Imigração no México tem ‘crise humanitária’

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Imigrantes enfrentam extorsões, sequestros, homicídios e violações

A imigração no México apresenta uma ‘crise humanitária’ por falta de respostas

DA REDAÇÃO COM EFE — Jornalistas, ativistas e especialistas em imigração apresentaram alguns projetos tecnológicos para ajudar os indocumentados que cruzam o México para enfrentar a violência, a corrupção e as violações de direitos humanos que sofrem.
“A maioria dos mexicanos ainda tem o conceito de que imigração é a do mexicano que vai para os Estados Unidos, quando na verdade estamos falando de uma crise humanitária aqui no México pelos imigrantes que vêm da América Central e América do Sul”, e que são vítimas de abusos, adverte a jornalista Lilia Saúl.

Extorsão, sequestro, homicídio e violações, sobretudo de mulheres, são alguns dos casos encontrados por Saúl, organizadora no México do Hackathón America’s Datafest, um espaço de experiência e criação que procura dar visibilidade a este tema.
A tecnologia a serviço dos imigrantes

Durante dois dias este evento pôs a tecnologia a serviço da imigração em onze países da América e na Espanha, e no México reuniu jornalistas e desenvolvedores de programas de informática como Yosune Chamizo, Iddar Olivares e Prometeo Lucero, que contaram à Efe seus projetos e pesquisas.

Yosune e Iddar, de 29 e 25 anos respectivamente, trabalham em “Onde está?”, um programa que procura fazer um acompanhamento dos imigrantes pelo México para contar com dados oficiais de registros e fluxos imigratórios e, ainda, manter informados os familiares e amigos sobre sua localização.

Para que tenha sucesso, os 40 ou 50 albergues mexicanos que acolhem os imigrantes precisam realizar um registro específico de cada um que chega a eles para que seu percurso apareça como uma linha pontilhada em um mapa de forma que seus familiares saibam por onde passaram.

Falta de clareza em torno da imigração no México

“Muita gente que vive no México, que consideramos educada, não tem ideia de que isto está ocorrendo. E seguramente isto tem causado mais mortes do que muitas guerras”, diz Yosune sobre uma “crise humanitária permanente” na qual há “violações de direitos humanos o tempo todo”.

“Há muita corrupcção em volta”, acrescenta Iddar Olivares, apontando o mesmo problema que Ana Ávila, que critica o Instituto Nacional de Imigração (INM) de violar direitos humanos dos imigrantes.

Esta professora do Centro de Pesquisa e Docência Econômica (CIDE) critica as políticas públicas existentes porque parece que os imigrantes no México “são pessoas sem direitos”, e opina que iniciativas como o Hackathón podem acabar com a “cortina” em torno da imigração.

O fotógrafo de imprensa Prometeo Lucero trabalha em uma equipe para documentar em um mapa da América Central até os EUA histórias de imigrantes que fogem do desemprego, da violência, da pobreza ou dos desastres naturais e atravessam da Guatemala para o México após seis horas em uma lancha e dez a pé, em um clima “de selva” e úmido, ao fim das quais “chegam devastados”.

Os heróis sem rosto que ajudam os imigrantes

Acordos entre México e América Central sobre como administrar a passagem dos imigrantes, melhor aproveitamento das bases de dados ou vistos de um mês para que possam chegar à fronteira de maneira legal e segura são algumas das ideias destas pessoas para melhorar as condições da imigração, um fenômeno em torno do qual há poucos, mas bastante valiosos, atos solidários.

Os entrevistados citam alguns como o trabalho nos albergues, graças aos quais os imigrantes sobrevivem, e o das “Patronas”, mulheres de poucos recursos que, no estado de Veracruz, jogam comida para os que vão encarapitados em cima do trem em movimento que se dirige à fronteira.

Lilia Saúl pede mais responsabilidade do governo, das organizações, dos meios de comunicação e da sociedade em relação aos imigrantes.

“Se a sociedade exigisse mais do governo, se daria conta de que não é uma situação que precisamos pensar que não é estranha para nós. (…) Somos seres humanos, oras. De uma ou de outra maneira estamos relacionados com todos eles”, e não deveríamos pensar que chegam para tirar postos de trabalho ou para assaltar e sequestrar, critica Saúl.

“Teríamos que nos responsabilizar e dizer: se nós tratarmos bem o imigrante e lhes fornecemos os recursos para que cheguem a seu destino final, não teríamos por que passar por isto nem ter esta crise humanitária”, conclui.