Luciano Rabuske

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Poeta, fotógrafo e artista plástico, Luciano Rabuske tem na sensibilidade sua marca registrada

Carlos Wesley

Gaúcho de múltiplos talentos

O talento de Luciano Rabuske vem de longa data. Desde a adolescência em Santa Cruz do Sul, um pequeno município de colonização alemã no interior do Rio Grande do Sul, ele já dava mostras de sua multiplicidade: aos 16 anos, escrevia matérias sobre os fatos da comunidade e eventos da região para um jornal quinzenal, ‘Questão de Outono’. Depois, foi premiado no concurso ‘Poesia nos Ônibus’ e teve seus trabalhos afixados nos coletivos da cidade. Já em Porto Alegre, cantou numa banda punk e expressava nas letras das músicas sua inconformidade com a corrupção política e insegurança no país. “Foi um momento de muita efervescência e ajudou a moldar a minha característica multimídia”, explica o artista, hoje na faixa, como chamam, da meia-idade.

Fotografias, poesias, crônicas, telas

Luciano expressa sua arte de várias formas. Do seu apartamento em South Beach, ele lembra a sua trajetória artística, que por alguns anos ficou ofuscada pelo curso de Relações Públicas na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). “Esqueci um pouco das artes e só pensava na carreira”, admite. Somente na volta à Santa Cruz ele retoma a produção literária, e em grande estilo. Com amigos do colégio, Luciano funda a Associação Santarosense de Escritores (Ases), que já tem sete coletâneas publicadas.

Naquela época começou também a escrever para o site www.leitequente.com e ilustrava as crônicas com suas imagens. “Era minha válvula de escape e um espaço para mostrar a minha arte”, conta Luciano. Por falar nisso, nas artes plásticas o seu estilo é, predominantemente, abstrato expressionista, mas… “Não gosto de rótulos, pois confinam trabalhos criativos em uma ou duas palavras e, para a arte, não existem palavras. Você até pode explicar uma pintura, mas em uma outra linguagem, além da compreensão humana”, explica Luciano.

Suas produções são feitas em computador, que imita perfeitamente a experiência de trabalhos com mídias tradicionais, como aquarela ou óleo sobre tela, mas possui as vantagens da tecnologia digital. Ele, porém, mantém em segredo o nome do programa que utiliza: “A máquina me permite infinitas possibilidades e se eu não gostar dos efeitos que apliquei ou mesmo de um ou outro detalhe, basta apertar o Ctrl-Z (desfazer)”, diz o artista, cuja primeira mostra individual aconteceu no Sesc do Rio Grande do Sul, em 2001, quando já vivia nos Estados Unidos. Já a paixão pela fotografia surgiu a partir de sua chegada a Miami e ao encontro com as belíssimas paisagens e o estilo art déco da cidade.

Além de tudo isso, Luciano é também um grande atleta: ganhou 83 medalhas em competições de basquete, atletismo, natação e ciclismo, além de ter recebido convites para jogar handball em um time da Califórnia. Mas atualmente o esporte serve mais para manter a forma e para ativar o cérebro. “Depois de fazer exercícios, consigo criar mais”, justifica. A maior inspiração, no entanto, vem da vida – “Sou como um voyeur, que observa tudo o que está em volta para transformar em arte. Tudo com muita sensibilidade”, resume Luciano, cuja produção (textos e imagens) pode ser conferida ainda em seu blog, no site www.brtvonline.com.


Os mendigos e a culpa

As ruas não são suas
As nuas ruas também não são dos carros e dos passos
Fáceis faces que o destino leu
Migalhas são aceitas como moedas
São como diamantes amarelados e oxidados do asfalto sujo
Estercos de mendigos e desocupados quietos
A dura soma do pão duro branco e a banana preta
Quem sabe o que é fome sabe tudo e nada pode fazer
Sabe o que sofrer e quase morrer
Massa fervida numa lata de ervilha grande
Água sem óleo e sal com poeira
Se vê cassetinhos velhos e comida misturada
Caspas nos casacos de doações de sensíveis almas
Chatos não os deixam em paz
Pulgas os mordem vorazes
Piolhos brigam entre si
Banho frio somente de sol com roupas sujas
Lavadas em banheiros públicos com sabonete barato
Justo quando certamente ninguém viu ninguém.
As ruas são das pedras verdes de musgos valentes
Entupidos de histórias para contar
De poetas sem sono que perambulam pela cidade
Busca de uma vertente ou um bar aberto
Ruela pode os levar ao perigo do corte sem cabelo de faca
Na espreita de um transeunte desprovido de atenção
Solidários ladrões e o que vier é lucro
No escuro todos são suspeitos
Nas sombras nos cantos nos postes mijados por corujas insanas
A lua soma a nuvem branca e a bandeira preta
Quem sabe o que é crime amassa e gelo sem água
Torce carteiras de gente que trabalha para viver
Fuligem dos moldes marcados de giz nas roupas
Vitrines com modelos vivos 24 horas
Neons convidativos resfriar e esquecer o sonho de consumo
Aquecer a cama de papelão com cobertas de panos úmidos
Jornal dentro de sapatos quando eles os têm
Culpáveis e culpados? Quem? Eles ou nós?