Mais quatro anos

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Antonio Tozzi

Neste final de semana o presidente dos Estados Unidos Barack Obama fez outro juramento para comandar o país por mais quatro anos. Comparada à posse anterior, fez-se uma festa mais modesta. Por vários motivos. O primeiro deles é que os EUA estão passando por uma fase de recuperação econômica, o outro é porque acabou o êxtase de ter um presidente negro na Casa Branca e finalmente porque o governo dele não foi exatamente um primor.

Vamos por partes. Apesar dos resultados da economia americana não serem muito animadores, é inegável que já dá para vislumbrar uma luz no fim do túnel. Pouco a pouco o mercado imobiliário vem apresentando melhoras e em breve os preços dos imóveis devem voltar aos patamares ideais onge, porém, daqueles valores estratosféricos inflados pela valorização desenfreada.

Também a atividade industrial vem apresentando índices positivos de recuperação, com muitas empresas até mesmo desativando suas operações no Exterior (leia-se China) para voltar a produzir no território americano. O Wal Mart, o maior conglomerado varejista do mundo, assinou contrato com alguns fornecedores comprometendo-se a comprar a produção destas empresas que estão voltando a fabricar nos Estados Unidos. Isto é positivo porque vai acabar gerando mais empregos no país, sobretudo para a população de instrução mais baixa.
Em contrapartida, a ascensão vertiginosa do mercado online, capitaneada pela Amazon, pode gerar muito desemprego no comércio.

Quatro grandes redes (Best Buy, Radio Shack, Sears e JC Penney) estão ameaçadas de fechar as portas se persistir esta tendência de compra por Internet. Elas podem simplesmente demitir boa parte dos vendedores e montarem operações em depósitos para distribuir seus produtos através da venda online. Evidentemente, isto causaria aumento de desemprego no comércio e crise no mercado imobiliário comercial, que depende destas grandes lojas como âncoras em seus empreendimentos.

Sobre o fato de haver um presidente negro melhor seria dizer mulato, porque a mãe era branca -, parece que a população já assimilou. Os que eram contrários continuam com suas posições, mas a maioria da população simplesmente ignora este detalhe, preferindo votar no candidato que, na opinião dela, ofereceu mais condições para dar a ela uma vida mais estável em meio a este período de turbulência.

Em relação ao governo de Barack Obama, ele conseguiu desagradar as duas partes. Os ultraesquerdistas sonhavam que ele lideraria uma revolução social no país e levasse os Estados Unidos a um regime socialista. Além disto ser de uma ingenuidade sem tamanho, ele seria deposto. Os mais conservadores, por sua vez, o acusam de ser exatamente um socialista. Seria cômico se não fosse trágico. Por conta desta análise míope, eles bloqueiam qualquer iniciativa do presidente para melhorar o bem-estar da população, alegando que Obama está criando uma sociedade de parasitas na qual os mais preguiçosos vivem às custas daqueles que trabalham e pagam impostos.

Evidentemente, os dois lados estão exagerando. Obama bem que tentou aproximar-se dos republicanos para fazer um governo de coalizão, absorvendo até mesmo algumas propostas deles para se chegar a um consenso. A intransigência de um grupo mais sectário, no entanto, afastou qualquer possibilidade de acordo e quem acabou pagando o pato foi a população.

As perspectivas para o segundo mandato são mais promissoras na medida em que os líderes republicanos mais lúcidos estão propondo mudanças na condução dos rumos do partido, após a derrota na eleição presidencial. Uma das mais significativas deve ser a reforma imigratória. Grupos com ideários racistas se opõem à absorção dos imigrantes ilegais na sociedade americana. Depois do partido ter sido derrotado nas eleições de 2012, tudo indica que eles perderam força dentro do Partido Republicano, e líderes como o ex-governador da Flórida, Jeb Bush, e o senador da Flórida, Marco Rubio, elevaram suas vozes em defesa de uma reforma imigratória justa e abrangente.

Se isto vier a se concretizar, Obama acabará saldando uma de suas promessas de campanha ainda não cumprida. Sua reeleição também acabou de vez com a celeuma em torno do Obamacare um sistema de saúde pública universal, tão combatido pelos republicanos, que já começa a ser implantado em todo o país.

A retirada dos soldados do Afeganistão ainda está em andamento, bem como a diminuição dos investimentos em armas, além, é claro, da luta por um controle mais efetivo de armas junto à população civil, numa tentativa de reduzir os massacres em escolas e locais públicos nos Estados Unidos.

A festa foi modesta, mas a esperança é que o governo de Obama seja glorioso. Pelo bem dos EUA e dos outros países aliados entre eles, o Brasil.


Este texto foi originalmente publicado no website Diretodaredação.com