Opinião: Ficção gera violência real?

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Antonio Tozzi

E mais um massacre de inocentes foi registrado esta semana. Desta vez, num cinema na cidade de Aurora, perto de Denver, no Colorado, EUA. Antes que os mais pressurosos venham dizer que isto é uma característica americana, vale lembrar que na Noruega um maluco também matou dezenas de pessoas, assim como no Brasil houve dois casos – um em um cinema (triste coincidência) em São Paulo e outro em uma escola no Rio de Janeiro.

Isto posto é preciso analisar o que faz uma pessoa supostamente equilibrada cometer um desatino deste. O que estaria passando na cabeça de James Holmes? Afinal ele não se enquadra no perfil de um marginal. Muito pelo contrário. O rapaz de 24 anos, autor desta chacina que deixou 12 mortos e mais de 50 feridos, havia se formado com honras em Neurociências na Califórnia e estava no Colorado para um curso de pós-graduação na área de Ciências Médicas.

De repente, o sujeito irrompe numa sala de cinema fantasiado, usando máscara, capa e colete à prova de balas, e começa a disparar a esmo ceifando vidas de jovens inocentes. Gente como Jessica Ghawi que há duas semanas havia escapado de um massacre num mall em Toronto, no Canadá, entre outros.

Sem querer ser repetitivo, não dá para fugir de um tema recorrente: a facilidade na aquisição de armas e munição nos Estados Unidos. Os defensores da manutenção do direito de comprar armas por cidadãos comuns alegam que não são as armas que matam as pessoas, mas sim o uso indevido que se faz delas por pessoas que não possuem o equilíbrio mental necessário para usá-las. É verdade, mas não se pode mais adiar o controle na venda de armas e de munição. O rapaz possuía um verdadeiro arsenal em sua casa e a maioria foi adquirida pela Internet, como se fosse uma Amazon ou Ebay da morte.

Outra coisa. A proliferação de filmes violentos, exaltando gângsters, super heróis que usam violência para combater os seus também violentos inimigos, o sucesso de jogos eletrônicos onde o vencedor é aquele que mais elimina os inimigos e assim por diante pode estar formando uma geração que considera matar alguém algo tão normal como chupar um picolé de limão.

Exatamente isto é que precisa ser mudado. Não sou adepto de nenhum tipo de censura ou cerceamento da criatividade, mas é chegada a hora dos cineastas, desenvolvedores de jogos eletrônicos, autores de livros etc. Mudarem o foco. Passarem a mostrar em suas obras bons exemplos, com a diminuição do uso de armas a fim de despertar nos jovens outros sentimentos, mais nobres e solidários e não vingativos e beligerantes.

Claro que não se pode culpar os criadores das obras artísticas porque seria uma visão simplista da realidade, até porque a violência está presente em nossa sociedade. Tanto isto é verdade que Chicago vem ostentando índices preocupantes de mortes violentas de jovens por causa do aumento dos homicídios, curiosamente o único item que vem crescendo nos EUA, enquanto os demais indicadores de criminalidade vêm demonstrando queda.

Ou seja, não é apenas nas grandes tragédias que as armas fazem estrago e a violência serve de parâmetro. É também – e principalmente – nos bairros pobres das grandes cidades americanas, nos locais dominados pelos cartéis de droga no México e nas favelas do Rio de Janeiro e na periferia de São Paulo.

A sociedade clama por um esforço concentrado no combate a esta praga que destroi vidas, sobretudo dos jovens. Além de diminuir sensivelmente obras de ficção que exaltam a violência, os governos devem aumentar consideravelmente a fiscalização sobre a comercialização de armas, sobretudo estas mais letais. O ideal mesmo seria a proibição de fabricá-las porque assim os maus elementos sequer teriam a oportunidade de tê-las nas mãos, diminuindo o poder de fogo deles e consequentemente aumentando o poder das pessoas de bem que não ficariam tão à mercê de marginais armados até os dentes ou de malucos inconsequentes.

Texto anteriormente publicado no www.diretodaredacao.com