O preço da indiferença

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Opinião

As imagens chocantes do passageiro sendo expulso de um vôo da United ainda reverberam pelas redes sociais ao redor do mundo. Mesmo quem não tenha se interessado pelo fato já deve ter se deparado com um meme, comentário ou ter sido convidado para assinar petição de boicote à companhia aérea. O assunto chamou atenção até da Casa Branca, que classificou o ocorrido como “preocupante”. Não fossem as imagens tão fortes e o evento passaria em branco, como tantos que ocorrem diariamente nos aeroportos. O que chama atenção porem, além da truculência pouco comum, são pequenos detalhes que emergem à medida em que o caso se desdobra.

Pra início de conversa, vamos aos detalhes sórdidos que nos escapam à primeira vista: Temos um idoso, de origem étnica minoritária, arrastado para fora do avião, aparentemente aos sopapos, pelo poder público do Estado, a mando de uma corporação capitalista, sob o pretexto de ser obrigado a ceder seu direito adquirido em favor de burocratas da corporação, em prol de manter em movimento as engrenagens do sistema. Nossa, parece uma cena tirada do Capital, de Marx, alertando para os perigos do capitalismo selvagem. Pior que ele mais ou menos abordou essa questão, a do desprezo que o sistema tem pelo indivíduo. Tanto é que a Casa Branca acendeu a luz vermelha e se pronunciou.

Pensamos que do final do século XIX até aqui as coisas haviam evoluído, que o capitalismo havia se tornado mais inteligente, mais social, mais inclusivo. Isso porque o lado mais sinistro dessa besta, aquele da exploração do trabalhador, foi conveniente varrido pra debaixo do tapete do terceiro mundo, aonde a semana de trabalho em 8 dias e a escravidão ainda não foi abolida. O outro lado, menos sinistro, aquele que vem escondido em letras miúdas, corpo 3, nos contratos que assinamos ao adquirir bens e serviços, vive oculto em apólices de seguro que não cobrem absolutamente nada, recibos de produtos que não atendem nossas necessidades, escrituras de imóveis que não são realmente nossos e agora em passagens aéreas em vôos que não podemos pegar.

A situação expôs um fato pouco conhecido do público, o de que um bilhete aéreo não vale nada pois a companhia aérea se reserva ao direito de permitir embarque, não importa que você tenha comprado o bilhete. Mudar essa prerrogativa agora pode trazer consequências graves numa indústria que só encontra lucros nos passageiros que não transporta. Executivos do mercado amaldiçoam a Pan Am até hoje, por ter inventado o programa de milhas, que aliás decretou sua própria falência.

A demora do CEO da United, Oscar Muñoz, em emitir um pedido de desculpa convincente ao principal afetado pela situação, nesse caso o passageiro agredido, escondeu o medo da companhia sofrer um processo milionário. A estratégia se mostrou inútil e o preço dessa indiferença imensurável, tendo em vista que a United perdeu US$1 bilhão de seu valor de mercado em apenas dois dias. Num primeiro momento, como era de se esperar, tentou-se até demonizar a imagem do passageiro agredido, através de informações vazadas à imprensa quanto ao seu caráter. Divulgou-se que apesar de ser médico, tinha antecedentes criminais, em decorrência de haver prescrito medicamentos ilegalmente no passado e consequentemente perdendo sua licença profissional por alguns anos. Revelou-se também que assediou sexualmente um funcionário (do mesmo sexo) e só faltou ser dito que o pobre coitado também comia carne de cachorro na sexta-feira santa e que era fã de música sertaneja.

Pior do que a ameaça de um levante comunista é a força que a internet tem no mundo moderno. Para desespero de policiais corruptos, políticos trambiqueiros e celebridades em situações bizarras, agora sempre há uma câmera de smartphone antenada, pronta para detonar uma revolução pior do que bolcheviques ensandecidos. A estratégia do Grande Irmão vigiar seus passos vale para ambos os lados

No fim do dia, o impacto do ocorrido ainda está por vir. Para conter os ânimos, mudanças fenomenais devem ocorrer. Talvez o mimimi acerca da franquia de bagagens ganhe uma pausa e já vai estar de bom tamanho, quem sabe? 

O único detalhe que perturba nessa história é que tudo aconteceu em pleno quintal da sagrada terra do capitalismo selvagem, aonde a massa é exigente quanto aos seus direitos. Tivesse isso acontecido em outro lugar qualquer, quem sabe, no Brasil, teria repercutido tanto? Acho que não.


*Franz Valla é jornalista e produtor cultural com passagem por vários veículos, incluindo o Jornal do Brasil, aonde atuou como correspondente em Nova York. Os desdobramentos da política e seus impactos na sociedade alimentam essa coluna, além dos últimos assuntos da hora.