O furacão Marina

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Depois de muito lutar e não conseguir registrar a Rede Sustentabilidade como partido político, Marina Silva decidiu filiar-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Muitos se chocaram e a chamaram de oportunista, ou seja, a adesão nada teve de programática, mas, sim, de pragmática. Traduzindo, a ex-senadora está aceitando as regras do jogo político atual e vai tentar chegar ao poder como qualquer outro político. Os mais realistas entenderam sua opção e consideram que ela agiu certo, pois não poderia jogar fora seu capital eleitoral.

Avaliando sem nenhum tipo de partidarismo, dá para entender a alternativa escolhida por Marina. Ora, se a regra do jogo é esta, de nada adianta ficar dando murros em ponta de faca. O jeito, talvez na visão dela, seria fazer uma reforma intestina, chegando ao poder para depois mudar a maneira como os governantes se posicionam diante dos problemas nacionais.

Os analistas políticos já estão no campo fazendo suas análises sobre o impacto da entrada de Marina Silva no PSB. Alguns fatores saltam aos olhos. Neste momento, ela poderia ser a candidata a vice na chapa do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que deverá concorrer à Presidência da República no próximo ano. O que intriga neste caso é a constatação de que ela possui muito mais potencial de votos do que Campos, tornando assim um caso sui generis no qual o vice teria mais prestígio do que o candidato principal da chapa.

Pesquisas recentes apontam que ela conta com mais de 22% das intenções de voto e mantém a segunda colocação atrás da atual presidente, Dilma Rousseff, com mais de 36%. Em contrapartida, Eduardo Campos contabiliza 5% das intenções de voto. Especula-se até mesmo haver uma inversão na ordem dos candidatos, com Marina Silva como cabeça de chave e Eduardo Campos como vice.

Inegavelmente, a filiação de Marina Silva e seu desejo de chegar ao poder deve provocar estragos nas outras candidaturas. Aécio Neves, do PSDB, não consegue superar a barreira dos 15% e agora pode ser canibalizado por uma alternativa oposicionista mais atraente. De qualquer modo, se isto vier a ocorrer, deve consolidar-se no provável segundo turno da eleição presidencial. Neste caso, Aécio e PSDB é que estarão numa posição interessante para negociar apoio à candidatura oposicionista em troca de cargos e participação no eventual governo Marina Silva/Eduardo Campos.

Do lado situacionista, a situação também é bastante desconfortável, uma vez que os marqueteiros do governo não poderão pintar Eduardo Campos e Marina Silva com epítetos como “agentes da direita”, “traidores da pátria” e outras bobagens do gênero, até porque seria uma tremenda incoerência. Enquanto Marina Silva foi ministra do governo Lula, todos encheram-se de orgulho ao vê-la como uma das 50 pessoas mais influentes do mundo em termos de meio ambiente, segundo a revista Time, o PSB de Eduardo Campos compunha a base aliada do governo Dilma. Ou seja, seria dar um tiro no pé.

Nem mesmo uma futura composição com o PSDB poderá ser criticada acidamente porque, convenhamos, o PT tem como aliados o PMDB (o partido da boquinha), Paulo Maluf, José Sarney e Fernando Collor. Ou seja, fica difícil justificar o injustificável.