Imigrantes indocumentados trabalham por $1/dia em prisões americanas

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Governo e empresas privadas economizam milhões em trabalho terceirizado, ativistas dizem que é trabalho abusivo

DA REDAÇÃO COM NEW YORK TIMES – Enquanto o governo americano impede que empresas contratem imigrantes sem documentos para viver legalmente no país, ativistas provam que ele mesmo é o maior usuário de mão de obra indocumentada. Em 2013, cerca de 60 mil imigrantes indocumentados trabalharam em prisões americanas, a maioria por $1 por dia ou apenas em troca do produtos como chocolate, crédito de telefone (ligações em presídios são caríssimas) e/ou somente o direito de frequentar áreas de lazer. O setor pode estar economizando cerca de $40 milhões por ano, mas ativistas garantem que o valor pode chegar a $200 milhões.

Esse tipo de trabalho tem gerado controvérsias, de um lado detentos e ativistas, do outro o governo e as empresas privadas que administram dezenas de presídios. Em abril, advogados de ONG que lutam pelos direitos dos imigrantes deram início a um processo contra autoridades de imigração em Tacoma (WA). Os detentos daquele estado tentaram fazer uma greve e foram ameaçados de serem transferidos para celas de solitárias. No Texas, houve uma tentativa semelhante, mas os guardas obrigaram outros detentos a cobrir as vagas deixada pelos manifestantes.

As autoridades federais garantem que a adesão ao programa de trabalho nas prisões é voluntário, está estipulado em lei e ajuda a economizar dinheiro dos contribuintes. O governo alega que, inclusive, o número de detentos querendo trabalhar seria maior do que o número de vagas. Ativistas garantem que não é voluntário e que as empresas privadas que dirigem muitos centros de detenção estão se aproveitando das regras previstas em lei para transformar os detentos em mão de obra barata.

No ano passado, 60 mil imigrantes trabalharam nas prisões pelo país, segundo o ICE (polícia de imigração). O trabalho barato, em alguns casos por treze centavos a hora, faz com que o governo e as empresas privadas economizem cerca de $40 milhões por ano. Um trabalhador terceirizado custaria em média $7.25 por hora. Alguns imigrantes não recebem nada pelo serviço, e outros são pagos com refrigerante, barras de chocolate enquanto trabalham principalmente na prepação de comida para o próprios colegas ou para outras instituições.

Ativistas reclamam que, ao contrário de criminosos que trabalham nos presídios sem direito a pagamento, pelo menos metade dos imigrante detidos acabam provando que de uma maneira ou de outra têm direito de estar no país. O caso de um imigrante mexicano que ganhava $15 por hora em um restaurante e passou a ganhar $1 por dia durante os 19 meses que ficou preso injustamente, foi usado pelos advogados para entrar com o processo contra o sistema carcerário na Geórgia. Ele conseguiu provar que poderia permanecer no país. Entretanto teve de contrair uma dívida de $75 mil com advogados para livrá-lo da cadeia.

Governo
O sistema de detenção de imigrantes custa cerca de $2 bilhões por ano. “O trabalho na prisão ajuda também os detentos que se sentem mais produtivos e com isso contribuem melhor para manter a ordem no local”, disse a porta-voz da agência de imigração, Gillian Christensen. Ela afirmou que os detentos-trabalhadores não são oficialmente empregados e por isso o ‘pagamento’ não seria considerado salário e sim ajuda de custos. “Ninguém é forçado a trabalho. Aliás tem disputa pelas vagas”, finalizou.

A lei federal que estipula o trabalho voluntário dentro das prisões é datada da década de 50. Naquela época o valor estipulado foi de $1 por dia (o que equivaleria atualmente a $9.80). Em 1979, o caso foi revisto, mas o congresso decidiu não aumentar o valor. Uma ação judicial de ativistas tentou em vão modificar a lei.

O ICE usa 250 prisões nos Estados Unidos para manter os imigrantes indocumentados, sendo que em 55 delas existe o trabalho voluntário. Governos estaduais controlam 21 desses centros, o restante está nas mãos de empresas privadas.

De acordo com o ICE, os detentos não trabalham mais de 40 horas por semana e suas atividades são restritas aos serviços diretamente ligados ao sistema operacional dos centros de detenção. No entanto, ativistas garantem que ex-detentos da Joe Corley Detention Facility, em Houston (TX) afirmaram que trabalhavam na preparação de até 7 mil refeições por dia. A metade delas era enviada para outros presídios. Na Califórnia, os imigrantes do Contra Costa West County Detention Facility cozinhavam 900 refeições por dia para o abrigo de mendigos da cidade de São Francisco.

Bom negócio
O controle de presídios para imigrantes era um mau negócio nos Estados Unidos até 11 de setembro de 2001, quando houve o ataque ao World Trade Center em NY. De lá prá cá, o cerco contra os imigrantes ilegais tem ficado cada dia mais apertado o que elevou significativamente o número de presos. Com isso os presídios se transformaram em um excelente negócio.

As duas empresas privadas que controlaram a maioria dos presidios para imigrantes no país – Correction Corporation of America e GEO Group – viram seus lucros crescerem em mais de 60% nos últimos dez anos. O valor das ações da CCA, por exemplo, saltaram de $3 para $30. No ano passado, a mesma companhia teve receita líquida de $301 milhões, e a GEO Group fez $115 milhões.