Márcio Conceição

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Deficiência física não impede que Márcio Conceição exerça atividades diversificadas

Carlos Wesley

Ator, fotógrafo, autor e diretor teatral. Márcio Conceição tem motivos de sobra para ocupar este espaço no jornal, que a cada edição destaca o trabalho artístico de membros da nossa comunidade aqui nos Estados Unidos. No entanto, a história deste quase carioca – nasceu em Teresópolis, a menos de duas horas do Rio de Janeiro – é muito mais rica: Márcio é paraplégico, mas a deficiência física que o impede de movimentar a parte inferior do corpo não foi capaz de tirar-lhe a alegria de viver. Muito pelo contrário. “Não trocaria a minha vida de hoje por aquela que eu tinha antes do acidente”, afirma.

E não que a vida dele fosse ruim. Jovem, bonito e cheio de energia, Márcio era modelo fotográfico bastante requisitado pela sua agência, no Rio de Janeiro. Em 1991, ele recebeu um convite para aparecer numa campanha publicitária e veio para os Estados Unidos para umas fotos na Califórnia. Antes, porém, fez questão de passar pela Flórida, pois queria conhecer Miami e Orlando, e foi justamente na Turnpike que aconteceu o tal acidente citado no parágrafo anterior. O carro em que viajava capo-tou, fraturando várias vértebras da coluna cervical e mudando a vida daquele rapaz de apenas 18 anos… o próprio Márcio diz que para melhor, pois a fatalidade o aproximou da(s) sua(s) arte(s).

Vida de novela

Depois de um ano e meio internado no Jackson Memorial Hospital, em tratamento de estimulação elétrica, ele acabou conseguindo recuperar os movimentos dos braços, com o apoio da mãe, que veio do Brasil para cuidar dele. “Não queria depen-der muito dos outros e os braços e as mãos eram fundamentais para que eu pudesse me movimentar com a cadeira de rodas”, explica. E depois de algumas tentativas e prejuízos com alguns negócios frustrados, como uma escola de computação e um jornal, ele decidiu dedicar seu tempo à arte.

A primeira providência foi matricular-se numa escola de teatro: “Não nasci para ficar em escritório, e como sempre gostei de atuar, achei que seria uma boa opção”, disse Márcio. Não estava errado, pois foi logo chamado para encenar as produções do grupo Acting School of South Florida. Escreveu algumas peças, dirigiu outros espetáculos e atuou em diferentes papéis, inclusive musiciais… pois é, ele também canta. Até que tomou coragem e participou de um casting (um teste de escolha de atores) para uma novela do canal hispânico Univision.
É bem verdade que precisou tomar aulas de espanhol, mas tão logo dominou o idioma, integrou o elenco de ‘Mi vida eres tú’, estrelada por nomes consagrados no mercado latino, entre eles Scarlet Ortiz e Jorge Aravena. Sua participação seria modesta, aparecendo em poucas cenas, mas a diretora gostou tanto do seu trabalho que ele ficou no set os 244 capítulos da trama. “Meu personagem cresceu e acabei me tornando um dos prota-gonistas”, diverte-se o ator, que já está escalado para a próxima novela da emissora, que entra no ar ainda neste primeiro semestre. Desta vez, ele será o vilão e está animado com a oportunidade.

A grande paixão

A paixão pela fotografia desabrochou até antes do acidente: como modelo, gostava de interagir com os fotógrafos para entender melhor sua profissão. Depois, já de cadeira de rodas, percorria as festas e eventos clicando a comunidade. O teatro também o ajudou neste processo. “Fazia fotos dos artistas das peças e todos me incentivavam a me profissionalizar de verdade. Hoje tenho meu estúdio e ofereço serviços como comerciais de televisão, vídeos, curta-metragens e muito mais”, ressalta Márcio, que em 2006 organizou sua primeira exposição individual de fotografias na galeria Art and Artists, em South Beach. O material foi todo produzido no Museu do Holocausto de Miami e a mostra recebeu o sugestivo nome de ‘The Search’ (veja mais fotos no site www.photosbymarcio.com).

Teatro

Seu projeto mais recente envolve uma nova peça de teatro, ‘Da janela do nosso apartamento’, da qual é o assistente de direção. “Estou encarregado de ajudar os atores no desenvolvimento de seus personagens”, explica Márcio, empolgado com a estréia, prevista para final de junho. Até lá, pretende dar uma passada pelo Brasil para uma outra causa nobre: ele quer reunir-se com o prefeito de Teresópolis para discutir melhores condições para os cadeirantes. “Fiquei 16 anos sem poder voltar ao Brasil para evitar problemas com a imigração. Estive lá alguns meses atrás e me decepcionei com o descaso em relação ao deficiente físico. Pensei em lançar uma campanha de conscientização junto aos empresários”, adianta Márcio.