Neymar e a cultura perneta

0
995

Roberto Ribeiro

Expulso. Não joga mais a Copa América. Machucado. Não jogou mais o Mundial. Será prudente escalar o Neymar contra a Colômbia daqui pra frente?

E agora sem Neymar? A memória detona lembranças de uma semifinal traumática. A ferida sangra.

Mas o Paraguai não é a Alemanha!

Não interessa. Não importa a Copa América. Não importa a competição. Não é essa a questão.

A questão é a tão comentada Neymar-dependência. Uma verdade incontestável na opinião deste humil… sincero cronista. Não apenas por ser Neymar um jogador extraordinário `a evitação (a palavra existe!) do termo “craque” é proposital` e os demais simplesmente bons jogadores, no geral. Mas principalmente por ter sido uma ideia tão difundida, comentada, alardeada, que se tornaria realidade ainda que não fosse. Prova disso é que Dunga, exemplo inequívoco de sensibilidade, o escolheu como capitão da equipe. Um garoto de 23 anos que desde o início de carreira nunca apresentou um histórico de serenidade desportiva, equilíbrio emocional, liderança e que, além do mais, tem sido presenteado pela população brasileira, em especial pela imprensa especializada, com a responsabilidade de ganhar jogos sozinho.

Como pode ser escolhido capitão um jogador que habitualmente simula faltas (ainda que sofra várias) gerando inevitavelmente a animosidade do árbitro? – sobre o tema da simulação voltaremos logo. Esse será o interlocutor do escrete canarinho? Mas dessa escolha Neymar não tem culpa. E aqui retorno para esclarecer a passada evitação e espero que me compreendam nas poucas palavras: um “craque” poderia ser capitão.

Ainda assim, até Pelé, craque, o segundo melhor jogador do mundo de acordo com os argentinos, que mal vi jogar, mas cuja carreira é notória, não era capitão no Santos nem na Seleção. Ele mesmo…ou o Edson? – agora estou confuso – é ou são da opinião de que Neymar não deveria ser capitão. Aliás, vejamos o retrospecto: Bellini, Mauro, Carlos Alberto, Dunga e Cafu. Bons jogadores, não duvido. Algum deles era destaque da equipe? Cristalino!

Não acredito que o Brasil ganhe a Copa América, ainda que estivesse com Neymar. Quiçá se passaremos pelo Paraguai. Mas torcerei muito. Uma vez que nossa imprensa e nossos dirigentes não ajudam, um bom resultado sem nossa estrela talvez ajudasse a diminuir sua luz para o bem da Seleção e dele inclusive, ainda que possa parecer contraditório.

* * *
Agora gostaria de tecer alguns comentários sobre esse nobre costume de alguns jogadores de futebol, brasileiros são muito adeptos, de simular faltas, reclamar sem motivo da arbitragem, enfim, de ludibriar a autoridade para “benefício” próprio.

No meu entendimento essa atitude jamais deveria ser aceita, mas entendo, a contragosto, que pudesse até ser compreendida na época em que a televisão não tinha tantos recursos e que esse comportamento muitas vezes não fosse revelado de forma tão escandalosa. Pois pior que o delito em si é a completa falta de vergonha na cara do seu autor por ter cometido o delito! E isso é de responsabilidade do indivíduo. Mas como cobrar uma postura honrada do indivíduo inserido, ou ao menos criado numa sociedade que diz considerar a honestidade uma virtude tão rara que é digna de nota? Onde tantos escândalos acontecem impunimente que a integridade parece tornar-se sinônimo de incompetência? Onde o anabolizante moral é o embuste?

Mas pior do que tudo isso é quando a trapaça não é mais reconhecida como tal. Aí é o fim. E várias vezes tenho a impressão de que chegamos ao ponto. Quando o engodo é visto como esperteza simplesmente, como malandragem. Como se fosse um recurso necessário à obtenção do sucesso. Intrínseco à competição. Nos campos ou na vida.

Quando isso acontece, queridos leitores, o fim está próximo; a esperança esmaece; o êxodo se inflama.

Criticar jogadores? É mole.


Roberto Ribeiro nasceu nos EUA, é ator formado pela Escola de Arte Dramática – USP, trabalhou por 3 anos no México na Universidade de Colima e é há 11 anos funcionário do Banco do Brasil Recém chegado a Miami, no Brasil participou de inúmeros espetáculos teatrais e produções de TV.