Kaia-ki

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A nova cara do reggae brasileiro na Flórida

Nos início dos anos 80, num recanto de Salvador, a amante da música, Cristina, embalava os filhos cantando ‘Do, Re, Mi, Fa, Sol, La, Si’. Alguns anos depois, as notas musicais passaram a fazer parte do dia-a-dia da família de forma mais profícua, com os dois filhos estudando e praticando música. Um deles era João Carlos Serra, que aos cinco anos foi estudar piano clássico e depois desenvolveu sua faceta autoral. O outro, Miqueias Macambira, desenvolveu sua multi-habilidade instrumental: passou por piano, violão, bateria, baixo e violino.

Os dois seguiram caminhos distintos e similares, ao mesmo tempo. Pareciam seguir vertentes diferentes, mas ao mesmo tempo convergiam para a mesma finalidade: a música. Apesar do berço, as influências passaram longe do axé e dos novos baianos. A veia a pulsar mais forte foi a do reggae, que levou os dois a formar recentemente a banda Kaia.Ki – ainda na formação estão Tony (baixo) e Juliana (bateria).

Muito antes do reggae, entretanto, os dois irmãos passaram por ‘escolas’ distintas.

“Minha escola inicial foi a UCSal – Universidade Católica de Salvador, estudando piano livre aos cinco anos”, conta João. Ficou por alguns anos e aos 11 já começava a compor letra e música. O background religioso da família o impulsionou para esse caminho, na adolescência. Com uma banda gospel, o Grupo Primícias, ele gravou dois CDs em Salvador. Nessa época, também regia o coral da igreja.

Paralelamente, extravasava sua paixão pela música também cantando MPB em bares da região.

Alma gêmea – Nessa mesma época, meados dos anos 90, o irmão Miqueias, ou Mick, também começava a despontar no nicho artístico. “Meu irmão foi minha maior influência. Nunca pensei em ser músico e fui meio que empurrado para tocar na igreja”, revela, embora admita ter sido providencial o incentivo do irmão.

Ele começou então a estudar piano clássico, mas não levou a sério. Aos 12 anos começou a “brincar” com o violão, e as primeiras notas dedilhadas inspiraram-se, não por acaso, nas músicas da Tribo de Jah e da Cidade Negra. Aos 14 anos, pulou pro baixo, por achar que fosse fácil. “Tudo que eu via os outros fazendo me parecia fácil e queria fazer também”, conta o irrequieto Mick, que até hoje preserva a alma moleque.
Depois de começar a tocar baixo, interessou-se por bateria, percussão, violino e piano, outra vez. Resultado: transformou-se num jovem multi-instrumentista que fica à vontade em qualquer estilo e com qualquer instrumento. Seu forte, no entanto, é a guitarra, instrumento que toca na banda. Aos 16 anos, Mick integrou a banda estudantil “Marotos do Mar”, que tocava reggae.

Da igreja para os bares de Salvador, e depois para os bares dos EUA, foi um pulo que levou cinco anos. Cristina mudou-se para o país em 1998 e dois anos depois chegou João. Mick viria somente em 2004.

Formação da banda – Antes de 2004, João já vinha mostrando seu talento em festas e bares locais, em Boston. Também dava aulas de canto e de teclado – profissão que ainda exerce – por lá. Cedeu aos encantos da Flórida há dois anos e ao reencontrar o irmão ressurgiu nos dois o estímulo para formar uma banda aqui também, realizando um projeto antigo.

“A Flórida foi o início da retomada de tudo. Nosso contato foi explosivo e já não dava mais para ficar hibernando”, conta João, que assume a posição de irmão mais velho. Embora banque o protetor, rende-se em elogios a Mick pelo seu talento.

Faltava apenas agrupar mais gente para completar a banda. Uniram-se ao grupo, então, o baixista Tony Araújo. Ele trouxe um pouco de experiência para o grupo, pois está na estrada musical há décadas.

Natural de Fortaleza, Tony começou a tocar aos 15 anos. Ele conta que pegou um violão da irmã e retirou duas cordas. Gostava do som do baixo e assim tirou seus primeiros acordes de baixo em um violão.
Começou a aprender, comprou um baixo de verdade e passou a trabalhar nos bares de Fortaleza.

Aos 20 anos, mudou-se para São Paulo e deu continuidade à carreira na capital cultural do Brasil.

“Nessa época eu fazia um pouco de tudo: reggae, MPB, lambada, Bossa Nova etc.”, conta.

Voltou para Fortaleza em 98, aonde chegou a gravar com a banda Lumiar, e desenvolveu vários outros trabalhos. Em 2001, aportou nos Estados Unidos, e tocou com a banda de Márcio Cardoso e com a Fatinha.
“O Mick sempre me convidava para a gente formar uma banda, eu finalmente aceitei o convite no ano passado”, conta Tony.

“Com a banda eu estou tendo a oportunidade de tocar um repertório legal, que eu gosto”, destaca.

À banda uniu-se o baterista Marcelo, recentemente substituído pela pequena Juliana, que parece sumir atrás dos tambores, mas cresce em palco quando o show começa.

Repertório – Já com a banda completa, os músicos preferiram passar um tempo ensaiando e retocando o repertório para só pisar em palco com o trabalho ‘redondinho’. Assim se passou quase um ano de acertos e consertos. Entre escolha de repertório, integração dos músicos e, claro, o árduo trabalho de adequacão com a disponibilidade de tempo de todos os músicos – que se dividem entre a música e trabalhos rotineiros, diários – foram-se meses de trabalho e espera antes de fazer o debut na comunidade. Durante os ensaios também foram discutidas as propostas de nome. A escolha foi Kaia-Ki, que dá margens a interpretações e significa muitas coisas, mas nenhuma muito familiar ao público brasileiro.

Kaia-Ki pode ser um dos enésimos nomes para marijuana, mas é também o nome de uma árvore japonesa, é o nome de uma geléia de coco, de um perfume – “o meu preferido, inclusive”, diz Mick -, é uma cidade da África, também uma cidade do sul Sudão.

A estréia aconteceu em julho, no Tom Choppin. Desde então, a trupe tem se apresentado em vários bares brasileiros, como Tom Choppin e Kybom Bar e Restaurante. No repertório, um pouco do bom pop-reggae brasileiro, com pinceladas de sucessos de Bob Marley etc.

“Não é somente reggae. Tocamos vários estilos: pop, jazz e blues com temáticas de reggae”, define João.

No repertório, constam também músicas de autoria da banda. Uma das músicas leva a assinatura da mãe, Cristina, a incentivadora. A canção se chama “Life Is The Prize” (Vida é o prêmio) e prova que o talento dos dois irmãos não surgiu do acaso.


P.S.: Além de tocar com a banda, João também dá aulas de canto e teclado. Ao lado de Tony estão desenvolvendo um trabalho voltado para a MPB e para o jazz e blues, que pretendem apresentar pelas noites brasileiras da Flórida.