Mau conselheiro

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Antonio Tozzi

Depois de se reunir com Dilma Rousseff, no velório de Luis Gushiken (um dos fundadores do PT que morreu de câncer em São Paulo na semana passada), Luiz Inácio Lula da Silva aconselhou a presidente a cancelar a viagem aos Estados Unidos agora em outubro, por causa do escândalo da espionagem americana.

Isto, de fato, ocorreu, embora não tenha havido exatamente um cancelamento e sim um adiamento, uma solução que agradou tanto Dilma como Brack Obama, que não está passando por um bom período astral como presidente dos Etados Unidos.

À primeira vista, parece um ato de altivez, ou seja, o Brasil não se dobra aos poderosos quando se trata de defender sua soberania.

Entretanto, se analisarmos de uma maneira menos passional, vamos constatar que esta é uma decisão precipitada e incorreta.

Ora, o Brasil vive um momento em que sua economia está enfraquecida, e inserir-se no mercado internacional é a alternativa mais sábia para se manter no bloco dos países mais importantes do mundo. Após um período prolongado de recessão e economia lenta, os Estados Unidos começam a dar sinais de recuperação, portanto, firmar parcerias com o governo e empresas americanas pode ser uma forma de voltar a impulsionar a cambaleante economia brasileira.

Até mesmo a Europa, que passou por um período de letargia desanimador, voltou a dar esperança aos seus cidadãos. Ou seja, este é o momento de abrir-se para o mundo a fim de ampliar seu raio de ação, dinamizando o intercâmbio comercial, motor vital da recuperação econômica que o Brasil tanto necessita.

Entretanto, o governo brasileiro parece não entender a importância do Brasil no cenário internacional. Em vez de aliar-se com as economias mais fortes e as democracias mais consolidadas, prefere juntar-se a países cujos governos ainda se encontram na pré-história da modernidade e dos conceitos democráticos.

Para se ter uma ideia, o Brasil está alinhado com Argentina, Bolívia, Venezuela e Equador, e ainda renega o governo paraguaio, enquanto o bloco do Pacífico – Colômbia, Peru e Chile assim como o México – negocia diretamente com os Estados Unidos, Canadá e Europa, em vez de se preocupar em seguir decisões retrógradas.

Desta forma, podemos apostar que daqui uma década, se não houver correção de rumo, veremos estes países bem à frente do Brasil, por terem adotado visões mais modernas e atuais.

Comparando o ocorrido no Brasil e no México, o país norte-americano está sabendo lidar melhor com a situação. Embora a atitude americana seja altamente criticável, o governo mexicano tem adotado a postura de cobrar uma desculpa do governo dos EUA, por também ter sido espionado, mas sem deixar que isto interfira nas relações comerciais entre os dois países. O mesmo ocorreu com a Alemanha.

Dilma Rousseff deveria adotar a mesma linha. Exigir explicações do governo americano por este ato condenável, mas ao mesmo tempo manter o que já havia sido programado. Afinal, dentro do protocolo americano, ela seria recebida com honra de chefe de Estado pelo governo dos EUA, algo reservado para poucos governantes estrangeiros. Antes de Dilma, apenas Fernando Henrique Cardoso contou com esta deferência, no caso do Brasil.

Além do mais, o governo brasileiro já havia sido humilhado anteriormente por Evo Morales, da Bolívia, e por Rafael Correia, do Equador, que desapropriaram empresas brasileiras – inclusive a Petrobras -, sem que nosso governo tivesse feito nenhum tipo de retaliação. Pelo contrário, sublimou os episódios em nome da “unidade continental”. Teve de engolir seco até mesmo a ameaça da suspensão do fornecimento de gás para o Brasil. Então, por que motivo não haveria de adotar a mesma postura em relação aos Estados Unidos, um dos principais parceiros comerciais do Brasil?

E o episódio poderia ter um efeito ainda melhor, uma vez que o governo brasileiro talvez conseguisse mais concessões por parte dos EUA, como forma de compensar a indiscrição cometida pelos arapongas americanos. Afinal, vivemos numa aldeia global e não dá para ignorar os demais países.

O duro é que o governo brasileiro ainda faz política do século XXI com o pensamento da década de 60 do século passado, onde os Estados Unidos eram responsáveis por tudo de ruim, e os países comunistas paradigmas de justiça e igualdade. Aliás, os EUA estão sempre na berlinda porque aqui é uma sociedade aberta, enquanto nos outros países não há liberdade de expressão e muito menos espaço para dissidentes criticar seus governantes.

Vale lembrar ainda que todos fazem espionagem. E se, por acaso, o governo brasileiro souber que está sendo espionado pelos chineses qual seria a atitude a tomar? Romper com os principais compradores de commodities brasileiras ou fingir que não houve nada e seguir em frente?