satisfeito com a decisão de se esculpir quatro presidentes (brancos) numa montanha sagrada indígena, que até hoje tem um significado espiritual para os índios da tribo Lakota.

Dia 10 de outubro

Ainda hospedados no Hampton Inn de Rapid City, voltamos ao Mount Rushmore. Dia lindo, com muito sol e, ao meio dia, até um calorzinho agradável.

As diferentes atrações da região nos levam de volta à uma época de famosas batalhas com os índios, aos filmes de far-west, dos grandes heróis. Em todos os lugares, sente-se ainda a presença dos índios: nomes de lugares, comidas, monumentos, e até uma certa espiritualidade indígena. Lá estão os fantasmas de Gerônimo, Crazy Horse, Little Big Man, Sitting Bull (Touro Sentado) e tantos outros.

Os famosos General Custer e William Frederick Cody (Buffalo Bill), que ganhou o apelido por ter matado 4.280 bisões (mais conhecido como búfalos) em 18 meses, também passaram por lá.

Por falar em búfalo, almoçamos na pequena cidade de Keystone (ao pé do Mount Rushmore) um tremendo steak de búfalo, servido por descendentes de índios Sioux, no restaurante Ruby.

Logo após o almoço, um giro pela Rushmore Cave, uma mina abandonada no alto do Black Hills Mountain. A Rushmore Cave é uma descida pelo interior da montanha, por caminhos cheios de estalactites e estalagmites, percorrendo 1.113 metros, a uma temperatura de 14 graus centígrados (58 graus Fahrenheit) que permanece a mesma o ano inteiro. O preço da entrada é de $13,50 por adulto e $7.50 por criança (até 13 anos).

Ao lado da caverna, no topo da montanha, outra atração disputada pelos turistas: o Soaring Eagle Zipline, uma cadeira aérea pendurada num cabo de aço, levando os mais corajosos através de vales e montanhas, numa floresta cheia de pinheiros, a uma velocidade incrível. Vale a pena! Os preços: adultos a $10.50 e crianças a $6.50

Crazy Horse

Após diversas e intensas manifestações de descontentamento por parte dos descendentes dos Sioux em relação à escultura dos presidentes no Mount Rushmore, o escultor Korczak Ziolkowski e o chefe da tribo dos Lakota, Henry Standing Bear, resolveram começar oficialmente uma outra escultura no Memorial Crazy Horse, no dia 3 de junho de 1948. Localizado entre Custer e Hill City, a 17 milhas do Mount Rushmore, o objetivo do memorial é homenagear, honrar e preservar a cultura, a tradição e a história de vida dos índios norte-americanos.

Korczak recusou doações tanto de empresas da iniciativa privada como do governo americano. Talvez com medo de que a história pudesse ser distorcida, hoje a fundação continua, após 63 anos de trabalho, com a viúva e os dez filhos do escultor vendendo peças indígenas, seguindo o compromisso de dar continuidade à criação da maior escultura natural do mundo, homenageando o espírito do lendário líder Lakota, Crazy Horse. O projeto visa oferecer um programa cultural e educacional integrado, a fim de encorajar a harmonia e a reconciliação entre os povos de todas as nações, preservar a arte e a cultura (artesanato), através do museu do índio norte-americano, criando uma universidade indígena norte-americana e um centro de ensino de medicina indígena.

Crazy Horse foi o chefe da batalha de Little Bighorn, também conhecida como Custer’s Last Stand. Uma coalizão entre as tribos Lakota (Sioux), Cheyenne e Arapaho derrotou as forças do General George Armstrong Custer (a famosa Sétima Cavalaria). A História registra que o chefe Sitting Bull foi morto pela Cavalaria, mas ntes de morrer fez a profecia de que um grande guerreiro iria aparecer para liderar todas as tribos da nação Sioux. Quando ainda menino, Crazy Horse escutou a profecia e teve a visão de um índio montado num cavalo dourado, ornamentado com penas de gavião.

Já adulto, ganha um inimigo: seu primo Pequeno Grande Homem, que derrotou e depois de banido tornou-se um dos batedores da Cavalaria. No forte, Pequeno Grande Homem conta aos comerciantes que existe ouro em Black Hills, a terra sagrada dos Sioux. Os garimpeiros invadem a terra dos índios. É quando Crazy Horse, em 1876, reúne seu povo e vence a famosa Grande Guerra dos Sioux, conforme a profecia de Sitting Bull.

Crazy Horse morreu assassinado com uma facada nas costas no dia 6 de setembro de 1877 e Korczac nasceu 31 anos depois, no mesmo dia 6 de setembro. Muitos nativos acreditam que ele foi predestinado a esculpir a estátua do herói Lakota..


Diário de Bordo: uma volta pelos Estados Unidos com Chico Moura