Museu Funerário

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Fui buscar a coleção de conchas de meu amigo Pete no Tennessee, uma parte estava em um museu que ele montou e que fechou por falta de visitação. Quem imaginaria que poderia fechar? Foi mais ou menos como abrir um museu do mar no meio do sertão nordestino, em uma cidade com mil habitantes. Sua cidade, Loudon, tem um pouco mais, seis mil habitantes, mas infelizmente não é um lugar turístico e como ele abriu no meio da pandemia isso fez com que tivesse menos visitação ainda.

Dei uma olhada no Google Maps e vi que as ruas eram absolutamente desertas, tipo aqueles filmes de bangue-bangue onde o vento carrega arbustos rolando. Pensei que poderia ser assim somente no momento em que o carro do Google tirou fotos – não, não tem quase ninguém mesmo ao vivo…

O aeroporto mais próximo de Loudon é o de Knoxville, uns 40 minutos de carro – mas para chegar a Knoxville tive que fazer um pinga-pinga, saí de Milão para Nova Iorque, depois para Chicago e então para Knoxville, onde o Pete me esperava no aeroporto.

O museu foi feito com algumas peças bonitas e outras bem grandes de sua coleção. Ele teve um trabalhão para montar tudo, comprou vitrines, fez placas explicativas e deu uma geral no local que alugou. Aliás… antes de chegar procurei o endereço no Google, descobri que os frequentadores do estabelecimento anterior nunca devem ter reclamado de nada – era uma funerária.

Calculei que levaria uns dez dias para embalar tudo, colocar concha por concha em saquinhos plásticos e depois empacotar tudo em caixas de papelão para poder buscar em outra viagem com uma van grande ou caminhão da U-Haul (muitas conchas enormes que ocupam um espaço danado).

Nos primeiros dias o Pete ficou comigo o tempo todo, depois acabou me deixando sozinho. Na funerária. Com salas escuras no fundo e uma parte dos equipamentos de embalsamamento no andar superior. Então, acho que eu estava sozinho. Uma tarde tive vontade de tirar água do joelho e vi que tinha um banheiro na sala dos fundos. Abri a porta meio emperrada, liguei o interruptor e nada de luz. Entrei assim mesmo, cheio de teias de aranha – juro! Abri a torneira e escorreu um fio de água enferrujada…. desisti. Aí o Pete chegou e eu comentei sobre o banheiro, ele disse que só o banheiro da frente da casa que poderia ser usado, o outro ninguém usava desde que a funerária havia fechado.

Bom, digamos que eu fui extremamente veloz e terminei de embalar tudo em menos de quatro dias.

No tempo restante comecei a preparar as conchas do restante da coleção em sua casa que ele também iria vender. Sua casa fica no meio de uma propriedade de 49 acres, no alto de um morro com vista para o rio Tennessee, muito bonita! Ele mora com sua esposa Dianna e a filha Kasie, que me fizeram sentir em casa o tempo todo.

A coleção de conchas fica no porão, um “man-cave” com mesa de sinuca, TV grande, um bar legal, juke box e outros brinquedos. Mas mal dava para andar no lugar – além de colecionar conchas, o Pete coleciona vinhos e tem mais ou menos cinco mil garrafas espalhadas no local. Ele entende tanto de conchas como de vinhos, e todas as noites ele abria uma garrafa no jantar, de lugares e uvas diferentes. Antes de bebermos ele explicava as nuances de cada um, o aroma, os sabores, etc. Eu fazia a expressão no rosto que faço quando abro o capô de um carro possante – finjo que entendo e balanço a cabeça “hum…..”

Em uma tarde ele me convidou para um encontro mensal que seus amigos promovem em um terreno perto de sua casa. Cada um leva o que vai beber (cerveja, vinho, whisky, moonshine, etc.) e fazem um churrasco ou um ensopado com camarão, lagostins, batata, milho e linguiças que foi o que fizeram aquele dia (me disseram o nome, mas não lembro), e estava muito bom. O cozinheiro preparou em uma panela enorme aquecida com um maçarico embaixo, bem rústico.

Havia umas quinze pessoas – todos homens, obviamente… ambiente bem legal, todos conversando com todos. Eu nunca havia visto tantas picapes enormes juntas, bem estilo Rednecklândia, hehehe!