Familiares de brasileiros baleados planejam ação na Justiça

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Na operação em Deerfield Beach, policiais mataram Júnior Patrício e feriram Adonirio Silva (na foto com a namorada Mônica e ainda internado no North Broward Medical Center)

O caso dos brasileiros baleados por policiais no condomínio Heritage Circle, em Deerfield Beach, vai acabar na Justiça. Pelo menos é isso que garantem os familiares de Júnior Patrício de Sá, morto com pelo menos três tiros, e Adonirio Silva, que foi baleado, mas passa bem depois de ser submetido a uma cirurgia na barriga. O objetivo é entrar com uma ação indenizatória, pois a operação policial foi considerada por eles imprópria: “Eles não podiam fazer aquilo, os brasileiros não são bandidos”, afirmou Neusa Neves, irmã de Júnior; “Foi uma covardia”, corroborou Adonirio, ainda internado no North Broward Medical Center.

As duas famílias já procuraram escritórios de advocacia especializados na matéria para ingressar na Justiça. “Casos como este não costumam ficar impunes neste país. Além do mais, os brasileiros não podem ser assassinados pelos policiais a todo o momento”, acrescentou Neusa, que mora em Indianápolis e veio à Flórida somente para conseguir liberação do corpo de Júnior. Mineiro de Caratinga, ele deve ser enterrado em sua cidade natal, dentro de dez dias.

Já o paulista Adonirio continua internado, em bom estado, depois de passar por uma cirurgia que durou mais de quatro horas. Ele foi baleado duas vezes e um dos tiros perfurou o estômago e o intestino: “O médico disse que por dois centímetros a bala não atinge o pulmão, o que seria fatal”, contou a namorada de Adonirio, a também brasileira Mônica Wrobleski. Os dois planejavam ficar noivos por estes dias, mas o incidente acabou adiando os planos. A volta ao trabalho na área de construção também deve acontecer só no mês que vem: Adonirio, de 47 anos, terá que ficar de repouso por mais três semanas e, até agora, não tem recebido muitas visitas: segundo Mônica, os brasileiros estão com medo de ir ao Hospital por questões imigratórias.

Para o casal, a operação policial teve um ingrediente discriminatório. “Os norte-americanos, com algumas exceções, têm preconceito contra os imigrantes. Eles sabiam que éramos brasileiros e já chegaram atirando. Não havia necessidade para tanta violência”, lamentou Adonirio. Ele não escondeu que o seu roommate estava com uma faca nas mãos, mas revelou que o mineiro provavelmente estava delirando: “Ele dizia que alguém queria matá-lo e ficava correndo de um lado para o outro, muito agitado”.

Pela sua versão, Júnior chegou a lhe dar uma gravata, mas os dois eram muito amigos e não houve discussão acerca do pagamento do aluguel nem estavam bêbados, como foi ventilado pela porta-voz do Broward Sheriff’s Office. Adonirio, que no Brasil era motorista de transporte alternativo, quer deixar para trás todo este pesadelo e, quem sabe, voltar para o Brasil algum dia, para abrir seu próprio negócio e voltar ao convívio de seus três filhos. Ele, porém, ainda quer finalizar o curso de enfermagem e ganhar algum dinheiro, que pode vir pelas vias da Justiça norte-americana. “Afinal, só o custo do hospital deve ficar em mais de 200 mil dólares”, calcula Mônica.

Segundo um advogado de Broward, que preferiu não se identificar e fez questão de frisar que não tem conhecimento de todos os fatos da operação policial, o valor da ação na Justiça pode passar de 800 mil dólares: “A grande questão é provar que não havia risco de vida no desentendimento entre os dois brasileiros”, disse o advogado. Há quase dois anos, um outro brasileiro, Jean Charles, foi morto por policiais no metrô de Londres e a família teria direito, segundo especialistas, a cerca de US$ 1,5 milhão de indenização.

O detetive que esteve no hospital para ouvir o depoimento do brasileiro disse que os policiais do Broward Sheriff’s Office Vincent Campos e James Morrisroe atiraram em Júnior para salvar a vida de Adonirio. “Mas será que não havia outros meios de resolver esta situação?”, perguntou, então, o paulista, que ficou sem resposta. Os dois oficiais do BSO continuam suspensos das atividades e são alvo de um processo administrativo para apurar as circunstâncias daquela operação.