O meu Brasil

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Lufe Lima*

Quando vim para os EUA, eu falava inglês meio mal e, até que tivesse melhorado no idioma e adquirido alguma experiência profissional no país, o melhor que consegui mesmo foi um emprego de entregador de comida para um restaurante chinês que atendia as enormes mansões da cidade de Coral Gables, área nobre da grande Miami. 

Vi o que era fazer parte da massa invisível. De garotão da Zona Sul carioca, passei a olhar o mundo com outros olhos. Passei a ser o peão. Lembro quando um cliente perguntou: 

– Você é chinês ou cubano? 

– Sou brasileiro, respondi. 

– Ah, é tudo a mesma coisa, disse com ar de desdém. 

Era muito comum ser ridicularizado, maltratado, insultado, não receber gorjeta… 

E lá se vão quase vinte anos. Enquanto ter vivido essa realidade foi doloroso, eu ganhei uma bagagem que nunca teria adquirido se não tivesse saído do berço esplêndido… de uma tradicional família quatrocentona do Rio de Janeiro. 

Quando olho para o Brasil, o vejo com olhos de estrangeiro, mas com coração de brasileiro. Tenho uma perspectiva bem diferente de quem está aí. Eu sei que o aluguel de um dois quartos em San Francisco custa quatro mil dólares e que um mecânico ou um encanador cobram em média $80/hora de mão de obra, então não consigo entender o que pessoas que moram a uma caminhada de uma das praias urbanas mais lindas do mundo estão chorando com o preço dos aluguéis, ou reclamando que os serviços estão muito caros. Simplesmente não computa. 

Quando saí do Brasil, a inflação era de 100% ao mês, a mão de obra dos brasileiros não valia nada, aluguéis eram a preço de banana e a grande maioria da população vivia abaixo da linha da pobreza.

E todo mundo reclamava. 

A sociedade evoluiu, a classe média cresceu, mas todo mundo continua reclamando. São mais carros nas ruas, gente que antes pegava dois trens para chegar ao trabalho agora quer morar nos bairros nobres das grandes cidades, e os preços vão subindo de acordo porque há maior demanda por bens e serviços. Um quarto e sala no Méier agora custa mais do que o três quartos que vendemos na Gávea em 94 e a “culpa” certamente é da esquerda. Bora trazer de volta os militares, porque no tempo deles a corrupção não existia (e ai de quem dissesse o contrário!). 

Nesse último mês, pelo menos três pessoas me acusaram de ter abandonado o barco, de ter fugido da raia, de ser totalmente ignorante da realidade brasileira… 

Ora, não abandonei barco nenhum. A vida me trouxe para os Estados Unidos. Quem me conhece sabe como eu estava surtando no Brasil e que quando a Becky, minha alma gêmea, quis me trazer pra cá, eu, mesmo contrariado, simplesmente não pude recusar. A história é muito longa e privada para descrever aqui, mas não foi de forma alguma uma questão de escolha. 

A nossa despedida do Brasil foi logo depois da vitoriosa Copa de 94, coincidiu com o falecimento do meu maior ídolo – Tom Jobim, com a eleição do FHC e a esperança de que o país caminhava na direção certa e que em breve poderíamos voltar. As últimas coisas que comprei no Galeão quando estava prestes a embarcar foi um bandeirão do Brasil, duas camisas da seleção, um CD do João e outro do Tom e uns cinco songbooks de MPB. Deus sabe quantas vezes me peguei chorando de saudade. Entregava comida ouvindo João Gilberto e Tom Jobim e chorando de dor por estar no exílio. 

Minha intenção era juntar uma grana e voltar no máximo em cinco anos, o que devido a circunstâncias simplesmente não foi possível. Não deu. Depois de cinco anos também não deu mais pra ficar em Miami, onde não nos adaptamos, e a vida nos trouxe para a San Francisco Bay Area, na belíssima Califíórnia. Lugar que finalmente encontramos paz. 

Espero que ninguém se ofenda, mas a classe média no Brasil se considera acima da lei. 

– Reclama da bolsa família e chama o povo de parasita, mas estuda em escola particular, faz cursinho pré-vestibular, tem até tutor em casa e quando “conquista” aquele emprego excelente que o “amigo do papai” lhe indicou, diz que vive numa meritocracia e vem com aquela conversa fiada de que ensinar a pescar é melhor que dar peixe. 

– Reclama da corrupção, mas compra a carteira de motorista, quando toma uma multa oferece uma “cervejinha” para o guarda e acha um absurdo não poder dirigir alcoolizado. 

– Reclama que a música não presta mais, mas faz download ilegal e não quer tirar um centavo do bolso para comprar um CD de artistas novos. 

– Processa o patrão por qualquer coisa, mas Deus nos livre se a empregada conquistar míseros direitos trabalhistas como hora-extra e uma jornada de trabalho digna! 

Sim, a minha perspectiva é totalmente diferente. O que essas pessoas não entendem é que não sou eu quem não conhece o Brasil e sim são elas que só conhecem um lado do Brasil. O lado de dentro… o seu lado. Não tem perspectiva, imparcialidade, não conseguem ver além dos antolhos e nem percebem que os estão usando. 

Santo de casa não faz milagre. Eu não abandonei o barco, ele é que simplesmente ficou pequeno demais pra mim.

*Lufe Lima é profissional de mídia