Opinião: Contagem regressiva

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Antonio Tozzi

O último debate presidencial realizado esta semana aqui em Boca Raton mais exatamente na Lynn University mostrou que Barack Obama está melhor preparado do que Mitt Romney no que se refere à política externa. Isto seria mesmo previsível, porque ele é o presidente e, portanto, detém as informações sobre o que está ocorrendo no mundo atualmente.

Com isto, ele foi considerado o vencedor do debate. Mas isto não se traduziu na conquista de mais eleitores indecisos, como seria o ideal. As pesquisas continuam mostrando que a disputa está empatada e seria uma temeridade apostar em um vencedor antes da contagem dos votos.

O bufão Donald Trump, inimigo declarado do presidente, está espalhando aos quatro cantos que tem uma bomba que deve implodir a reeleição do atual ocupante da Casa Branca. Rumores dão conta de que Barack Obama estaria se divorciando de sua mulher, Michelle. Obviamente, se isto for verdade, é um assunto irrelevante em termos de governo, mas significaria uma rachadura na imagem de Barack Obama que tem em sua esposa um dos alicerces de sua candidatura. Porém, como a credibilidade de Trump equivale a uma nota de três dólares, o presidente pode ficar tranqüilo.

Os analistas continuam enfatizando que os dois principais focos da disputa eleitoral são Ohio e Flórida. Aqui, em nosso estado, parece que Romney está ligeiramente à frente, porém, ainda dentro da margem de erro. Ou seja, uma vitória de Obama não seria surpreendente. Em Ohio, no entanto, ocorre o inverso. A ligeira vantagem pende para o presidente e o desafiante precisa vencer naquele estado se quiser se tornar o novo presidente dos Estados Unidos.

Isto explica-se pelo sistema eleitoral americano, que é singular. Ou seja, não são contados os votos individuais, mas, sim, os votos por colégio eleitoral de cada estado. Desta forma, já se sabe de antemão quando cada candidato contabiliza de votos. Segundo as previsões dos analistas, Barack Obama tem assegurados 237 votos enquanto Mitt Romney conta com 191. Para se eleger presidente dos EUA, o candidato precisa alcançar 270 votos. Percebe-se que a tarefa de Obama é mais fácil, uma vez que ele está na frente do adversário por 46 votos.

Deste modo, se o presidente vencer em Michigan, onde está liderando, e ganhar a batalha de Ohio, ele garante a reeleição. Acompanhe aqui a matemática eleitoral: Michigan, ironicamente estado onde nasceu Mitt Romney, detém 16 votos, enquanto Ohio contabiliza 18 votos. A soma dos dois estados perfaz 34 votos. Acrescente estes 34 votos aos 237 já conquistados e Obama atinge os 271 votos, reelegendo-se presidente dos EUA.

Para Romney, a tarefa é mais inglória. Ele não se pode dar ao luxo de perder Ohio ou Flórida. O candidato republicano precisa de vitória nestes dois estados e conquistar outros estados menos populosos para reverter a vantagem do presidente. Flórida é importante porque transfere ao vencedor 29 votos. Ou seja, se Obama vencer aqui, Romney será derrotado.

De acordo com os analistas, há a possibilidade desta eleição repetir a eleição de 2000, mas com sinal trocado. Naquela ocasião, o candidato do Partido Democrata, Al Gore, foi derrotado pelo republicano George W. Bush após uma controversa recontagem de votos realizada no estado da Flórida, mais exatamente no condado de Palm Beach. Desta forma, Bush foi considerado vitoriosos por 357 votos a mais, enquanto Al Gore perdeu a eleição, mesmo tendo sido mais votado pelos eleitores de todo o país.

Agora, em 2012, pode ocorrer o contrário. Mitt Romney pode receber mais votos dos eleitores, mas perder a Casa Branca por causa do sistema eleitoral, que pode dar à Barack Obama os estados chave para sua reeleição. Se isto acontecer, pode ganhar força a tese de muitos políticos para seja feita uma reforma eleitoral em que a vontade do eleitor americano seja respeitada.

Como pau que bate em Chico bate em Francisco, talvez agora os políticos republicanos venham a apoiar esta alternativa, uma vez que se negaram a modificar o sistema depois de terem visto Al Gore ter sido prejudicado por um sistema totalmente anacrônico, que foi criado pelos chamados “Pais da Pátria”, quando redigiram a Constituição dos EUA.

O objetivo, na época, era salvaguardar o direito de representatividade para os estados menos populosos, mas atualmente isto se tornou incoerente, porque não traduz o sentimento do eleitorado. Assim, um eleitor de Barack Obama no Texas não se anima a ir à urna porque sabe que Mitt Romney já é o vencedor naquele estado onde mora. O mesmo ocorre com o eleitor de Romney que mora na Califórnia e está sabendo que Obama levará os votos relativos àquele estado.

E é neste cenário de incerteza que surgirá o vencedor desta acirrada disputa. Ou Barack Obama assegura mais quatro anos de mandato e se põe a cumprir as promessas da campanha eleitoral, que não se concretizaram, ou Mitt Romney assume com seu discurso de recolocar o país nos trilhos e mostrar uma luz no fim do túnel. Se isto se tornar realidade, restará aos cidadãos que vivem nos EUA rezar para que a luz no fim do túnel não seja a de uma locomotiva que vai passar por cima de todos.