Jovem brasileiro dedica seu tempo a trabalho voluntário na África

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Estudante de enfermagem trabalhou seis meses na Zâmbia e conta que passou uma semana se alimentando só de goiaba

Jovem brasileiro dedica seu tempo a trabalho voluntário na África

Por Ana Paula Franco – O jovem Khaleby Gomes tem apenas 21 anos, mas uma experiência de vida que poucos têm oportunidade de vivenciar. O estudante de enfermagem deixou para trás sua família no Brasil, trancou a faculdade de enfermagem em Brasília (DF) em 2013 para viver uma experiência única: ser voluntário num pequeno vilarejo de Samsya, na Zâmbia, país africano assolado pela pobreza e baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH).

Khaleby sempre teve vontade de viajar e participar de algum tipo de trabalho voluntário até que encontrou por meio da internet a ONG “One World Center” que recruta voluntários em todo o mundo para ajudar em seus projetos sociais. Sem muita expectativa de ser chamado, o jovem, que já havia cursado enfermagem no Ensino Médio, Khaleby se inscreveu, foi selecionado, enviou toda a documentação e chegou a Williamstown, Massachusetts, em novembro de 2013. Ele passou por seis meses de treinamento na comunidade mantida pela ONG, outros seis meses na Zâmbia, e hoje se prepara para voltar ao Brasil em maio com muita história para contar. Khaleby já estudava inglês no Brasil e também aperfeiçoou o idioma na escola em Albany.

“Depois de estudar com pessoas do mundo inteiro sobre sociologia, pobreza, sobre a vida na África por seis meses, eu cheguei a um pequeno vilarejo na Zâmbia. Eu cheguei e logo pensei que trabalharia como enfermeiro. Já de cara a gente percebe que tudo o que é planejado muda de figura quando estamos de fato no local e encaramos de perto a realidade fora dos livros. Comecei ajudando no hospital e fiquei conhecendo dois portugueses que estavam trabalhando na reforma de um orfanato. Eu alternava entre o trabalho no orfanato e na escola. Nunca tinha trabalhado com construção civil na vida. Tudo quem me ensinou foi o Google e a prática”, disse.

Khaleby ensina noções de higiene e cuidados pessoais a moradores da vila
Khaleby ensina noções de higiene e cuidados pessoais a moradores da vila

O jovem conta que, depois de três meses de trabalho árduo, o prédio todo reformado, o dono reclamou e pegou o prédio de volta. “Estava tudo caindo aos pedaços e erramos quando não olhamos de quem era a propriedade, perdemos todo o trabalho”, lamenta. Apesar do contratempo, ele e seus amigos não se abateram e começaram do zero. “Tínhamos pouco dinheiro disponibilizado pela ONG, era uma cota por semana e já tinha acabado. Pedi ajuda aos amigos do Brasil, peguei todo o dinheiro que tinha, eu e meu amigo passamos uma semana comendo só goiaba para recomeçar a obra do orfanato em outro lugar”, relata. “As crianças ficaram sem lugar para ficar. E começamos a fazer captação de recursos e muita gente ajudou. Foi uma moblização geral e construímos outro orfanato. A água na vila era de 6 às 10 da manhã. No novo orfanato que fizemos tinha água e energia”, comemora.

Ao fim da jornada de seis meses em que além do orfanato, fizeram um projeto para o hospital, Khaleby faz um balanço da viagem. “Trabalhei, junto com seis amigos da Coreia do sul, Colômbia, Pasquistão, Japão e alguns desses amigos vieram diretamente dos seus países para apoiarem a nossa causa. A lição que tiro disso tudo é que qualquer coisa que queremos, podemos fazer com a ajuda de alguém. Você nunca vai conseguir nada sozinho”, conclui.

O estudante de enfermagem agora está escrevendo sobre sua experiência e vai retornar ao Brasil em maio. Ele pretende concluir o curso de enfermagem em Brasília e retornar para os Estados Unidos para continuar a estudar.

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O brasileiro em frente ao orfanato que ajudou a reformar

Depoimento do fundador do orfanato, Elias Sapato
A educação é o único acesso para minhas crianças a sair dessa vida.
Meu nome é Mister Elias Sapato e sou fundador do Tusungane orfanato.
Sempre tive vontade de sair da minha vila e ganhar o mundo, porém o destino me prendeu. Tive filhos muito novo, me casei muito novo. Hoje felizmente tenho oito filhos e nesta vida eu sempre quis aprender. Trabalhei como enfermeiro, como pedreiro, como professor.
Ao ver meus filhos com um prato de comida vivendo na mesma vila onde muitas crianças sofrem sem ter o que comer ou sem ter onde dormir, me enche de alegria ver o orfanato pronto.
Nosso orfanato surgiu de um prédio abandonado, acabado e vazio. O começo foi muito cruel, muitas vezes chorei sozinho, porém nunca faltou nada e nossa comunidade sempre nos apoiou com pequenas doações, talvez um prato de comida que certamente faria falta nas próximas refeições. Na Zâmbia compartilhar é sempre ganhar e assim surgiu o nosso orfanato, Eu sempre quis tirar minhas crianças dessa vida e prepará-las para o mundo, porque quando você com o tom de pele escuro , africano o mundo e sempre te verá com outros olhos.
Depois de 7 anos no mesmo lugar, enfim mudamos para um lugar com cama, água e eletricidade, muitas das minhas crianças nunca tomaram um banho de água quente na vida, porém  a partir de agora  a qualquer momento isso é acessível.