Especial: Pequena história da imbecilidade humana

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A evolução da cretinice na humanidade, das páginas memoriais dos antigos tratados às manchetes hodiernas

*Prof. Dr. Verdinand von Stultius
Colaboração

Platão (427 a.C – 347 d.C): filósofo grego teria sido pioneiro na busca do ‘idiota ideal’Desde que o ironicamente chamado Homo Sapiens descobriu há milhares de anos que era mais fácil ele conseguir a mulher que desejava aplicando-lhe uma cacetada na cabeça do que lhe oferecendo um buquê de flores que a imbecilidade humana tem progredido a passos largos, mostrando fôlego decidido na busca inexorável pela estupidez perfeita. Essa admirável qualidade é uma das mais eficazes molas impulsionadoras da humanidade, e é amiúde encontrada em todas as civilizações do planeta em todos os momentos de sua história.

Tome-se, por exemplo, uma obra clássica, como a de Homero, notadamente a ‘Odisseia’. A virtuosa Penélope, mulher do herói Ulisses, tecia um sudário durante o dia e o destecia à noite, a fim de ganhar tempo para responder aos inúmeros pretendentes à sua mão que julgavam morto o marido, na verdade perdido entre o canto das sereias — e havia imbecis que acreditavam nessa história. Platão foi o primeiro filósofo a lidar com o tema sob a ótica do pensamento racional, e concluiu na sua deveras obscura obra, ‘O Mito do Homo Stultorum na Caverna’, que haveria em algum lugar no mundo das ideias a ‘imbecilidade ideal’, espécie de cálice sagrado que continha a própria essência da estultície, do qual muitos já teriam inclusive bebido.

Relatos de suprema oligofrenia também são encontrados em diversos livros sagrados das mais respeitadas religiões. Lao Tsé, no Tao Te Ching, por exemplo, já notava argutamente que ‘aquele que sabe não fala, mas o imbecil fala’. Na Roma Antiga, o imperador Calígula foi um dos mais importantes colaboradores para a lista dos grandes imbecis da humanidade ao nomear seu cavalo Incitatus para o Senado Romano. E foi das tribunas desse mesmo augusto Senado que um colega bípede de Incitatus, Caius Cretinuus, também fervoroso estudante do assunto, deu ao mundo a frase que depois o tornou famoso, ‘stultorum numerus est infinitus’, que um par de milhar de anos mais tarde foi confirmada pelo célebre Albert Einstein, em seu extenso trabalho comparativo entre a infinitude do universo e a estupidez humana. Depois de décadas de pesquisas que lhe tomaram a saúde e, segundo os inimigos, sua sanidade mental, o revolucionário cientista concluiu que havia somente duas coisas infinitas no mundo: o espaço e a estupidez humana, mas que não tinha muita certeza quanto à primeira. Um imbecil, citando o próprio e admirável sábio, diria em desafio às conclusões do autor da Teoria da Relatividade que tudo é relativo, inclusive a imbecilidade, coisa que só um grande imbecil seria capaz de afirmar.

Mas, divagamos. O que esse pequeno estudo a vol d’oiseau pretende demonstrar é que, mesmo com toda a evolução socio tecnológica porque passou a humanidade desde o tempo em que o Sapiens nocauteava suas noivas, a imbecilidade continua sendo uma das mais renitentes qualidades da raça, cuja presença é facilmente notada em nosso dia a dia, seja nos bancos escolares, na tribuna dos políticos ou nas inúmeras gazetas que trombeteiam velhas novidades diariamente.

Infelizmente, por razões de espaço nesta página, somos obrigados a adiantar nossas conclusões sobre este fascinante tema. Destarte, concluímos, como resultado de nossa minuciosa pesquisa à frente da cátedra de Psicologia Comparada na Universidade de Schwarzenkleinriver, que exemplos da cretinice humana podem inesperadamente aparecer em qualquer lugar, ainda que ela justificadamente sempre venha de onde é mais provável vir, isto é, de um imbecil. Basta olhar em volta o leitor para confirmar essa teoria.
*PhD pela Schwarzenkleinriver University