Obama garante que projeto de reforma imigratória entra na pauta em janeiro

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Com a derrota nas eleições, os republicanos acenam com mais apoio desta vez. Em 2010 o projeto não foi adiante porque eles rejeitaram a proposta

Obama garante que projeto de reforma imigratória

DA REDAÇÃO – Desde que perderam as eleições presidenciais, os republicanos vêm procurando razões para a derrota. Uma delas certamente seria o fraco desempenho do partido junto ao eleitorado latino, e por essa razão o partido já sinaliza rever sua posição, que tem sido há anos contrária a um projeto de reforma da imigração. E o presidente Obama já sabe disso.

“O projeto de reforma imigratória estará no Congresso no dia seguinte à minha posse”, disse o presidente Barack Obama em uma coletiva à imprensa na quarta-feira (14). Ele usou a palavra “abrangente” (comprehensive), mas qualificou o projeto como limitado, que não significa uma anistia para todos, mas que a legalização virá para aqueles que estão nos Estados Unidos para trabalhar e ajudar no crescimento econômico do país. A posse de Obama no segundo mandato será realizada no dia 21 de janeiro, em Washington.

O presidente falou resumidamente sobre os possíveis elementos do projeto. A primeira coisa da lista deve ser melhorar a estrutura de segurança da fronteira com o México; a próxima será uma série de penalidades, que o próprio Obama classificou como “sérias” contra empresas que contratem ilegais. O último detalhe, o mais aguardado, é o caminho para a legalização. Ele adiantou que isso virá para aqueles que não tenham cometido crimes e que estejam no país para trabalhar.

“Nós vamos levar o texto e começar esse processo no Congresso”, garantiu o presidente, com voz decisiva, durante a reunião com jornalistas. Desta vez, diferente do ocorreu em 2010, Obama conta com mais apoio dos republicanos. Na semana passada, dois senadores, incluindo um republicano, afirmaram que vão retomar o projeto. O senador democrata Charles Schumer e o senador republicano Lindsey Graham deram início à proposta em 2010, mas tiveram que abandoná-la devido à rejeição dos republicanos com relação ao assunto.

Porém, com a derrota de Mitt Romney, que obteve fraco apoio do voto latino, os republicanos podem estar mudando de idéia. Desde o dia da eleição (6), mais e mais republicanos estão indo a público mostrando um interesse repentino no assunto. O senador Orrin Hatch, veterano em barrar a reforma imigratória no Congresso, disse que talvez tenha chegado a hora de conversar sobre o assunto. “Sempre achei que o problema tinha que ser resolvido”, disse Hatch. Já John McCain, que no passado defendeu uma reforma mas mudou de lado por questões partidárias, confirmou que existe uma “urgência do partido, por várias e óbvias razões” para resolver o assunto. “Tenho certeza de que estão todos preparados para chegar a um acordo”, disse o ex-adversário de Obama em 2008.

A adesão à causa imigrante não parou por aí. Até o líder da Câmara (House of Representatives Speaker), John Boehner, a maior figura republicana no Congresso, disse na sexta-feira (9) que o sistema imigratório americano está quebrado e manisfestou confiança de que os republicanos possam chegar a um acordo com Obama sobre a questão.

O senador Charles Schummer, em entrevista à rede NBC, disse até que pretendia agilizar as coisas para ainda este ano. No entanto, depois da coletiva de Obama, com a data estipulada pelo próprio presidente, os latinos podem esperar por mais notícias sobre o tema somente após a posse. O senador lembrou os republicanos que “ser `…` antiimigrante não é uma boa estratégia política”.

Acredita-se que existam 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, sendo a maioria latinos. Com esse número tão grande e crescendo à medida que os filhos americanos desse grupo chegam em idade para votar, os republicanos não querem andar na contramão da história, segundo o senador republicano, Lindsey Graham. “Esta é uma fórmula ineficaz para um partido usar: eis o grupo étnico de maior crescimento demográfico do país, e nós perdemos progressivamente o seu voto a cada eleição. Isto tem que acabar. Se você der um tiro no próprio pé, a melhor coisa a fazer é não recarregar a arma. `…` Eu quero derrubar esse muro e aprovar um projeto de reforma imigratória que seja uma solução americana para um problema americano”, disse Graham cujo partido vem perdendo terreno desde 2004 por causa do voto latino.

