Histórico

Liderança global de Lula pode salvar Doha, dizem EUA

Schwab diz que Lula pode contribuir para que parceiros abram mercados

A representante comercial dos Estados Unidos, Susan Schwab, acredita que a liderança global exercida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva será vital para retomar a Rodada de Doha de liberalização do comércio mundial.
”O presidente Lula tem um papel especial como líder global. Ele sabe de seu potencial para ajudar a promover e até mesmo para salvar a Rodada de Doha”, disse, em entrevista à BBC Brasil.

A representante americana acredita que a liderança de Lula junto aos países em desenvolvimento poderá contribuir para que parceiros brasileiros e americanos abram seus mercados e revejam supostas posições protecionistas, como é o caso da Índia.

”O Brasil, assim como os Estados Unidos, tem interesse real em exportar mais produtos agrícolas para a Índia. Queremos trabalhar junto com o Brasil para abrir o mercado indiano. E abrir também o nosso próprio mercado, assim como o brasileiro.”

Schwab acredita que Lula pode contribuir para que ”esta seja uma rodada de desenvolvimento, que promova o comércio norte-sul, mas também o comércio sul-sul.”

Posições semelhantes

A representante comercial qualificou o encontro entre o presidente Lula e o líder americano, George W. Bush, no último sábado, em Camp David, como ”excelente” e afirmou que a reunião dos dois líderes contribuiu para que a posição dos dois países em relação a Doha se estreitasse ainda mais.

”Brasil e Estados Unidos têm interessses bem semelhantes em relação a Doha. Ambos queremos um desdobramento que seja ambicioso e equilibrado.”

Negociações
O Congresso estaria disposto a aceitar um acordo forte para a Rodada de Doha, mesmo um no qual fossem feitos cortes significativos em políticas nacionais distorcivas.

Susan Schwab

A Rodada de Doha chegou a um impasse em meados do ano passado. O Brasil queria a derrubada dos subsídios que americanos e europeus dão aos seus setores agrícolas. Estes, por sua vez, buscavam maior acesso ao mercado dos países em desenvolvimento.

Schwab acredita que as concessões terão de se dar de forma simultânea. ”Os Estados Unidos não esperam que o Brasil aja primeiro. E acredito que o Brasil não espera o mesmo dos Estados Unidos. Temos de atuar juntos para que, quando estivermos perto de um avanço, todos possam colocar suas cartas na mesa, como diz o presidente Lula, de forma simultânea, para que não haja supresas.”

Fast track

Um dos fatores considerados essenciais para o sucesso da Rodada de Doha é a renovação da trade promotion authority (TPA), o dispostivo que dá ao presidente americano a autoridade de renovar acordos comerciais sem a possibilidade de emendas pelo Congresso.

A TPA, também conhecida como ”fast track”, vence em julho deste ano. Susan Schwab se diz confiante em relação à renovação.

”Estamos mantendo um diálogo muito intenso com os líderes do Congresso e temos confiança na renovação. O Congresso estaria disposto a aceitar um acordo forte para a Rodada de Doha, mesmo um no qual fossem feitos cortes significativos em políticas nacionais distorcivas”, acredita Schwab.

Mas ela acredita que a condição para que congressistas e senadores aceitem que os Estados Unidos cortem subsídios seria que os Estados Unidos ”também adquiram acesso suficiente a novos mercados, em agricultura, serviços e produtos manufaturados”.

Relatório

A representação comercial dos Estados Unidos divulgou nesta segunda-feira um relatório no qual afirma que as tarifas impostas individualmente pelo Brasil e pela TEC (Tarifa Externa Comum) do Mercosul estão prejudicando a exportação de produtos agrícolas, bebidas destiladas e artigos de informática e telecomunicações.

“O Brasil aplica tarifas adicionais que poderão dobrar o custo de importações no país”, diz o documento. “Altas tarifas para equipamentos e peças de informática, além de altos impostos, levaram à criação de um enorme mercado negro de computadores.”

O documento critica também a pirataria, mas afirma que as autoridades brasileiras têm feito avanços no sentido de combatê-la.

O texto traz ainda críticas à burocracia brasileira, ao observar que empresas americanas ”continuam a criticar a onerosa e documentação exigida para importar determinadas mercadorias para o Brasil, até mesmo de forma provisória”.

O Brasil representa o 13º maior mercado de exportações para os Estados Unidos.