Empresas recrutam mão de obra haitiana do Acre

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Despesas com trabalhadores haitianos nos primeiros meses incluem aluguel e casa para receber funcionários

Este artigo é uma reprodução de uma matéria publicada no site IG, nesta quarta-feira. Interessante notar que abordamos o assunto na última edição e agora isto ficou cristalizado.

Formado em administração, o jovem empresário catarinense Alexandre Dias sabe da importância de fazer contas. Ainda assim, no início deste ano, se dispôs a pagar quase R$ 17 mil para contratar e trazer do Acre um grupo de 17 imigrantes haitianos. Foi a solução que encontrou, após quase três anos de buscas frustradas por mão de obra local, para manter o cronograma de entrega dos prédios que constrói. Precisava de 20 funcionários, encontrava dez. Se fossem necessários 30, apareciam 22. As placas de admissão estavam sempre expostas, conta o empresário.

É o enredo de uma história cada vez mais comum na região Sul, onde empresários de diversas cidades reclamam de dificuldade para encontrar trabalhadores e o pleno emprego, em alguns casos, virou realidade. Depois de ler notícias sobre a importação de mão de obra, Dias entrou em contato com o governo do Acre por telefone quem cuida do assunto é a Secretaria de Direitos Humanos do estado, conversou com o dono da Fibratec, fabricante catarinense de piscinas pioneira na contratação de haitianos.

Todo o trâmite, entre a concessão de CPF, carteira de trabalho e passaporte com visto de trabalho no país, levou cerca de duas semanas, conta o empresário. A viagem, de quatro dias em ônibus, custou quase R$ 1 mil por pessoa, entre as passagens e alimentação. Pela casa de dez cômodos onde os haitianos estão hospedados, paga aluguel de R$ 1,8 mil por mês, o que dá pouco mais de R$ 100 por pessoa. E oferece ainda quatro refeições ao dia, roupas, roupas de cama, mesa e banho, diz Dias.

Aqui em Navegantes, os nativos se dedicam à pesca e à indústria naval. Mão de obra para construção vem de fora. Mas, com a chegada de novas empresas à região, tem sido difícil preencher as vagas, afirma Dias.

Outra empresa que fez as contas e recebeu na semana passada uma leva de 14 haitianos é a gaúcha Romena, de Gravataí, que produz massas frescas na região metropolitana de Porto Alegre.”O custo de contratá-los é um pouco mais alto. Mas, no médio prazo, pode compensar, caso caia a rotatividade”, diz André Rosa, diretor administrativo da empresa. Segundo ele, além de limitar a expansão da produção, o entra e sai de funcionários dificulta o aumento da produtividade e pode prejudicar a qualidade.

A Romena pagou cerca de R$ 700 por cada passagem aérea e está seguindo um modelo de integração parecido com o da Imbrasul. Entre os 14 haitianos que contratou, há um professor de idiomas, para ajudar na comunicação, e um casal. Todos moram juntos, em uma casa de quatro quartos, próxima à fábrica, que terá o aluguel pago pela empresa nos primeiros meses, até que possam alugar as suas. Entre os benefícios, serão oferecidas cestas-básicas. O salário inicial é de R$ 814, o mesmo dos brasileiros. Se der certo, podemos até trazer mais, afirma o executivo.

Repeteco

É o que já está fazendo a Fibratec, que fabrica piscinas de fibra de vidro em Chapecó, no Oeste catarinense, e foi uma das pioneiras a trazer imigrantes haitianos do Acre. Da primeira leva de 38, sete meses atrás, permanecem empregados na empresa 14, conta o sócio-diretor Erico Tormem. Dos demais, três foram para empresas de perfuração de poços artesanais; dois um casal para um hotel; cinco para uma empresa de materiais de construção e três para outra de importação. Todas na região. Com alguns, perdeu contato; escutou que foram para o Rio de Janeiro.

Agora, está trazendo mais 14, que receberão salário de R$ 850, mais adicional de insalubridade de 20%, engordando em cerca de 10% o quadro de funcionários. Tem sido uma experiência positiva, de qualquer forma. Alguma coisa a gente sempre acaba aprendendo, diz o empresário.

Tormem conta que os custos da primeira importação de mão de obra bateram os R$ 1,5 mil por pessoa, em passagens e alimentação, além da montagem de casas para hospedar a todos foram montadas três casas de três e quatro quartos, cada uma a um custo entre R$ 400 e R$ 500 mensais. A expectativa de gastos, dessa vez, é mais baixa: R$ 850 por pessoa, uma vez que, de três casas, duas ficaram montadas.

O custo pode parecer alto. Mas a julgar pelo interesse despertado em outras empresas, talvez não seja. Dias, da Imbrasul, afirma que as contratações repercutiram e chamaram a atenção da imprensa. Teve que tirar quase um dia inteiro de trabalho para atender ligações de repórteres e responder perguntas em frente às câmeras. Nos dias seguintes, recebeu ao menos seis ligações de empresas interessadas em saber o caminho das pedras para importar haitianos. Um serviço que Tormem, da Fibratec, o primeiro a fazer as contas, tem prestado a seus pares há alguns meses.