O rei está nu

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Opinião

Mal a contagem chegou ao fim e já se começou outra. Os primeiros 100 dias de governo Trump foram uma prova de fogo, melhor ainda, uma tortura para todo mundo. Primeiro porque quase ninguém levou a sério que a posse ocorreria. Numa situação sem precedentes, chegou a se aventar a hipótese de que os delegados eleitorais de cada estado em que ele ganhou mudassem seu voto. O tempo foi passando e o inevitável acabou acontecendo, o pretenso bilionário tomou posse e o pânico se instaurou na América. Os primeiros 100 dias de governo de um presidente eleito servem para mostrar a que ele veio e até aqui já deu para se notar que as perspectivas não são boas. A contagem agora é para que seu governo termine logo. Antes disso, com um pouco de sorte, seu próprio partido decrete o impeachment ou o mundo acabe em decorrência de sua peleja com a Coréia do Norte, quem sabe?

O fato é que a democracia americana passa por uma prova de fogo, mas as instituições já perderam a paciência. A imprensa, a princípio, tentou manter um certo tom de sobriedade, mas já se rendeu ao sarcasmo, o judiciário dá plantão para barrar qualquer coisa que ele se atreva a fazer sem autorização do congresso, que por sua vez não leva a sério nenhuma de suas propostas. O rei está nu, é uma farsa, todo mundo já sabe e as pesquisas de opinião estão ai para provar. Somente seus eleitores não perceberam ainda, mas como no conto de Andersen, melhor manter a pose para não entregar seu nível de mediocridade.

Em contrapartida, a situação na terrinha é semelhante, mas o sistema conspira para dar a entender o contrário. Se na época de Dilma o governo estava estagnado, agora, com Temer, anda a todo vapor no sentido contrário de promover crescimento econômico e bem-estar social. As reformas da previdência e do trabalho, falcatruas mais recentes, são a própria revogação da Lei Áurea. Através das delações premiadas de executivos da Odebrecht, sabe-se agora que o nível de corrupção dos políticos é muito maior do que se imaginava, até os que hipocritamente se diziam honestos foram desmascarados. A imprensa, tendenciosa, que deveria estar apurando tudo, se concentra em dar apoio à operação Lava-Jato, sua maior esperança na missão de provar os pecados de Lula.

A Lava-Jato, diga-se de passagem, cada vez mais se firma como uma ação para inglês ver. Em pouco mais de dois anos de existência só mandou para a cadeia uma meia dúzia de corruptos de baixo escalão e concedeu prisão domiciliar em castelos de luxo para três vezes esse número de bandidos. Ignora veementemente provas brutais, suficientes para incriminar figuras como Aécio, Alckmin, Sarney, Collor e o próprio Temer para se dedicar única e exclusivamente em prender o poderoso chefe da quadrilha, Lula. Este, por sua vez, deve estar planejando gastar só na próxima encarnação toda a imensa fortuna que roubou porque até agora a Veja, o Mossad, a CIA e nem o BOPE foram capazes de encontrar nada. Na falta de pistas que levem aos milhões desviados, ainda se insiste que aquele triplex num balneário de terceira, no qual ele nunca morou e cuja titularidade não está em seu nome ou de qualquer parente ou amigo próximo, só pode ser dele.

O cidadão comum está atento a tudo isso e sabe que o rei está nu. O sistema tem conhecimento disso e a prova está no resultado das anedóticas pesquisas de opinião, cada vez mais manipuladas. Mesmo com toda engenharia de falsificação de dados, é cômico o malabarismo que se faz para dar ênfase ao resultado de pesquisas de intenção de voto para um provável segundo turno presidencial, ao invés do óbvio primeiro. Sinal que as perspectivas são boas. No Brasil, a contagem começou para 2018.