Critérios

O projeto de lei de Graham e Schumer tem quatro partes: manufaturar cartões de seguro social (social security) de alta tecnologia, à prova de fraudes, de modo que trabalhadores ilegais não consigam emprego; reforçar a segurança nas fronteiras e assegurar o cumprimento das leis imigratórias; criar um sistema para aceitar trabalhadores temporários; e implementar um caminho para legalizar os imigrantes indocumentados no país.

Schumer disse que o plano contempla “um caminho para a cidadania que é bem justo, onde é necessário saber inglês, ir para o final da fila, ter um emprego e nunca ter cometido algum crime”, e acrescentou que 65% das pessoas entrevistadas nas pesquisas de boca de urna na eleição do dia seis de novembro disseram ser favoráveis a um caminho para a cidadania.

REPERCUSSÃO

Advogados brasileiros opinam sobre as novas possibilidades de reforma

O AcheiUSA procurou alguns advogados para comentar sobre os detalhes de uma provável reforma imigratória que tem sido amplamente discutida depois da reeleição do presidente Barack Obama. Eles acreditam que o projeto, desta vez, deve sair do papel, mas adiantam que haverá custos e que a comunidade deve estar preparada para o processo e suas exigências.

“A mudança dos republicanos sobre o problema representa uma virada de 180 graus no passado”, disse Alex Kapetan, do escritório Wites & Kapetan. Ele lembrou da forte recusa dos republicanos no passado quanto ao tema por considerarem a legalização uma anistia para os que entraram nos Estados Unidos ilegalmente.

Kapetan e seu sócio Marc Wites acreditam que o Deffered Action, que possibilitou a alguns imigrantes mais jovens uma regularização temporária, ajudou Obama a ganhar o voto latino e que os imigrantes na Flórida reconhecem que os republicanos foram os responsáveis por impor uma barreira ao projeto de reforma imigratória durante anos. “Os republicanos ignoraram a realidade latina. É impossível mandar 11 milhões de pessoas de volta para o país de origem, e mais, continuar ignorando os americanos descendentes dessa população indocumentada”, disse Kapetan

Ainda na opinião do advogado, a maioria dos americanos já concorda que as fronteiras devem estar mais seguras, que a imigração ilegal precisa acabar, e que a deportação de imigrante ilegais deve continuar. Mas, ao mesmo tempo, os ilegais que já estão nos Estados Unidos provam que houve uma falha na legislação para ajudar aqueles que podem contribuir para o crescimento do país se legalizados. “Nós acreditamos que os republicanos a partir de agora vão trabalhar em conjunto com os democratas no intuito de encontrar uma solução para o problema, e quem sabe colocar o projeto de imigração no topo da lista”, conclui Kapetan.

Já o advogado Max Whitney alerta para possíveis dificuldades que os ilegais possam ter durante o processo de legalização.”Temos que tomar cuidado para que o caminho da legalização não seja relegado a uma última posição ou que não seja implementado esperando o desenrolar das outras três partes iniciais do plano corrente de reforma imigratória, que prevê algumas condições ao indocumentado antes de lhe oferecer uma via para a cidadania.  Em outras palavras, todas as quatro fases da reforma têm de ser implementadas simultaneamente”, opina.

Essa reforma, explica Whitney, pode ser a mais abrangente do que todas já realizadas nos Estados Unidos, porque lida não somente com a legalização de imigrantes indocumentados, mas também com medidas de segurança interna e externa. “Acredito que a maior dificuldade para o imigrante se enquadrar nesse projeto será o custo com o processo, que provavelmente vai incluir multas”, avisa.