Loren Oliveira

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Artista polivalente e seus projetos instigantes

Antonio Tozzi

Há seres que passam suas vidas seguindo as normas e procuram adaptar-se ao statu quo. Eles são importantes para a sociedade porque suas vidas previsíveis fazem a máquina funcionar. Poucos, porém, lembram-se deles. Há outros seres que fazem de suas vidas um constante desafio. Irriquietos, buscam formas de manifestar seus inconformismos e suas visões de mundo. Muitas vezes são contestados. Mas suas presenças fazem com que o mundo saia do lugar comum e vislumbrem-se novas possibilidades. Estes são notados.

Loren Oliveira figura no segundo grupo, é claro. Esta paulistana de 41 anos teve uma empatia com os Estados Unidos, onde vive há 11 anos, na primeira vez em que visitou a cidade de New York. Mas sua ligação com a arte vem desde cedo, quando a menina se vestia de mulher mais velha somente para poder cantar na noite de São Paulo. Ela sempre teve apoio da sua família para seguir a carreira artística, principalmente do seu pai. “Cantava em vários bares da boemia paulista e até me apresentei no 150 Night Club, bar do Maksoud Plaza. Era um barato! Precisava usar vestido e maquiagem para não ficar com cara de garotinha”, conta sorrindo a artista. Tarefa difícil, porque até hoje ela ainda mantém aquela carinha e o ar de garota sapeca.

Inquieta como todo adolescente, Loren dividia seu tempo entre a área artística, o pára-quedismo – ela chegou até mesmo a ter uma escola para ensinar as pessoas a saltar de pára-quedas, com o nome de Venha Voar com as Águias – e a psicologia, curso que não chegou a concluir.

A chance de estrelar a ópera-rock “Amapola” fez com que ela abandonasse o pára-quedismo e a psicologia e entrasse com tudo na carreira artística. “Realmente, foi um dádiva. Ter interpretado o papel principal neste espetáculo, onde pude cantar e ser atriz, me abriu muitas portas para o mundo artístico. Foi uma experiência inesquecível”, relembra a entrevistada.

“Don’t Cry for me Argentina” – A performance de Loren arrancou uma série de elogios. Os principais jornais e revistas brasileiros deram destaque à novata que roubou a cena. Isto foi suficiente para ela ser convidada para outro musical. Desta vez, nada menos do que “Evita”, de Andrew Lloyd Weber. Neste espetáculo, ela representou o papel da amante de Juan Domingo Perón – ou seja, o segundo papel feminino mais importante, atrás apenas da própria Evita, interpretada pela cantora Claudia.

E foi um show de primeira linha, com a supervisão dos coreógrafos da Broadway, que coordenaram o musical de Weber em New York. O espetáculo foi montado no Palace, uma das mais badaladas casas de espetáculos de São Paulo, e ficou muito tempo em cartaz, sempre com casa cheia. Novamente, ganhou reconhecimento da crítica e do público. Ela ainda participou como atriz e cantora na produção brasileira do famoso musical “Hair”.

Embora sempre tivesse desempenhado papéis dramáticos, Loren tinha uma verve cômica que gostaria de explorar. Quando conheceu Cacá Rosset, o diretor do Ornitorrinco, famoso grupo paulista, ela manifestou seu desejo de integrar a trupe. Convite feito e aceito, porque Rosset também havia adorado sua interpretação em Amapola.

O Doente Imaginário – Ela entrou no grupo em grande estilo. Escolhida para interpretar a filha do “Doente Imaginário”, – espetáculo cômico e peripatético inspirado na obra de Moliére, conforme a própria definição de Rosset -, Loren mostrou seu trabalho em São Paulo e em várias outras cidades brasileiras e viajou com o Grupo Ornitorrinco numa turnê pelo mundo. Participou do Festival Internacional de Teatro, na Costa Rica, do Grande Festival Cidade do México, na caital mexicana, e do Festival Ibero Americano de Teatro, em Cadiz e em Madri.

A turma do Grupo Ornitorrinco era da pesada na década de 90. Tinha artistas consagrados como José Rubens Chachá, Ari França, Maria Alice Vergueiro, Rosi Campos e Cristiane Tricerri. Este pessoal realizou outro espetáculo de sucesso: “Teledeum”. Neste espetáculo, Loren foi a narradora.

O grupo participou também do Festival Shakespeare de New York, a convite de Joseph Papp, conceituado produtor de espetáculos da Broadway, para mostrar “O Doente Imaginário”. A peça foi aclamada e muitos atores e atrizes receberam críticas favoráveis na mídia local, inclusive Loren.

