Entrevista: Adriana Dutra, em lente ampliada

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Uma das criadoras do Circuito Inffinito olha para trás e admite que o esforço valeu a pena

A ideia fermentava nas mentes e nos corações de Adriana Dutra e Viviane Spinelli, em meados da década de 90. Enquanto faziam outras atividades em Miami, as duas amigas pensavam de que maneira poderiam viabilizar o projeto de trazer para o sul da Flórida as mais recentes produções cinematográficas brasileiras.

O projeto começou a materializar-se quando elas foram à luta em busca de patrocínios a fim de tornar realidade aquele sonho. Nesta fase, incorporou-se Claudia Dutra, a terceira sócia da Inffinito e outra das responsáveis pela exibição do primeiro Festival do Cinema Brasileiro em Miami, em 1997, na sala Bill Cosford, da Universidade de Miami.

Hoje, 15 anos depois, a realidade é outra. E bem mais consistente. Exatamente na semana em que o cinema brasileiro vira estrela em Miami com o Colony Theatre servindo como palco, Adriana Dutra concede uma entrevista exclusiva ao AcheiUSA, um dos patrocinadores do maior evento cultural brasileiro no sul da Flórida.

AcheiUSA:Adriana, como é comemorar o 15º aniversário de um projeto cultural que surgiu de uma ideia de vocês?
Adriana Dutra:É uma emoção enorme. Ultrapassamos todas as dificuldades e continuamos crescendo. Claro que temos uma realização pessoal, mas o mais importante foi termos aberto uma porta para o cinema brasileiro mostrar suas produções.

AU:Vocês realmente imaginavam que o projeto alcançasse esta dimensão?
AD:Sempre acreditei nisto, sabia? E acho que vamos crescer ainda mais. Até porque o Circuito Inffinito é muito mais do que apenas festivais. Hoje, fazemos filmes, eventos e outras atividades. Mas é claro que isto tudo é resultado de bastante trabalho e de um conteúdo consistente. Como continuamos trabalhando, temos ainda muito para conquistar.

AU:Quais foram as principais dificuldades enfrentadas nestes 15 anos de Circuito Inffinito? E as principais recompensas?
AD:Quando começamos não havia nem Internet, nem telefone celular, tudo tinha de ser feito à base de telefone e fax. Mas o mais difícil mesmo foi vencer a barreira de preconceito que havia contra o cinema brasileiro. E há, ainda, a questão política. Não existe no governo brasileiro uma política específica para investimento em audiovisual. Temos sempre de matar dois leões por dia. Mesmo com todo know how que temos, todo ano precisamos apresentar os projetos, mostrar o conteúdo, etc. E a parte mais difícil, sem dúvida, é a captação de recursos. Além da produção, temos de nos preocupar com a captação. A boa notícia é que o Congresso Nacional acabou de aprovar um projeto de lei que proíbe as TVs abertas de serem majoritárias em conteúdo. É preciso ter conteúdo produzido por produtoras independentes. Além disso, serão três horas e meia por semana de produção brasileira. Só falta a Dilma assinar para se tornar lei.

AU:Você poderia citar os nomes de algumas pessoas que acreditaram no projeto desde o início? Sei que José Wilker é um deles…
AD:Ah, teve muita gente. O Wilker, a família Barreto, Bianca de Filippe, Carla Camuratti, Fernando Meirelles, Ney Latorraca, fica difícil citar todos, até porque todo o mercado nos apoiou bastante.

AU:Do outro lado, houve gente que se retratou depois por não ter acreditado que o projeto fosse ser tão bem-sucedido?
AD:Teve muita gente que não acreditou neste projeto, mesmo na nossa comunidade. Falavam que éramos malucas, mas sempre soubemos que tínhamos nas mãos um conceito forte. Tanto que surgiram outros festivais brasileiros pelo mundo. Hoje, nem vamos mais à Justiça para impedir isto. Pelo contrário, consideramos positivo. A única exigência é que façam algo bem feito e não envolvam o nome da Inffinito nos projetos deles.

AU:Há atualmente algum festival que vocês consideram mais relevante do que os demais ou todos têm a mesma importância para a equipe da Inffinito?
AD:Todos são importantes, mas o de Miami é aquele pelo qual temos mais carinho, por ter sido o primeiro. E, por incrível que pareça, é um dos mais difíceis para se captar. Só conseguimos viabilizá-lo porque contamos com bons parceiros como Petrobras, Redecard, Governo do Brasil com a Secretaria de AudioVisual e Ministério da Cultura -, Condado de Miami Dade, Prefeitura de Miami Beach, Governo da Flórida, e American Airlines, entre outros.

AU:Em termos comerciais, você pode dizer quanto os festivais promovidos pela Inffinito geraram em termos de negócios? Tanto em relação ao faturamento financeiro como em projetos de parcerias entre empresas internacionais e brasileiras.
AD: Até agora, são 47 edições, com dez festivais em oito países. Exibimos 700 filmes e temos um público de cerca de 800 mil espectadores. A previsão é de que atinjamos um milhão de espectadores em 2013. Sobre faturamento, prefiro não falar porque captamos muita verba através de leis de incentivos fiscais, como Lei Rouanet, e isto daria um número distorcido.

AU:Vocês têm projeto de criar um festival internacional de cinema numa grande cidade brasileiro como Rio, São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre? Se houver, poderia dizer para quando seria e quem seriam os parceiros.
AD:Atualmente, fazemos o Verão do Rio, um evento no Rio de Janeiro que reúne artistas musicais de primeiro nível e exibição de filmes nacionais em pré-estreia. Agora, estamos pensando em criar um braço em São Paulo para mostra de filmes internacionais. Para isto, criamos uma parceria com a Girassol, uma produtora de São Paulo, e estamos lançando a Gift, uma empresa criada com este propósito. Mas ainda não temos data programada para o lançamento.

AU:Gostaria que você explicasse melhor o que significa o mediafundmarket.com para os empresários do setor de audiovisual.
AD:Isto é uma ferramenta com uma plataforma chamada “crowd funding”, que permite aos criadores escrever um roteiro, fazer um DVD, um curta-metragem, enfim qualquer recurso audiovisual e alguém que tiver interesse pode entrar em contato com o criador para financiar o projeto. E tem o lado do marketing, onde os produtores disponibilizam suas produções para serem vistas por potenciais compradores. Aí, envia-se um trecho do filme para avaliação e, se o comprador gostar, o negócio é fechado, O material enviado conta com uma marca d’água para evitar piratarias. E a Inffinito é remunerada pela intermediação das negociações, quando concretizadas,

AU:Finalizando, o que significa o Festival do Cinema Brasileiro em Miami para a Inffinito em termos de representatividade e quanto as autoridades de Miami Beach estão satisfeitas com a inclusão deste evento no seu calendário oficial?
AD:O festival é super querido pelas autoridades daqui. Tanto a nível de estado, como de condado e de cidade. Eles ficam muito satisfeitos porque dá muita visibilidade no Exterior, uma vez que repercute nacionalmente, no Brasil e na Europa. E este ano o público vai poder curtir comédias bastante engraçadas. Todos estão convidados!