Nova tática dos EUA para o Iraque inclui “manual antiinsurgência”

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Três anos e meio depois da invasão do Iraque, em março de 2003, e mais de 2.700 soldados americanos mortos, os Estados Unidos parecem querer tentar uma nova tática para conter a violência disseminada por todo o Iraque. Segundo uma reportagem do jornal americano “The New York Times” publicada nesta quinta-feira, o corpo militar dos EUA prepara um “manual prático” contra ações insurgentes e terroristas.

As estratégias teriam sido desenhadas a partir das duras lições aprendidas pelos americanos com o conflito no Iraque,inclusive no início deste ano, quando forças americanas tentaram, sem sucesso, conter a violência que divide o país. Os conflitos se intensificaram após um ataque contra um importante templo xiita em Samarra (norte de Bagdá), em fevereiro último, que desencadeou uma briga sectária sangrenta que exibe a fragilidade da segurança no país.

A presença prolongada dos EUA no Iraque nunca foi bem-vista pela insurgência iraquiana, mas a violência descontrolada aparentemente disseminou esta rejeição entre os civis. Pesquisa divulgada no mês passado mostra que seis em cada dez iraquianos aprovam as ações contra militares americanos no Iraque.

De acordo com o “NYT”, a nova doutrina vai enfatizar a segurança dos civis e a restauração de serviços essenciais, além do rápido desenvolvimento de forças de segurança locais. O abuso de prisioneiros e os ataques excessivamente agressivos ficariam de fora.

A revisão das práticas do Exército faz parte, segundo o jornal, de um grande esforço para mudar a cultura de promoção do uso do poder de fogo em operações contra inimigos convencionais.

Ainda de acordo com “NYT”, o manual destaca a necessidade de encorajar o desenvolvimento econômico e alerta contra a confiança em soluções puramente militares, relacionando o uso da força a resultados: “Quanto mais força é usada, menos eficiente é seu resultado. Sucesso tático não garante nada”, diz o manual.

Apesar das notícias agradarem, o jornal alerta que alguns analistas não acreditam que os EUA possuam tropas suficientes para levar a cabo uma nova doutrina, ao mesmo tempo em que se preparam para as constantes ameaças enfrentadas no mundo hoje.

Escândalos

A reportagem publicada nesta quinta-feira vem em meio a uma conturbada relação entre o público, o Exército americano e o “NYT”. A cobertura da guerra do Iraque feita pelo jornal foi alvo de fortes críticas, não só dos leitores mas também dos próprios executivos do jornal, que admitiu ter usado informações de fontes de confiança questionável. O mais conhecido fiasco foi a série de reportagens publicadas com base em informações de Ahmad Chalabi, um exilado iraquiano que afirmou ao governo e à imprensa americanos que o ex-ditador Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa escondidas no país.

Chalabi ficou conhecido por sua oposição ao governo iraquiano antes da queda de Saddam Hussein. Filho de banqueiros iraquianos xiitas e educado na Europa, ele foi alçado ao posto de vice-premiê do Iraque após a formação do novo governo pelos EUA no país, principalmente por sua colaboração com os serviços de inteligência americanos.

Mais tarde, o Pentágono retirou o apoio dado a Chalabi e confirmou que suas informações não se comprovaram. Em um editorial publicado em novembro de 2005, o “NYT” afirmou que Chalabi “se tornou popular entre oficiais do Pentágono e da Casa Branca em grande parte por dizer a eles o que eles queriam escutar”, exibindo a fragilidade do sistema de segurança dos EUA. Devido aos sucessivos escândalos, em maio deste ano foi anuncinada a nova formação do gabinete de governo do Iraque e Chalabi não recebeu nenhuma indicação.

Enfrentando uma crise de credibilidade, o jornal formou um comitê interno que recomendou em maio deste ano formas de melhorar sua imagem, arranhada por sucessivos escândalos. Além das reportagens sobre a guerra, outro motivo de peso na queda de credibilidade do “NYT” foi a descoberta de que o jornalista Jayson Blair inventou e plagiou dezenas de artigos publicados no jornal. Blair foi demitido em 2003.