New York, New York – A viagem a New York despertou o desejo de Loren e de seu marido Fernando Moraes, músico e produtor, de se mudarem para a “capital cultural do mundo”. Este desejo foi incentivado após a frustração com a montagem do espetáculo “Os Oito Pecados Capitais”, uma “super produção de multimídia que combinou o fascínio e a magia do circo com a mistura de sons e ritmos, conceitos de música e teatro brasileiro numa versão ousada da obra de Brecht”, segundo a definição da própria autora.

Ela se inspirou num show do Cirque du Soleil, bem antes deste circo ter virado moda. “Entretanto, por ser algo bastante arrojado e o país ainda estar vivendo a ressaca do Plano Collor, ficou difícil conseguir patrocínio. Aí, vendemos tudo para bancar a produção e, claro, não obtivemos a resposta desejada. Só nos restou tentar a sorte no Exterior. Como Fernando havia se formado em Berklee, em Boston, pensamos em usar os contatos dele para nos integrarmos à cidade”, conta Loren.

Apesar de todo o entusiasmo, a experiência foi frustrante. Como Loren não falava inglês e Fernando não conseguiu os contatos esperados, o casal passou apenas um ano em New York e retornou ao Brasil. Na ocasião, ela estava aguardando a resposta da Sony Music a um projeto apresentado. Entretanto, a Sony preferiu assinar com Daniela Mercury, que começava a despontar no cenário musical brasileiro e já fazia sucesso no carnaval baiano.

Luna Latina – Sem perspectivas, eles decidiram retornar aos Estados Unidos. Só que desta vez vieram para a Flórida. E chegaram dispostos a tudo. Fernando foi trabalhar como manobrista e Loren como baby sitter e faxineira. “Depois de ter uma carreira artística no Brasil, tivemos de enfrentar a dura realidade aqui nos EUA. Mas encaramos numa boa e soubemos tirar proveito desta fase. Ironicamente, minha ligação com música é tanta que até limpei a casa de Whitney Houston”, conta, rindo.

Identificada com a filosofia budista, ela começou a freqüentar os cultos e a fazer amizades com pessoas que tinham muito em comum. Entre eles, alguns artistas. Através deste contato, conheceu músicos do naipe de George Tandy, Patrick Duffy, Dean Laurence Carter, Herbie Hancock, Wayne Shorter e Nestor Torres, autor de “Luna Latina”.

Garota de Ipanema – Loren passou a interagir com estes artistas e se redescobriu brasileira. Ao perceber o carinho e o respeito que os americanos e latinos dedicavam ao Brasil e à música brasileira, ela passou a interpretar os clássicos da MPB, sobretudo do período da bossa nova. “Interessante, eu que havia deixado o Brasil por falta de opções, de repente me vi recuperando minha identidade brasileira graças aos amigos americanos e interpretando canções que cantava nos meus tempos de cantora da noite. A vida não é mesmo surpreendente?”, pergunta a artista polivalente.

Aliás, graças a esta polivalência, Loren começou a produzir shows e a participar de gravações com estas “feras” da World Music. Trabalhou como produtora com Fred Rossi nas produções de Toquinho, Arthur Moreira Lima, MPB4 e outros. Gravou com Suba (Mitar Subotic) composições inéditas que se eternizaram no mercado Groove Lounge/World Music.

Em virtude da ligação com o budismo, Loren e Fernando conheceram a fundadora do grupo Fushu Daiko, formado por percussionistas de Daiko. Antes de morrer, Yoshiko Cane pediu a eles que não deixassem o grupo morrer. E até hoje eles estão mantendo a palavra e divulgando o belo trabalho do Fushu Daiko.

Aquarela do Brasil – Quem acha que Loren está acomodada, engana-se. Ela abriu a Sincronia USA, uma empresa dedicada à promoção de eventos. Graças a isto, está coordenando no Broward Center for the Performing Arts o evento entre o Broward Center e o Ministério da Cultura do Brasil, programado para novembro.

Ela ainda tem tempo de desenvolver um projeto que lhe dá muita satisfação. Juntamente com Beatriz Malnic – também cantora e paulistana -, elas formaram o grupo vocal Brazilian Voices, no qual várias mulheres interpretam clássicos do repertório popular brasileiro, como “Aquarela do Brasil” e outras canções.

O encontro entre Loren e Beatriz estava escrito nas estrelas. “Nós nascemos na mesma maternidade em São Paulo, tivemos a mesma professora de canto, e participamos de espetáculos com os mesmos artistas no Brasil. No entanto, nunca nos conhecemos lá. Viemos a fazer amizade aqui na Flórida. Não é um barato?”, comenta.

Poderíamos encerrar recorrendo ao lugar-comum: “O mundo é mesmo muito pequeno”. Mas preferimos destacar o fato como uma boa coincidência para todos: “Sorte da comunidade brasileira ter duas artistas tão fantásticas como Loren e Beatriz vivendo entre nós”.