Opinião: Um (eficiente) sistema repressor

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Jehozadak Pereira

A primavera chegou ao fim e os dias mais quentes e mais longos já chegaram e a má notícia chega por parte do ICE que resolveu impor à revelia dos governos estaduais o Programa Comunidades Seguras nos Estados de New Hampshire e Massachusetts. O Programa Comunidades Seguras visa tirar das ruas as pessoas que são buscadas pelas autoridades, criminosos foragidos e os que cometeram delitos. Porém, sempre que um imigrante indocumentado é parado no trânsito por qualquer motivo corre o sério risco de ser entregue para o ICE e consequentemente ser deportado. Ou seja, o clima de intranquilidade e insegurança aumentou consideravelmente nos últimos tempos.

O programa é mandatório e obrigatório e deve estar em vigor a nível federal em 2013. Daqui por diante o medo e o pavor de quem dirije sem documentos vai aumentar ainda mais, principalmente porque o condutor pode ser apanhado e ir para na Imigração e de lá ser mandado embora interrompendo o sonho americano.

O certo é que o governo democrata de Barack Obama tem tudo para ser o mais repressivo da história americana em termos imigratórios, tudo muito diferente das promessas de que faria a reforma imigratória no primeiro ano do seu governo. Nunca se prendeu e deportou tanta gente como agora e a cada dia mais o que se vê é um implemento de equipamentos e táticas para tirar de circulação motoristas e carros irregulares. Um exemplo disto é o scanner de placas, cada vez mais parte integrante de viaturas. O equipamento que custa caro e é dispendioso é cada vez mais visto em carros da polícia e a capacidade de rastreamento e detecção de irregularidades é uma das suas características marcantes e nada lhe escapa pois estão conectados diretamente aos computadores.

É óbvio que o Estado tem todo o direito de se precaver, instalar e prover os meios para a sua segurança e dos seus cidadãos, mas o que se vê cada vez mais é uma nação cada vez mais repressora que, aliada ao legalismo, beira ao insuportável em todos os aspectos.
Aliás, a força policial nos Estados Unidos aumentou consideravelmente após os atentados de 11 de setembro de 2001 e hoje qualquer pretexto, por menor que seja, é suficiente para checagem de documentos de qualquer pessoa e ninguém está isento de passar por isto.
Basta andar pelas ruas para se constatar isto. Um exemplo é quem precisa usar o serviço do metrô em Boston. Corriqueiramente, oficiais de polícia vistoriam bolsas, mochilas e pacotes. Quem se recusa a se deixar ser vistoriado é convidado a se retirar da estação e isto é um bom sinal, pois as autoridades se preocupam cada vez mais com a segurança do ser humano e o patrimônio. A lição é clara não se deixar jamais ser apanhado de surpresa novamente como ocorreu em setembro de 2001.

Voltando ao estado legalista, aqui tudo é pela letra da lei e isto pode ser visto no trânsito, tanto nas grandes quanto nas médias e pequenas cidades ao redor do país. Como os departamentos de polícias são descentralizados, a fiscalização fica muito mais fácil de ser feita já que os oficiais de polícia invariavelmente moram nas mesmas cidades onde trabalham e portanto, conhecem os moradores e quem circula pelas suas ruas. Qualquer ato ou atitude suspeita vai provocar imediata resposta das autoridades.

Quantos de nós não temos pelo menos uma história para contar de algo que aconteceu no trânsito? Basta não parar no STOP ou passar o sinal amarelo para ver o que acontece. E quem excede a velocidade? E quem para em local proibido, na vaga do deficiente ou em frente ao hidrante?

A maioria dos brasileiros estava acostumada com uma fiscalização frouxa ou corrupta no Brasil e aqui se surpreende com a severidade com que a lei é cumprida e, do modo como as pequenas infrações são comparadas a grandes transgressões, nada passa batido.
Logo, todo o cuidado é pouco para quem dirige por ruas e estradas. O ideal para se viver em paz é ter a exata percepção de que a lei é para todos, americanos inclusive, e quem erra paga caro pelo deslize, já que a parte que vai doer é o bolso, e como se sabe de longa data é a mais sensível do corpo humano.

Deve-se sempre lembrar que o contingente policial é treinado para ver o erro de longe e pouca coisa “ou nada”vai passar despercebida por eles a qualquer hora do dia ou da noite, seja no mais calorento verão ou no mais frio dos invernos. Cuidem-se para que não sejam presas fáceis deste sistema que oferece segurança mas que pune rigorosamente como poucos, e no final quem paga a conta injusta e pesada é o trabalhador imigrante que ainda espera por uma ampla reforma imigratória.