Karla Moretzsohn

0
741

Pintar é sublime para Karla Moretzsohn

Antonio Tozzi

Bonito, Mato Grosso do Sul. Nesta cidade começou a história da pintora Karla Moretzsohn. Natural do Rio de Janeiro e criada em Natal, Rio Grande do Norte, foi na pitoresca cidade de Bonito que sua carreira de pintora decolou e onde seu coração e sua alma se encontraram.

Karla foi para lá depois de ter se apaixonado por um homem que vivia naquela região. Lá, aprendeu a pintar cerâmica com os índios kadwel e libertou seu instinto e sua arte, materializando-os em telas onde se mesclam uma variedade de materiais, que vão do óleo ao acrílico, passando por madeira, corda e lixo reciclado.

Os ventos de mudança sopraram novamente na vida de Karla trouxeram-na até Miami, onde vive atualmente junto com seus dois filhos músicos e perto de sua filha casada, para iniciar uma nova fase – tanto pessoal como artística.

Aqui, ela sofreu um terrível acidente no Valentine’s Day do ano passado e teve de ser encaminhada ao Jackson Memorial Hospital em Miami, onde chegou a estar desenganada pelos médicos. No entanto, recuperou-se completamente, sem ficar com nenhuma seqüela. “Até os médicos consideraram um milagre minha recuperação. Com certeza, foi uma intervenção divina”, garante a artista.

Quando estava em coma durante cinco dias e com grandes chances de ficar com algum tipo de seqüela, Karla conta que pediu apenas uma coisa a Deus: “Pedi a Ele que me levasse tudo, mas me deixasse pelo menos minha pintura”. Não só foi atendida, como ainda teve a felicidade de sair ilesa daquele terrível acidente, ocorrido pouco tempo depois de ter vindo para Miami.

Juntando-se à família – Karla veio para Miami há um ano e meio depois de ter percebido estar vivendo sozinha no Brasil, ou melhor, apenas com seu namorado. Toda a família já estava vivendo nos Estados Unidos: mãe, irmãos e sobretudo seus três filhos. De repente, bateu aquele sentimento de frustração de estar longe dos familiares e ela decidiu vir para cá juntamente com seu namorado.

Após a péssima experiência vivida com o acidente de carro, Karla também teve de encarar a separação com seu amado, conseqüência de uma vida dura vivida em uma terra estranha e longe da pacata Bonito.

Fazendo uma viagem de volta ao tempo, Karla narra suas várias atividades na cidade que abriga sete rios de água cristalinas e mais de mil grutas, sem contar algumas que ainda nem foram descobertas. O destaque fica por conta da Gruta Azul, com mais de 70 metros de profundidade. Com tanta beleza, não é de estranhar que Bonito atraia a atenção de turistas de todo o mundo. “Aliás, vão mais estrangeiros para lá do que brasileiros, porque o turismo é caro para o padrão do brasileiro médio, que ganha em reais”, afirma a pintora.

Contato com a arte nativa – A própria Karla envolveu-se com o turismo local, tendo aberto uma pousada e uma agência de turismo para levar os visitantes a conhecer as belezas locais. Durante o contato com os nativos, sobretudo índios da tribo Kadwel, Karla desenvolveu o gosto pela pintura da cerâmica. Esta influência reflete-se em sua arte, seja na própria pintura de vasos seja na arte expressa em telas.

E a paixão pela arte foi sendo transmitida a crianças carentes da região que puderam encontrar na arte uma forma de manifestar-se. “Tinha muitas crianças talentosas”, garante a artista.O envolvimento com a arte, o turismo e o povo de Bonito fizeram com que Karla fosse criando raízes e retratando os momentos e as paisagens da vida na aprazível cidade do Pantanal sulmatogrossense.

Mesmo vivendo distante de lá, Karla confessa que as lembranças ainda estão bem vívidas em sua memória. Não só na memória. “Vivo aqui, mas meu coração ainda está em Bonito”, confessa.

Entretanto, se não pode viver lá, Karla traz Bonito para sua vida ao reproduzir suas paisagens em telas. São imagens pessoais, que transmitem a sensação de tranqüilidade e paz que passam também para os admiradores. Ela pinta também paisagens de todos os lugares pelos quais se encanta. Em um recente passeio ao Tennessee, ela se apaixonou pela beleza agreste do estado americano e sentiu-se motivada a reproduzir nas telas a inspiração que aquelas imagens lhes causaram.

Espaço na arte local – Determinada a continuar vivendo na Flórida, ao lado dos seus filhos, Karla está tentando tornar-se conhecida no circuito artístico. Para isto, tem colocado alguns quadros na mochila e ido a algumas feiras de arte onde pode mostrar – e vender – sua arte.
Ela fez dois cursos básicos de pintura, mas admite que seu trabalho é praticamente intuitivo. Karla também adota uma metodologia de trabalhar três vezes por semana, dedicando-se à pintura de paisagens e à ampliação de fotos. Mas para render melhor a pintora reconhece que precisa de um equilíbrio interior. No momento em que está em paz consigo, seu trabalho flui com mais naturalidade.

E não há nenhum tipo de obstáculo que evite Karla de alcançar seu sonho: tornar-se uma artista plástica conhecida. Nem mesmo o fato de não poder dirigir, por ainda não ter direito a tirar sua carteira de motorista, a impede de circular por Miami Beach e outras cidades do sul da Flórida.

Como ela consegue? Simples. Sobe em sua bicicleta e sai pedalando em direção à felicidade. “Para mim, não há limites. Montada em minha bicicleta, vou a qualquer lugar, porque nada nem ninguém pode me segurar. Sei que meu destino é ser feliz. Seja nesta vida ou na próxima encarnação”, finaliza a artista.