Na despedida, Annan critica política externa dos EUA

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Durante seus dois mandatos à frente da ONU, Annan entrou várias vezes em conflito com o governo de George W. Bush, especialmente por causa da invasão do Iraque

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, que está perto de deixar a chefia da entidade, pediu aos Estados Unidos nesta segunda-feira, 11, que evitem o estilo auto-suficiente de diplomacia e acabem com as violações dos direitos humanos cometidas em nome da “guerra contra o terror”.

Num discurso que seria proferido na biblioteca presidencial Harry Truman, em Independence, Missouri, Annan elogiou Truman, que governou entre 1945 e 1953, chamando-o de um exemplo para o mundo atual.

“Mais do que nunca, os norte-americanos de hoje, assim como o restante da humanidade, precisam de um sistema global que funcione e através do qual os povos do mundo possam enfrentar os desafios mundiais juntos”, disse ele. “E, para funcionar, o sistema ainda precisa de uma liderança de visão, na tradição de Truman.”

Annan deixa o posto no fim do mês. Ele será sucedido pelo sul-coreano Ban Ki-Moon.

Durante seus dois mandatos de cinco anos à frente da Organização das Nações Unidas, Annan entrou várias vezes em conflito com o governo de George W. Bush, especialmente por causa da invasão do Iraque, em março de 2003, executada sem o sinal verde do Conselho de Segurança da ONU.

“Nenhuma de nossas instituições globais conseguirá muita coisa se os EUA permanecerem afastados. Mas, quando eles estiverem plenamente engajados, o céu será o limite”, afirmou Annan.

Num momento em que Washington revê suas políticas em relação ao Iraque, Annan vem pressionando por um envolvimento maior da Síria e do Irã na crise, por um sistema político mais inclusivo e pela maior proteção dos direitos humanos.

Segurança coletiva
Truman, que foi o autor da ordem para que as duas bombas atômicas fossem lançadas sobre o Japão, em 1945, aprendeu na prática que a segurança “tem de ser coletiva e indivisível”, disse Annan.

“Vocês, americanos, fizeram muito no último século para construir um sistema multilateral eficiente, com as Nações Unidas no cerne. Vocês precisam menos dele hoje e ele precisa menos de vocês que 60 anos atrás?”

“Quando o poder, especialmente a força militar, é usado, o mundo só o considerará legítimo se estiver convencido de que ele está sendo usado com os fins certos – com objetivos mais amplamente compartilhados -, em concordância com normas amplamente aceitas”, afirmou Annan.

O chefe da ONU ressaltou que os EUA sempre tiveram um papel de liderança na defesa dos direitos humanos.

“Quando parece que ele está abandonando seus próprios ideais e objetivos, seus amigos no exterior ficam perturbados e confusos”, disse ele, numa aparente referência aos maus-tratos aos presos na baía de Guantánamo e em Abu Ghraib.

Annan atacou a oposição dos EUA à expansão do Conselho de Segurança da ONU, que hoje conta com apenas 15 países. O chefe da ONU apoiou o plano para acrescentar mais dez cadeiras ao conselho, mas Washington queria adicionar apenas o Japão e alguns outros países, alegando que a eficácia do conselho poderia ser atingida.

“É só através de instituições multilaterais que os países podem se responsabilizar uns aos outros. E isso torna importantíssimo organizar essas instituições de forma justa e democrática, dando aos pobres e aos fracos alguma influência sobre os atos dos ricos e fortes”, disse ele.