Melhor do pior ou pior dos melhores

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Jorge M. Nunes

Depois do jogo de estreia do Brasil na Copa, todo mundo correu para as mídias sociais (leia-se Facebook) para os comentários de pós-jogo, que os mineiros costumam chamar de ‘resenha’. Antes, porém, já que o time de Felipão havia jogado razoavelmente bem, tinha conquistado uma boa vitória por três a um sobre a Croácia e tudo tinha dado relativamente certo, era preciso arranjar alguma coisa para se falar mal. As opções eram o Itaquerão meio inacabado, as vaias para Dilma, o Galvão Bueno e a Globo em geral, o gol contra do Marcelo, o pênalti mal marcado pelo juiz ou a abertura da Copa. A última opção ganhou de goleada, e assim não faltou quem malhasse sem piedade o pobre espetáculo.

Realmente, a abertura não foi lá essas coisas. O show de Cláudia Leitte, Jennifer Lopez e Pit Bull não empolgou, e algumas coreografias e adereços pareceram um tanto modestos para um público acostumado ao luxo e deslumbre de um desfile de escola de samba, por exemplo. O rapaz vestido com exoesqueleto não deu o pontapé inicial para o jogo no centro do campo, mas da linha lateral, e assim perdeu-se um pouco do clímax da apresentação. Mas, a abertura não foi nenhum desastre, não deu nada errado, não houve micos, tombos ou falhas técnicas clamorosas.

Entretanto, para o olhar implacável e ultrasofisticado dos anti-tudo do Facebook, a apresentação foi um desastre humilhante, do qual nem uma goleada de vinte a zero do Brasil sobre a Croácia poderia nos redimir. Pouco importa que tenha havido um jogo com vitória depois da abertura, que bem ou mal o Itaquerão tenha se comportado e passado pela prova de fogo de uma abertura de Copa do Mundo. O que vale é a oportunidade de falar mal, de exercitar o (mau) senso crítico para manter afiada a ilusão de superioridade e distanciamento desse alienante ópio do povo, o futebol, e do seu momento maior, que é a infame Copa do Mundo da Fifa.

Por todo mundo, agora, passam as nossas melhores imagens. Imagens do que há de melhor nas nossas cidades, do melhor da nossa arte, da nossa cultura e nosso povo, por causa da Copa do Mundo. Porque ainda que alguns de nós se esforcem para mostrar e ridicularizar com cinismo o que temos de pior, o que o mundo quer ver mesmo é o que o Brasil tem de melhor. O que temos de pior também há em muitos outros lugares do planeta, mas o que nós temos de melhor só existe no Brasil.

Não se trata de ufanismo tolo, ou de uma ressurreição do patriotismo doentio que aquele sinistro lema da ditadura, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, invocava, mas do reconhecimento de que há um lado positivo nas coisas e que não há nada de especialmente ruim no Brasil que o faça pior que qualquer outro lugar do mundo. É conhecida a expressão de Nelson Rodrigues sobre o complexo de vira-latas do brasileiro. O anjo pornográfico já havia detectado há muito tempo essa tendência coletiva de automenosprezo, que hoje anda mais evidente do que nunca. O complexo de vira-latas é esse recorrente atestado de incompetência que insistimos em apresentar ao mundo, mesmo durante os nossos sucessos.

Não se trata também de obrigar todo mundo a torcer pela Seleção como prova de patriotismo. Não é a perfomance de um time de futebol que vai fazer uma nação superior ou inferior à outra. Não é o amor pela Seleção que vai determinar o amor de um cidadão pelo seu país. Ninguém vai ser acusado de traição à pátria se não der a mínima pelota para a Seleção ou a Copa do Mundo, evidentemente.

Mas a insistente procura do pior ponto de vista para descrever o próprio país, a sua própria cultura, o lugar onde você e sua família cresceram e se criaram, se isso não é falta de patriotismo, pelo menos é falta de amor próprio.

Ah, sim: foi uma ótima estreia para a Seleção de Felipão. Oscar e Neymar foram os destaques em campo. E o Oscar de melhor ator vai para Fred.

Até semana que vem.